Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 88 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXVII

onde se revela quem eram mestre pedro

e seu macaco, com o mau resultado

que dom quixote teve na aventura

do zurro, que não acabou como ele gostaria

e como tinha pensado

Cide Hamete, cronista desta grande história, começa este capítulo com

estas palavras: “Juro, como cristão e católico…”. Seu tradutor anota

que, ao jurar como cristão e católico, sendo ele mouro, como sem

dúvida era, Cide Hamete não quis dizer outra coisa além de que, assim

como o cristão e católico, quando jura, jura ou deve jurar dizer

sempre a verdade em tudo que falar, assim ele a dizia como se jurasse

como cristão e católico no que queria escrever sobre dom Quixote,

especialmente no que se refere a quem era mestre Pedro e quem era o

macaco vidente que espantava a todos aqueles povoados com suas

adivinhações.

Cide Hamete Benengeli diz, então, que aquele que leu a primeira

parte desta história estará bem lembrado de Ginés de Pasamonte, que

dom Quixote libertou na Serra Morena entre outros condenados às

galés, favor que aquela gente maligna e de maus costumes depois lhe

agradeceu muito mal e lhe pagou pior ainda. Esse Ginés de

Pasamonte, a quem dom Quixote chamava de “Ginesillo de

Parapilla”, foi quem furtou o burro de Sancho Pança, que, por não ter

sido relatado nem o como nem o quando na primeira parte, por culpa

dos impressores, levou muitos a atribuir a falha à pouca memória do

autor. Mas, enfim, Ginés furtou o burro enquanto Sancho Pança

dormia sobre ele, usando o ardil que usou Brunelo quando, estando

Sacripante sobre Albraca, lhe tirou o cavalo de entre as pernas, e depois Sancho o recuperou como se contou.

Esse Ginés, portanto, com medo de ser achado pela justiça que o

procurava para castigá-lo por seus infinitos delitos e velhacarias, que

foram tantos e tamanhos que ele mesmo escreveu um grande volume

contando-os, resolveu ir para o reino de Aragão e cobrir o olho esquerdo, dedicando-se ao ofício de titereiro, que nisso e na mão leve

sabia se desempenhar de modo excelente.

Aconteceu, então, que comprou de uns cristãos já livres que vinham

da Berbéria aquele macaco, a quem ensinou a pular para o ombro a

um certo sinal e a murmurar no ouvido, ou assim parecer. Feito isso,

antes de entrar numa aldeia com seu teatro e seu macaco, informava-

se nos lugares mais próximos, ou com quem podia, que coisas

interessantes tinham acontecido na tal aldeia e com que pessoas; e,

levando-as bem guardadas na memória, a primeira coisa que fazia era

apresentar seu teatro, às vezes com uma história, às vezes com outra,

mas todas alegres e prazerosas e conhecidas. Acabada a peça,

propunha as habilidades do macaco, dizendo ao povo que adivinhava

todo o passado e o presente, mas que o futuro não estava a seu

alcance. Pela resposta a cada pergunta pedia dois reais, mas às vezes

dava um desconto, dependendo da cara dos perguntadores. E, se

alguma vez chegava às casas de gente de quem ele conhecia a história,

mesmo que ninguém lhe perguntasse nada, para não pagá-lo, fazia sinal ao macaco e logo dizia que ele tinha dito tais e tais coisas, que se

ajustavam aos acontecimentos. Com isso ganhava crédito

incontestável, e todo mundo andava atrás dele. Outras vezes, como

era muito arguto, respondia de maneira que as respostas casavam bem

com as perguntas; e, como ninguém o apertava para que dissesse como

seu macaco adivinhava, pasmava a todos com a macaquice e enchia os

bolsos.

Assim que entrou na estalagem, reconheceu dom Quixote e Sancho,

de modo que foi fácil deixar pasmos o cavaleiro e o escudeiro e todos

os demais presentes. Mas haveria de lhe custar caro se dom Quixote

tivesse baixado um pouco mais a mão quando cortou a cabeça do rei

Marsílio e destruiu toda a sua cavalaria, como ficou dito no capítulo

precedente.

Isto é o que havia para ser dito sobre mestre Pedro e seu macaco.

Voltando a dom Quixote de la Mancha, digo que, depois de ele ter

saído da estalagem, resolveu ver primeiro as margens do rio Ebro e

aqueles arredores todos, antes de entrar na cidade de Zaragoza, pois

tinha tempo de sobra para tudo até começarem as justas. Com essa

intenção seguiu seu caminho, pelo qual andou dois dias sem que lhe acontecesse coisa digna de se pôr no papel, até que no terceiro, na

subida de uma ladeira, ouviu um grande barulho de tambores,

trombetas e arcabuzes. No começo pensou que um regimento de

soldados passava por aquelas bandas e, para vê-los, esporeou

Rocinante e se foi ladeira acima. Quando chegou ao alto do morro,

viu lá embaixo o que lhe pareceu mais de duzentos homens armados

com diferentes tipos de armas, como se disséssemos chuços, balestras,

partasanas, alabardas e aguilhões, e alguns arcabuzes e muitas rodelas.

Desceu a encosta e se aproximou do esquadrão, até que viu

perfeitamente as bandeiras, distinguiu as cores e percebeu as divisas

que elas estampavam, especialmente uma em que, num estandarte ou

pendão de cetim branco, estava pintado de modo muito vívido um

burro pequeno como os da Sardenha, a cabeça levantada, a boca

aberta e a língua de fora, no ato e postura de zurrar; em torno dele

estavam escritos estes versos, em letras grandes:

Em vão não foram os zurros

nem dos alcaides nem dos burros.

Por esta insígnia, dom Quixote deduziu que aquela gente devia ser

do povoado do zurro, o que disse a Sancho, lendo o que estava escrito

no estandarte. Disse também que o homem que havia dado a notícia

daquele caso tinha errado ao dizer que haviam sido dois vereadores os

que zurraram, porque, conforme os versos, não haviam sido outros

que não os alcaides. Ao que Sancho Pança respondeu:

— Senhor, não tem de reparar nisso, pois pode ser que os vereadores

que zurraram então viessem com o tempo a ser alcaides de seu

povoado, de modo que podem ser chamados com ambos os títulos,

ainda mais que não diminui a verdade da história os zurradores serem

alcaides ou vereadores, desde que eles tenham realmente zurrado,

porque tão a pique de zurrar está um alcaide como um vereador.

Enfim, eles entenderam que a aldeia zombada saía para lutar com a

outra que a zombava além da conta e do que se devia à boa

vizinhança.

Dom Quixote foi se aproximando dos combatentes, não sem grande

desgosto de Sancho, que nunca foi amigo de se meter em semelhantes

campanhas. Os homens do esquadrão o receberam entre eles,

acreditando que era de sua facção. Dom Quixote, alçando a viseira, foi com atitude sóbria e elegante até o estandarte do burro, e ali o

rodearam todos os chefes do exército para vê-lo, pasmos com o pasmo

costumeiro em que caíam todos aqueles que o viam pela primeira vez.

Dom Quixote, notando como o olhavam com tanta atenção, sem falar

nem perguntar nada, quis se aproveitar daquele silêncio e, quebrando

o seu, elevou a voz e disse:

— Meus bons senhores, tão encarecidamente quanto posso vos

suplico que não interrompais um discurso que desejo vos fazer, até que

possais ver se vos desgosta ou aborrece, pois, se acontecer isso, ao

menor sinal que me fizerdes porei um ferrolho em minha boca e uma

mordaça em minha língua.

Todos lhe disseram que falasse o que quisesse, que o escutariam de

boa vontade. Com essa licença, dom Quixote prosseguiu, dizendo:

— Eu, meus caros senhores, sou cavaleiro andante, que tem as armas

por ofício e professa o socorro dos necessitados e desvalidos. Há dias

soube de vossa desgraça e da causa que os move a pegar em armas a

cada passo, para vos vingar de vossos inimigos. E, tendo pensado e repensado muitas vezes sobre vosso caso, acho, pelas leis do duelo,

que estais enganados em se ter por afrontados, porque uma pessoa

apenas não pode afrontar um povoado inteiro, a menos que o desafie

como traidor em conjunto, por não saber especificamente quem

cometeu a traição pela qual o desafia. Exemplo disso temos em dom

Diego Ordóñez de Lara, que desafiou todo o povo de Zamora, porque

ignorava que apenas Vellido Dolfos havia cometido a traição de matar

seu rei, de modo que desafiou a todas as pessoas, e a todas a vingança

e a resposta concerniam. Agora, cá para nós, a verdade é que o senhor

dom Diego foi um tanto impertinente e ultrapassou muito os limites

do desafio, pois não tinha motivo para desafiar os mortos, as águas,

nem os trigais, nem os que estavam para nascer, nem outras coisas que

ali se declaram.1 Mas vá lá, porque, quando a cólera sobe à cabeça, a

língua fica sem pai nem mãe e não há mestre nem freio que a corrija.

Como, enfim, um só homem não pode afrontar um reino, uma

província, uma cidade, uma república, nem uma aldeia inteira, fica

claro que não há motivo para sair em busca de vingança por causa do

desafio da dita afronta, porque ela não o é. Imaginai só se os

habitantes da aldeia da Relógia e os que os chamam assim se matassem a cada encontro, ou os caçaroleiros, berinjeleiros, filhotes de

baleia, saboeiros,2 ou tantos outros nomes ou apelidos que andam na

boca dos meninos e de gente baixa? Não seria ótimo que todas essas

pessoas insignes se envergonhassem e se vingassem e andassem como

se não existisse bainha, sempre de espada em punho por qualquer

pendência, por menor que fosse? Não, não, Deus não permita nem

queira! Por quatro coisas os homens prudentes, ou as repúblicas bem

organizadas, devem pegar em armas, desembainhar as espadas e pôr

em risco suas pessoas, vidas e bens: a primeira, para defender a fé

católica; a segunda, para defender sua vida, que é de lei natural e

divina; a terceira, em defesa de sua honra, de sua família e bens; a

quarta, a serviço de seu rei na guerra justa; e, se quiséssemos

acrescentar uma quinta, que pode contar como segunda, é em defesa

de sua pátria. A esses cinco motivos capitais, podem se acrescentar

alguns outros que sejam justos e razoáveis e que obriguem a pegar em

armas, mas pegá-las por ninharias, por coisas que são antes

brincadeiras e diversões que afrontas, não parece uma atitude de gente sensata, ainda mais que se meter numa vingança injusta, pois justa

não pode haver nenhuma, vai diretamente contra a santa lei de nossa

religião, que nos ordena fazer o bem a nossos inimigos e a amar os

que nos odeiam,3 mandamento que, embora pareça difícil de cumprir,

não o é senão para aqueles que têm menos de Deus que do mundo e

mais de carne que de espírito; porque Jesus Cristo, Deus e homem

verdadeiro, que nunca mentiu, nem pôde nem pode mentir, sendo

nosso legislador, disse que seu jugo era suave e sua carga, leve,4 de

modo que não havia de ordenar coisa que fosse impossível de cumprir.

Então, meus senhores, vossas mercês estão obrigados pelas leis divinas

e humanas a se acalmar.

— Que o diabo me carregue — disse Sancho a si mesmo nessas

alturas — se este meu amo não é teólogo, e se não o for, parece, como

um ovo a outro.

Dom Quixote recuperou um pouco o fôlego e, vendo que ainda se

mantinham em silêncio, quis continuar sua conversa e teria

continuado se não o interrompesse a sagacidade de Sancho, que,

vendo que seu amo se detinha, tomou a palavra por ele, dizendo:

— Meu senhor dom Quixote de la Mancha, que por um tempo se

chamou o Cavaleiro da Triste Figura e agora se chama o Cavaleiro dos

Leões, é um fidalgo dos mais atilados, que sabe latim e espanhol como

um bacharel, e em tudo quanto trata e aconselha procede como um

excelente soldado, e tem na ponta da língua todas as leis e os

mandamentos do que chamam duelo. Então, não há mais o que fazer

senão se deixar levar pelo que ele disser, e me culpem se errarem, sem

falar que está claro que é uma asneira se envergonhar apenas por

ouvir um zurro, pois eu me lembro que, quando menino, zurrava a

toda hora que me dava na veneta, sem que ninguém zurrasse melhor, e

com tanta graça e propriedade que bastava zurrar para que todos os

burros do povoado zurrassem, e nem por isso deixava de ser filho de

meus pais, que eram honradíssimos, e, embora fosse invejado por essa

habilidade por mais de quatro empertigados de meu povoado, pouco

se me dava. E, para que se veja que digo a verdade, esperem e escutem,

que essa arte é como a de nadar, que, uma vez aprendida, nunca se

esquece.

E em seguida, com uma das mãos no nariz, começou a zurrar com

tanta força que todos os vales próximos retumbaram. Mas um dos que

estavam perto dele, achando que nisso havia zombaria, levantou um

porrete que tinha na mão e lhe deu tamanha pancada que, sem que

nada evitasse, deu com Sancho Pança no chão. Dom Quixote, vendo

Sancho tão maltratado, com a lança em riste atacou o que havia

batido, mas foram tantos os que se puseram entre eles que não foi

possível vingá-lo; pelo contrário, vendo que chovia sobre ele uma

tormenta de pedras e que o ameaçavam mil balestras apontadas e uma

quantidade nada menor de arcabuzes, virou as rédeas de Rocinante e

saiu a galope do meio deles, encomendando-se a Deus de todo coração

que o livrasse daquele perigo, temendo a cada passo que lhe entrasse

uma bala pelas costas e lhe saísse pelo peito, e a todo instante

respirava fundo, para ver se lhe faltava o ar.

Mas os do esquadrão se contentaram em vê-lo fugir, sem disparar

nele. Depois, logo que Sancho voltou a si, puseram-no sobre seu

jumento, deixando-o ir atrás de seu amo — não que ele estivesse em

condições de saber o que fazer com as rédeas. Mas seu burro seguiu as

pegadas de Rocinante, de quem não se separava nunca. Então, depois de se afastar um bom pedaço, dom Quixote virou a cabeça e viu que

Sancho vinha, e o esperou, notando que ninguém o seguia.

Os do esquadrão ficaram por ali até de noite, mas, como os

adversários não vieram para a batalha, voltaram para seu povoado,

alvoroçados e alegres. Se conhecessem o costume antigo dos gregos,

ergueriam naquele lugar um monumento para lembrar a vitória.

 

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