Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 115 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LIV

que trata de coisas referentes

a esta história e não a qualquer outra

O duque e a duquesa decidiram que o desafio que dom Quixote fez a

seu vassalo devido à causa já referida fosse adiante; mas, como o

rapaz estava em Flandres, onde tinha se refugiado para não ter dona

Rodríguez por sogra, ordenaram que ocupasse seu lugar um lacaio

gascão, que se chamava Tosilos, orientando-o muito bem sobre tudo o

que devia fazer.

Dois dias depois o duque disse a dom Quixote que em quatro dias

chegaria seu adversário e se apresentaria no pátio, armado como

cavaleiro, e sustentaria que a donzela mentia, jurando pela metade de

suas barbas, ou mesmo pelas barbas inteiras, se ela afirmava que ele

houvesse prometido casamento. Dom Quixote recebeu essas notícias

com muito prazer e prometeu a si mesmo fazer maravilhas naquele

caso, considerando uma grande sorte ter surgido semelhante

oportunidade em que aqueles senhores pudessem ver até onde se

estendia o valor de seu poderoso braço. Assim, contente e alvoroçado,

esperou os quatro dias, que, na conta de seu desejo, iam se tornando

quatrocentos séculos.

Deixemos que passem, como deixamos passar outras coisas, e vamos

acompanhar Sancho, que, entre alegre e triste, vinha montado no

burro em busca de seu amo, cuja companhia lhe agradava mais que

ser governador de todas as ilhas do mundo.

Aconteceu então que, não tendo se afastado muito da ilha de seu

governo — que ele nunca tratou de averiguar se era mesmo ilha,

cidade, vila ou arraial —, viu que pela estrada por onde ele ia vinham

seis peregrinos com seus cajados, desses estrangeiros que pedem esmolas cantando. Quando eles se aproximaram, puseram-se em fila e,

elevando as vozes, todos juntos começaram a cantar em sua língua,

que Sancho não pôde entender, a não ser uma palavra que

pronunciaram claramente: “esmola”. Por isso entendeu o que pediam

em seu canto e, como era caritativo, segundo diz Cide Hamete, tirou

de seus alforjes meio pão e meio queijo, de que vinha provido, e os deu, dizendo-lhes por sinais que não tinha outra coisa para oferecer.

Eles aceitaram de boa vontade e disseram:

— Guelte! Guelte!1

— Não entendo o que me pedis, gente boa — respondeu Sancho.

Então um deles pegou um saco do peito e o mostrou a Sancho, para

dizer que queriam dinheiro. Sancho, pondo o dedo polegar na

garganta e estendendo a mão para cima, deu a entender que não tinha

um tostão. Depois, esporeando o burro, abriu caminho entre eles; e ao

passar, tendo um deles olhado Sancho com muita atenção, avançou e,

jogando-lhe os braços na cintura, em voz alta e muito castelhana

disse:

— Valha-me Deus! O que é que eu vejo? É possível que eu tenha em

meus braços meu amigo, meu bom vizinho Sancho Pança? Sim, tenho,

sem dúvida nenhuma, porque não estou dormindo nem estou bêbado

agora.

Sancho se admirou ao se ver chamado pelo nome e abraçado pelo

peregrino estrangeiro, mas depois de olhá-lo um tempo com muita atenção, sem falar uma palavra, não conseguiu reconhecê-lo. Então,

percebendo sua confusão, o peregrino lhe disse:

— Como é possível, Sancho Pança, meu irmão, que não reconheças

teu vizinho Ricote, o mourisco, comerciante em tua vila?

Então Sancho olhou para ele com mais atenção e começou a

relembrar. Finalmente, veio a reconhecê-lo de todo e, sem apear do

jumento, lhe jogou os braços no pescoço e disse:

— Quem diabos ia te reconhecer, Ricote, nesse traje de bufão? Mas

me diz quem te fez franduleiro e como tens a audácia de voltar à

Espanha, onde, se te reconhecerem e te pegarem, vais passar um

aperto?

— Se tu não me reconheceste, Sancho — o peregrino respondeu —,

estou seguro de que neste traje não haverá ninguém que me descubra.

Mas vamos nos afastar da estrada para aquela alameda ali, onde meus

companheiros querem comer e descansar. Ali comerás com eles, que

são gente muito agradável, e eu poderei te contar o que me aconteceu

depois que parti de nossa terra, para obedecer às ordens de Sua

Majestade, que com tanto rigor ameaçou e expulsou os desgraçados

de minha nação, como ouviste falar.2

Sancho concordou, e, depois de Ricote ter falado com os demais

peregrinos, desviaram para a mata de álamos que ficava a uma boa

distância da estrada real. Largaram os cajados, tiraram as esclavinas

ou capotes e ficaram em mangas de camisa — todos eram moços e

muito bonitos, exceto Ricote, que já era homem de idade. Todos

carregavam alforjes e todos os alforjes, pelo que se via, vinham bem

abastecidos, pelo menos de coisas apetitosas e que chamam a sede a

duas léguas. Acomodaram-se no chão e, fazendo toalha do gramado,

puseram sobre ele pão, sal, facas, nozes, fatias de queijo e ossos

limpos de presunto, que, se não se deixavam mastigar, não se

defendiam de ser chupados. Puseram também um manjar preto que

disseram que se chamava “caviar” e é feito de ovas de peixes, grande

atiçador de sede de odre. Não faltaram azeitonas, embora secas e sem

tempero algum, mas saborosas e que distraem o apetite. Mas o que

mais campeou no campo daquele banquete foram seis odres de vinho,

que cada um tirou de seu alforje — até o bom Ricote, que havia se

transformado de mourisco em alemão ou em tudesco, pegou o seu, que podia competir em tamanho com os cinco.

Começaram a comer com grande prazer e bem devagar, saboreando

cada bocado, que pegavam com a ponta da faca, e só um tiquinho de

cada coisa. Dali a pouco, todos de uma vez, levantaram os braços e os

odres no ar: as bocas postas nos gargalos, os olhos cravados no céu,

não pareciam senão que faziam pontaria nele. Dessa maneira,

balançando as cabeças de um lado para o outro, sinal que confirmava

o prazer que sentiam, estiveram um bom tempo, transferindo para

seus estômagos o que havia nas vasilhas.

Sancho olhava tudo e de coisa nenhuma se condoía;3 pelo contrário,

para cumprir com o ditado que ele conhecia muito bem — “em Roma

como os romanos” —, pediu a Ricote o odre e fez pontaria como os

demais, e não com menos prazer.

Empinaram quatro vezes os odres, mas a quinta não foi possível,

porque já estavam mais secas que esparto, coisa que murchou a alegria

que até ali haviam mostrado. De quando em quando, algum juntava

sua mão direita com a de Sancho e dizia:

— Español y tudesqui, tuto uno: bon compaño.

E Sancho respondia:

— Bon compaño, jura Di!4

E desatava numa risada que lhe durava uma hora, sem se lembrar

então de nada do que havia acontecido em seu governo, porque sobre

o tempo em que se come e se bebe as preocupações têm pouca

jurisdição. Então, o fim do vinho foi o princípio do sono, que deixou a

todos adormecidos sobre a própria mesa e toalha, menos Ricote e

Sancho, que continuaram alertas porque haviam comido mais e

bebido menos. Ricote afastou Sancho, e os dois se sentaram ao pé de

uma faia, deixando os peregrinos mergulhados em doce sono. Aí, em

puro castelhano, sem um tropeço em sua língua mourisca, Ricote disse

as seguintes palavras:

— Bem sabes, Sancho Pança, meu caro vizinho e amigo meu, como o

pregão e proclama que Sua Majestade mandou publicar contra os

mouriscos surpreendeu e aterrorizou a todos nós. Pelo menos, eu

fiquei de tal jeito que achava que, antes do tempo que nos concedia

para irmos embora da Espanha, o rigor da pena já tinha caído sobre

mim e sobre meus filhos.5 Tratei então, em minha opinião como pessoa prudente, tanto como aquela que sabe que em tal data vão lhe

tirar a casa onde vive e providencia outra para se mudar, digo, tratei

de sair sozinho de minha vila, sem minha família, para procurar onde

levá-la sem incômodos e sem a pressa com que os outros saíram,

porque vi muito bem, e todos os nossos anciãos viram, que aqueles

pregões não eram apenas ameaças, como alguns diziam, mas

verdadeiras leis, que deveriam ser executadas no tempo estabelecido. E

o que me forçava a acreditar nessa verdade era conhecer as intenções

más e disparatadas que os nossos tinham, tanto que me parece que foi

inspiração divina a que levou Sua Majestade a tomar tão briosa

resolução, não porque todos fôssemos culpados, que alguns eram

cristãos firmes e verdadeiros, mas eram tão poucos que não podiam

ser comparados aos que não o eram, e não era certo criar a serpente

no seio, tendo os inimigos dentro de casa. Finalmente, com justa razão

fomos castigados com a pena do desterro, branda e suave na opinião

de alguns, mas na nossa a mais terrível que podiam nos dar. Onde

quer que estejamos, choramos pela Espanha. Afinal, nascemos aqui, é

nossa pátria natural; em lugar nenhum achamos a acolhida que

desejamos em nossa desventura, e na Berbéria e em todas as partes da

Á

África onde esperávamos ser recebidos, acolhidos e agradados, ali é

onde mais nos ofendem e maltratam. Não reconhecemos o bem até tê-

lo perdido; e o desejo que quase todos temos de voltar à Espanha é tão

grande que a maioria daqueles que sabem a língua, como eu (e são

muitos), volta a ela e deixa lá suas mulheres e seus filhos

desamparados: tamanho é o amor que têm por ela. Agora conheço e

sinto o que se costuma dizer: é doce o amor da pátria.

“Como disse, saí de nossa vila, entrei na França e, embora ali nos

tenham recebido bem, quis ver tudo. Passei para a Itália e cheguei à

Alemanha, onde me pareceu que se podia viver com mais liberdade,

porque seus habitantes não se preocupam muito com melindres: cada

um vive como quer, porque na maior parte dela se vive com liberdade

de consciência. Arranjei uma casa numa vila perto de Augsburgo e me

juntei a estes peregrinos, porque muitos deles têm por costume vir à

Espanha visitar os santuários, que consideram suas Índias, pois são

ganhos certos e lucros conhecidos: percorrem-na quase toda e não há

um povoado de que não saiam comidos e bebidos, como se diz, e com um real pelo menos, em dinheiro trocado, e ao fim de sua viagem saem

com mais de cem escudos livres, que, trocados por ouro, são

escondidos no oco de seus cajados ou nos remendos das esclavinas, ou

de qualquer jeito que podem. Assim os tiram aqui do reino e os levam

a suas terras, apesar dos guardas nos postos da fronteira onde são

revistados.

“Minha intenção agora, Sancho, é levar o tesouro que deixei

enterrado6 (como está fora da vila, poderei pegá-lo sem perigo) e

escrever para minha filha e minha mulher ou passar de Valência a

Argel, onde elas estão, e dar um jeito de trazê-las a algum porto da

França e levá-las dali para a Alemanha, onde aceitaremos o que Deus

quiser fazer de nós. Pois bem, Sancho, sei com certeza que a Ricota,

minha filha, e Francisca Ricota, minha mulher, são católicas

praticantes, mas eu, embora não o seja tanto, tenho mais de cristão

que de mouro e sempre rogo a Deus que me abra os olhos do

entendimento e me faça ver como devo servi-lo. Agora, o que me

espanta é não saber por que minha mulher e minha filha foram para a

Berbéria em vez da França, onde podiam viver como cristãs.”

Sancho respondeu:

— Olha, Ricote, isso não dependeu da vontade delas, porque foram

levadas por Juan Tiopieyo, irmão de tua mulher, e, como deve ser

mouro puro, foi para onde achou melhor; e posso te dizer outra coisa:

acho que é inútil ir buscar o que deixaste escondido, porque tivemos

notícias de que haviam confiscado de teu cunhado e de tua mulher

muitas pérolas e muito dinheiro em ouro que levavam sem declarar.

— É, pode ser isso mesmo — replicou Ricote —, mas eu sei, Sancho,

que não tocaram em meu esconderijo, porque não lhes revelei onde

era, com medo de algum desmando. Então, Sancho, se quiseres vir

comigo e me ajudar a pegar meu tesouro e dissimulá-lo, eu te darei

duzentos escudos, com que poderás remediar tuas necessidades, pois

sabes que sei que tens muitas.

— Eu iria — respondeu Sancho —, mas não sou nada cobiçoso; se o

fosse, não teria largado de mão esta manhã um ofício em que poderia

fazer as paredes de minha casa de ouro e comer em pratos de prata

antes de seis meses. Assim, por isso e por achar que estaria traindo

meu rei ao favorecer seus inimigos, não iria contigo nem que me desses à vista quatrocentos escudos, em vez dos duzentos que me

prometes.

— E que ofício é o que deixaste, Sancho? — perguntou Ricote.

— Deixei de ser governador de uma ilha — respondeu Sancho. — E

de uma ilha… Olha, Ricote, eu juro: só vão encontrar outra igual no

dia de São Nunca.

— E onde fica essa ilha? — perguntou Ricote.

— Onde? — respondeu Sancho. — A duas léguas daqui, e se chama

ilha Logratária.

— Espera aí, Sancho — disse Ricote. — As ilhas estão no mar; não

há ilhas em terra firme.

— Como não? — replicou Sancho. — Eu te garanto, meu amigo

Ricote, que esta manhã mesmo parti de lá, e ontem estive governando

a meu bel-prazer, como um condenado.7 Mas, apesar de tudo, eu a

deixei, porque o ofício de governador me pareceu perigoso.

— E o que ganhaste no governo? — perguntou Ricote.

— Ganhei o conhecimento de que não sirvo para governar, a não ser

um rebanho de cabras — respondeu Sancho —, e que as riquezas que

se ganham nesses governos são à custa de nosso descanso e sono, sem falar na comida, porque os governadores de ilhas devem comer pouco,

especialmente se têm médicos que olhem pela saúde deles.

— Eu não te entendo, Sancho — disse Ricote —, mas me parece que

tudo o que dizes não tem pé nem cabeça, pois quem haveria de te dar

uma ilha para governar? Por acaso faltavam homens mais hábeis que

tu para governadores? Vamos, Sancho, volta a ti e olha se queres vir

comigo, como te disse, para me ajudar a pegar o tesouro que deixei

escondido. É tão grande que na verdade pode ser mesmo chamado de

tesouro. E, como te disse, te darei o suficiente para que vivas.

— Já te falei que não quero, Ricote; contenta-te que não serás

denunciado por mim — replicou Sancho. — Segue teu caminho sem

preocupações e me deixa seguir o meu, pois eu sei que pode se perder

o que se ganha honestamente, mas o que se ganha desonestamente

também perde seu dono.

— Bem, não quero discutir, Sancho — disse Ricote. — Mas me diz:

tu estavas lá na vila quando minha mulher, minha filha e meu cunhado

partiram?

— Sim, estava — respondeu Sancho —, e posso te garantir que tua

filha se foi tão formosa que todos saíram para vê-la e todos diziam

que era a mais bela criatura do mundo. Ia chorando e abraçava a

todas as suas amigas e conhecidas e quantos chegavam para vê-la, e a

todos pedia que a encomendassem a Deus e a sua mãe, Nossa

Senhora. Falava com tanto sentimento que me fez chorar, e olha que

não costumo ser muito chorão. E juro que muitos pensaram em

escondê-la, ir atrás e raptá-la na estrada, mas o medo de desobedecer

o decreto do rei os deteve. Quem se mostrou mais apaixonado foi dom

Pedro Gregório, aquele rapaz que tu conheces, o morgado rico, que

dizem que a amava muito. Depois que ela partiu, ele nunca mais

apareceu em nossa vila, e todos pensamos que tinha ido atrás dela

para roubá-la, mas até agora não se soube nada.

— Bem no fundo, sempre desconfiei que esse cavaleiro era louco por

minha filha — disse Ricote —, mas, confiante no valor de minha

Ricota, nunca me incomodei de saber que a amava, pois já terás

ouvido, Sancho, que poucas vezes ou nenhuma as mouriscas se

misturam por amor com cristãos-velhos. Depois, pelo que sei, minha filha se interessava mais por religião que por amor: não se importaria

com a corte desse morgado.

— Deus te ouça — replicou Sancho —, se não a coisa ficaria feia

para os dois. Mas me deixa partir, meu amigo Ricote, pois quero

chegar esta noite onde está meu senhor dom Quixote.

— Deus te acompanhe, Sancho, meu irmão. Meus companheiros já

começaram a se mexer, é hora de prosseguirmos nosso caminho

também.

Então os dois se abraçaram, Sancho montou em seu burro e Ricote

se apoiou em seu cajado, e se separaram.

 

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