Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 87 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXVI

 

onde se prossegue a engraçada

aventura do titereiro,

com outras coisas realmente muito boas

“Calaram-se todos, tírios e troianos”,1 quero dizer, todos os que

olhavam para o palco estavam pendentes dos lábios do narrador das

maravilhas que se passavam ali, quando ouviram soar muitos

atabales, trombetas e disparos de artilharia. O barulho cessou logo e,

em seguida, o rapaz elevou a voz e disse:

— Esta história verídica que se representa aqui a vossas mercês foi

tirada ao pé da letra das crônicas francesas e dos romances espanhóis

que andam na boca das pessoas e até dos meninos pelas ruas. Trata da

luta do senhor Gaifeiros pela libertação de sua esposa Melisendra, que

estava presa na Espanha, em poder dos mouros, na cidade de

Sansueña,2 que assim se chamava então a hoje conhecida Zaragoza.

Mas vejam vossas mercês como está ali dom Gaifeiros jogando gamão,

conforme se canta:

Dom Gaifeiros está jogando as tábulas,

pois já está esquecido de Melisendra.

“E aquele personagem que surge ali com coroa na cabeça e cetro nas

mãos é o imperador Carlos Magno, suposto pai da tal Melisendra,

que, amofinado por ver o ócio e descaso de seu genro, vem ralhar com

ele. Reparem com que veemência e obstinação o repreende, que até

parece querer dar uma meia dúzia de cascudos com o cetro, e há

autores que dizem que os deu, e muito bem dados; e, depois de lhe ter

dito muitas coisas sobre o perigo que corria sua honra em não

procurar libertar sua esposa, dizem que disse: ‘Cansei de vos dizer:

emendai-vos’.

“Olhem também vossas mercês como o imperador dá as costas e

deixa ressentido dom Gaifeiros, que, impaciente de cólera, joga longe

o tabuleiro e as peças e pede a toda pressa as armas e a armadura,

mais a espada Durindana3 a seu primo Roland. Mas vejam como dom

Roland não a quer emprestar e oferece sua companhia na difícil

aventura que inicia. Porém, o corajoso e irado cavaleiro não quer aceitar isso; pelo contrário, diz que apenas ele é o bastante para

libertar sua esposa, mesmo que estivesse metida nas profundezas do

centro da terra; e com isso começa a botar a armadura, para se pôr a

caminho em seguida.

“Voltem vossas mercês os olhos para aquela torre que aparece ali e

se imagina ser uma das torres do alcácer de Zaragoza, que agora

chamam de Aljafería.4 Aquela dama que surge naquela sacada vestida

ao modo mouro é a inigualável Melisendra, que muitas vezes fica

olhando dali a estrada para a França e, com a mente em Paris e em seu

esposo, se consola em seu cativeiro.

“Reparem, acontece agora um novo incidente, talvez jamais visto.

Não veem aquele mouro que, dissimulado e pé ante pé, com um dedo

na boca, se aproxima pelas costas de Melisendra? Pois vejam como lhe

dá um beijo em plena boca, e a pressa com que ela cospe e se limpa

com a manga branca de sua camisa, e como se lamenta e de pesar

arranca os lindos cabelos, como se eles tivessem a culpa do malefício.

“Olhem também aquele mouro circunspecto que está naquela varanda: é o rei Marsílio de Sansueña, que, por ter visto a insolência

do mouro, apesar de ele ser parente seu e muito íntimo, mandou que o

prendessem em seguida e lhe dessem duzentos açoites, levando-o pelas

ruas de costume,

com gritões pela frente

e varadas por trás;5

e vejam aqui como saem para executar a sentença, logo depois de

cometido o delito, porque entre os mouros não há notificação da

acusação nem prisão preventiva, como entre nós.”

— Ei, menino — disse dom Quixote em voz alta nessas alturas —,

contai vossa história em linha reta e não vos meteis em curvas ou

transversais, que para passar a limpo a verdade são necessárias muitas

provas e contraprovas.

Também disse mestre Pedro lá de dentro:

— Vamos, rapaz, basta de floreios. Faz como esse senhor manda,

que será muito melhor: continua teu canto com simplicidade e não te

metas em contrapontos, que é fácil desafinar.

— Está bem — respondeu o rapaz, prosseguindo. — Este

personagem que aparece aqui a cavalo, coberto por uma capa da

Gasconha,6 é o próprio dom Gaifeiros. Aqui, já vingada do

atrevimento do mouro apaixonado, está sua esposa, que com melhor

cara e mais calma foi para os mirantes da torre e fala com seu esposo,

pensando que é algum viajante de passagem, com quem teve todas

aquelas conversas que aquele romance relata:

Cavaleiro, se à França vais,

perguntai por Gaifeiros,

que eu não repito agora, porque a prolixidade costuma engendrar o

tédio. Basta ver como dom Gaifeiros baixa o capuz da capa e como

Melisendra, pelos gestos alegres, dá a entender que o reconheceu, e

mais ainda agora que vemos que salta da sacada para a garupa do

cavalo de seu bom esposo. Mas ai, desventurada!, a barra da saia se

prendeu numa das hastes de ferro da sacada, e está suspensa no ar,

sem poder chegar ao chão. Vejam, porém, como o piedoso céu

intervém nas maiores necessidades, pois chega dom Gaifeiros e, sem

pensar se rasgará ou não a preciosa saia, agarra a esposa e a puxa até

o chão, depois a põe de um salto na garupa de seu cavalo, escanchada como um homem, e lhe ordena que se firme e o abrace pelas costas, de

modo que cruze as mãos no peito, para não cair, pois a senhora

Melisendra não estava acostumada a semelhantes cavalgadas.

“Vejam também como os relinchos do cavalo dão mostras de que

está contente com a brava e formosa carga que leva na forma de seu

senhor e sua senhora. Vejam como dão as costas à fortaleza e saem da

cidade e, cheios de alegria e regozijo, tomam o rumo de Paris.

“Ide em paz, oh, par sem-par de verdadeiros amantes! Chegai a

salvo a vossa pátria desejada, sem que a sorte ponha algum obstáculo

em vossa feliz viagem! Que os olhos de vossos amigos e parentes vos

vejam desfrutar em paz tranquila os dias (que sejam tantos como os de

Nestor) que vos restam de vida!”

Aqui se elevou de novo a voz de mestre Pedro, que disse:

— Simplicidade, meu rapaz, simplicidade. Não te pavoneies, que

toda afetação é má.

O intérprete não respondeu nada, apenas prosseguiu, dizendo:

— Não faltaram alguns olhos ociosos, que costumam ver tudo, para

observar a fuga de Melisendra, sacada abaixo e garupa acima, e

contar ao rei Marsílio, que em seguida mandou dar o toque de alarme. E olhem com que pressa, pois a cidade já se atordoa com o som dos

sinos que tocam em todas as torres das mesquitas.

— Essa não! — disse dom Quixote nessa altura. — Nisso dos sinos

mestre Pedro anda perdido, porque entre os mouros não se usam

sinos, mas atabales e uma espécie de oboé que parece com nossas

charamelas. Esse negócio de tocarem sinos em Sansueña é sem dúvida

um disparate.

Ouvindo isso, mestre Pedro parou de tocar e disse:

— Não dê atenção a ninharias, senhor dom Quixote, nem queira

levar tudo a ponta de faca, que assim não se chega a nada. Não se

apresentam por aí quase todo dia mil comédias cheias de mil

impropriedades e disparates, e mesmo assim correm felizes suas

carreiras e se ouvem não apenas aplausos, mas admiração e tudo?

Prossegue, rapaz, e deixa que falem, pois, se eu encher minha bolsa,

dá na mesma que represente mais impropriedades do que o sol tem de

átomos!

— Isso lá é verdade — replicou dom Quixote.

E o rapaz disse:

— Vejam a numerosa e resplandecente cavalaria que sai da cidade

em perseguição aos amantes católicos, quantas trombetas soam,

quantas charamelas tocam, quantos atabales e tambores retumbam.

Temo que os alcancem e os tragam de volta amarrados à cauda de seu

próprio cavalo, o que seria um horrendo espetáculo.

Então, vendo e ouvindo tantos mouros e tanto barulho, dom

Quixote achou bom ajudar os fugitivos e, levantando-se, disse em voz

alta:

— Não consentirei que em meus dias e em minha presença se cometa

um ultraje desses a tão famoso cavaleiro e a tão atrevido amante como

dom Gaifeiros. Detende-vos, canalha malnascida! Não o sigais nem o

persigais, ou travareis batalha comigo!

Dito e feito: desembainhou a espada, aproximou-se do palco com

um pulo e, com rapidez e fúria nunca vista, começou a desferir

cutiladas sobre os títeres mouros, derrubando uns, decapitando

outros, estropiando este, destroçando aquele e, entre muitos golpes,

desfechou um fendente que, se mestre Pedro não se abaixasse, não se encolhesse e se escondesse, lhe teria partido a cabeça com mais

facilidade que se fosse feita de marzipã. Mestre Pedro bradava:

— Detenha-se vossa mercê, senhor dom Quixote! Repare que estes

que derruba, destroça e mata não são mouros de verdade, mas

bonequinhos de massa. Por meus pecados, olhe, que botas a perder

todo o meu ganha-pão!

Mas nem por isso dom Quixote diminuiu as cutiladas, mandobres,

pranchadas e reveses que caíam cerrados como granizo. Finalmente,

mais rápido que dois suspiros, botou todo o palco abaixo, picando em

pedacinhos todos os títeres e apetrechos, o rei Marsílio gravemente

ferido e o imperador Carlos Magno com a coroa partida e a cabeça

rachada em duas partes. O grupo de ouvintes se sobressaltou, o

macaco fugiu pelos telhados da estalagem, o primo se amedrontou, o

pajem se acovardou e até o próprio Sancho Pança teve um grande

pavor porque, como ele jurou depois de passada a tempestade, jamais

havia visto seu senhor com ira tão desatinada. Então, com o palco

num destroço generalizado, dom Quixote se acalmou um pouco e disse:

— Gostaria de ter agora em minha presença todos aqueles que não

acreditam nem querem acreditar na serventia dos cavaleiros andantes

no mundo. Olhem, se eu não me achasse aqui, o que seria do bom

dom Gaifeiros e de sua formosa Melisendra? Com certeza que a esta

hora já teriam sido alcançados por estes cães, que teriam feito alguma

barbaridade com eles. Enfim, viva a cavalaria andante sobre todas as

coisas!

— Viva a cavalaria — disse mestre Pedro nessa altura com voz

enfermiça — e morra eu! Pois sou tão desgraçado que posso dizer com

o rei dom Rodrigo:

Ontem fui senhor da Espanha,

e hoje não tenho uma ameia

que possa dizer que é minha.

“Não faz meia hora, nem mesmo meio minuto, que me vi senhor de

reis e de imperadores, cheias minhas cavalariças, minhas arcas e

minhas bolsas de infinitos cavalos e de inumeráveis riquezas, e agora

me vejo desolado e abatido, pobre e mendigo, mas acima de tudo sem

meu macaco: por Deus, podem me suar os dentes antes que ele volte para mim. E tudo por causa da fúria desatada deste senhor cavaleiro,

de quem se diz que ampara os órfãos, repara injúrias e faz outras

obras de caridade, e apenas comigo falhou sua intenção generosa,

benditos e louvados sejam os céus, lá onde estão os assentos mais

elevados. Enfim, tinha de ser o Cavaleiro da Triste Figura aquele que

iria desfigurar a de meus títeres.”

Sancho Pança se comoveu com as palavras de mestre Pedro e lhe

disse:

— Não chores, mestre Pedro, nem te lamentes, que me partes o

coração, pois te garanto que meu senhor dom Quixote é tão católico e

escrupuloso que, se se der conta de que te deu algum prejuízo, saberá

como te pagar em dobro.

— Se o senhor dom Quixote me pagasse uma parte do que seu feito

desfez, eu ficaria contente e sua mercê resguardaria sua consciência,

porque não se pode salvar quem tem o alheio contra a vontade de seu

dono e não lhe restitui.

— Isso é verdade — disse dom Quixote —, mas não sei de nada que eu tenha de vosso, mestre Pedro.

— Como não? — respondeu mestre Pedro. — E estas relíquias que

jazem neste chão duro e estéril? Quem as aniquilou e as espalhou

senão a força invencível desse poderoso braço? E de quem eram seus

corpos senão meus? E com que me sustentava eu senão com eles?

— Agora me convenci — disse dom Quixote nesse ponto — de que é

verdade o que pensei muitas outras vezes: esses magos que me

perseguem simplesmente botam as coisas como elas são diante de

meus olhos e depois as mudam e transformam no que querem. Com

toda sinceridade vos digo, senhores que me ouvis, que tudo o que

aconteceu aqui me pareceu acontecer ao pé da letra: que Melisendra

era Melisendra; dom Gaifeiros, dom Gaifeiros; Marsílio, Marsílio; e

Carlos Magno, Carlos Magno. Por isso fui tomado de cólera, e para

cumprir com meu dever de cavaleiro andante quis ajudar os que

fugiam, e com esse bom propósito fiz o que haveis visto. Se saiu tudo

às avessas, não é culpa minha, mas dos maus que me perseguem. Mas,

apesar desse meu erro não proceder de malícia, quero eu mesmo me

condenar a pagar as custas: mestre Pedro, veja o que quer pelos títeres destruídos, que eu me ofereço para pagá-los logo, em boa e corrente

moeda castelhana.

Mestre Pedro se inclinou, dizendo:

— Eu não esperava menos da inaudita cristandade do valoroso dom

Quixote de la Mancha, verdadeiro socorro e amparo de todos os

andarilhos desvalidos e necessitados. O senhor estalajadeiro e o

grande Sancho serão mediadores entre mim e vossa mercê e avaliarão

o que valem ou podiam valer os fantoches destruídos.

O estalajadeiro e Sancho disseram que assim o fariam, e logo mestre

Pedro pegou no chão o sem cabeça rei Marsílio de Zaragoza, e disse:

— Já se vê como é impossível transformar este rei no que era antes,

de modo que me parece, salvo melhor juízo, que me dê por seu

término, fim e morte quatro reais e meio.

— Adiante! — disse dom Quixote.

— Bem, por este talho de cima a baixo — prosseguiu mestre Pedro,

tomando nas mãos o partido imperador Carlos Magno —, não seria

muito pedir cinco reais e um quarto.

— Não é pouco — disse Sancho.

— Nem muito — replicou o estalajadeiro. — Arredonde a conta:

cinco reais.

— Eu pago os cinco reais e um quarto — disse dom Quixote —, que

não está num quarto a mais ou a menos o montante dessa grande

desgraça. E acabe logo com isso, mestre Pedro, que é hora de jantar,

pois já sinto a barriga roncando de fome.

— Por este títere da formosa Melisendra — disse mestre Pedro —

que está sem nariz e com um olho a menos, quero, e me atenho ao

justo, dois reais e doze maravedis.

— Isso sim seria o diabo — disse dom Quixote —, se Melisendra já

não estivesse com seu esposo pelo menos na fronteira da França,

porque o cavalo em que ia me pareceu que não corria, voava; então,

não venha me vender gato por lebre, apresentando-me aqui

Melisendra desnarigada, quando a outra talvez esteja se divertindo a

valer com o esposo na França. Que Deus ajude cada um em suas

coisas, senhor mestre Pedro, e andemos todos com passos firmes e

boas intenções. E prossiga.

Mestre Pedro, que viu que dom Quixote começava a desvairar,

voltando à velha mania, não quis deixá-lo escapar e então disse:

— Esta não deve ser Melisendra, mas alguma das aias que a serviam.

Assim, com sessenta maravedis que me deem por ela me sentirei

contente e bem pago.

Dessa maneira foi dando o preço de muitos outros bonecos

destroçados, que depois os dois árbitros ajustaram, para satisfação de

ambas as partes, chegando o total a quarenta reais e três quartos.

Além disso, que Sancho desembolsou em seguida, mestre Pedro pediu

dois reais pelo trabalho de trazer o macaco de volta.

— Pode dá-los, Sancho — disse dom Quixote —, não para trazer o

adivinho, mas para o trago de vinho. E eu daria duzentos em

alvíssaras a quem me dissesse com certeza que a senhora Melisendra e

dom Gaifeiros já estão na França, entre os seus.

— Ninguém poderá nos dizer melhor que meu macaco — disse

mestre Pedro —, mas agora não há diabo que o pegue, embora eu

imagine que o carinho e a fome o forçarão a me procurar esta noite. Se Deus quiser, amanhã será outro dia, e então veremos.

Em suma, a tempestade do teatro acabou e todos jantaram em paz e

em boa companhia, à custa de dom Quixote, que era generoso ao

extremo.

Antes que amanhecesse se foi o que carregava as lanças e as

alabardas, e logo que amanheceu vieram se despedir de dom Quixote

o primo e o pajem, um para voltar a sua terra, o outro para seguir

viagem, a quem dom Quixote deu como ajuda uma dúzia de reais.

Mestre Pedro não quis mais bater boca com dom Quixote, a quem ele

conhecia muito bem; então madrugou antes do sol e, pegando os

títeres de seu teatro e seu macaco, também foi embora em busca de

aventuras. O estalajadeiro, que não conhecia dom Quixote, tinha

ficado surpreso tanto por suas loucuras como por sua generosidade.

Enfim, Sancho o pagou muito bem, por ordem de seu senhor, e,

despedindo-se por ele, quase às oito deixaram a estalagem e se

puseram a caminho, onde os deixamos ir, que assim convém para

podermos contar outras coisas relevantes para a narração desta

história famosa.

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