Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 81 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XX

 

onde se conta o casamento

de camacho, o rico, com

o que aconteceu a basílio, o pobre

Mal a pálida aurora havia deixado que o brilhante Febo enxugasse

com o fogo de seus raios ardentes as pérolas líquidas de seus cabelos

de ouro, quando dom Quixote, sacudindo a preguiça de seus

membros, se pôs de pé e chamou seu escudeiro Sancho, que ainda

roncava. Mas vendo-o assim, antes de acordá-lo, disse:

— Oh, tu, bem-aventurado acima de quantos vivem sobre a face da

terra, pois sem ter inveja nem ser invejado dormes com espírito

sossegado, sem que magos te persigam nem te assustem

encantamentos! Dormes, repito, e repetirei outras cem vezes, sem que

te mantenham em vigília ciúmes de tua dama, nem te desvelem

pensamentos sobre dívidas que tenhas, nem o que deverás fazer para

comer outro dia tu e tua pequena e angustiada família. Nem a

ambição te inquieta nem a pompa vã do mundo te preocupa, porque

os limites de teus desejos não ultrapassam a ração de teu jumento, pois

a responsabilidade de tua pessoa está sobre meus ombros, contrapeso

posto aí pela natureza e pelo costume dos senhores. Dorme o criado e

vela o senhor, pensando como irá sustentá-lo, aperfeiçoá-lo e lhe fazer

mercês. A angústia de ver que o céu se faz de bronze, sem acudir à

terra com o orvalho conveniente, não aflige o criado, mas aflige o

senhor, que deve sustentar na esterilidade e na fome quem o serviu na

fertilidade e na abundância.

Sancho não respondeu a nada disso, porque dormia, nem acordaria

tão cedo se dom Quixote não o tivesse cutucado com a parte de trás

da lança. Despertou por fim, sonolento e preguiçoso, e, olhando em volta, disse:

— Das bandas deste caramanchão, se não me engano, vem uma

fumacinha que cheira bem mais a torresmo que a capim-limão e

tomilhos: casamentos que começam com um cheiro desses, benza

Deus, devem ser abundantes e generosos.

— Acaba com isso, glutão — disse dom Quixote. — Vem, vamos ver

esse casório, para ver o que faz o desprezado Basílio.

— Ele que faça o que quiser — respondeu Sancho. — Se ele não

fosse pobre, teria se casado com Quitéria. Então só basta um tostão

no bolso para querer se casar nas nuvens? Por Deus, senhor, parece-

me que o pobre deve se contentar com o que acha e não pedir nabos à

pereira. Aposto um braço que Camacho pode cobrir Basílio de

moedas; e, se for assim mesmo, como deve ser, Quitéria seria bem

boba em desprezar as roupas e joias que Camacho deve ter lhe dado e

pode dar, para escolher o arremesso de barra e a esgrima de Basílio.

Por um bom arremesso de barra ou um belo manejo da espada não

dão nem meio litro de vinho na taberna. Dons e habilidades que não

são vendáveis, mesmo que os tenha o conde Dirlos;1 mas, quando

esses dons caem sobre quem tem um bom dinheiro, minha nossa,

tivesse eu tanta sorte assim. Em cima de bons alicerces pode se

construir uma boa casa, e o melhor alicerce ou canal do mundo é o

dinheiro.

— Por Deus, Sancho — disse dom Quixote a essa altura —, acaba

logo com isso! Tenho a impressão de que, se te deixassem continuar

essas arengas que começas a toda hora, não te sobraria tempo para

comer nem para dormir, pois o gastarias todo falando.

— Se vossa mercê tivesse boa memória — replicou Sancho —,

deveria se lembrar das cláusulas de nosso contrato antes de sairmos de

casa nessa última vez: uma delas foi que havia de me deixar falar tudo

aquilo que eu quisesse, desde que não fosse contra o próximo nem

contra a autoridade de vossa mercê; e até agora me parece que não

transgredi a tal cláusula.

— Eu não me lembro da dita cláusula, Sancho — respondeu dom

Quixote —, mas, mesmo assim, quero que te cales e que venhas, pois

os instrumentos que ouvimos ontem à noite voltam a alegrar os vales,

e sem dúvida o casório será celebrado no frescor da manhã, e não no

calor da tarde.

Sancho fez o que seu senhor mandava e botou a sela em Rocinante e

a albarda no burro. Então os dois montaram e, passo a passo, foram

entrando pelo caramanchão.

A primeira coisa que se ofereceu à vista de Sancho foi um novilho

inteiro num espeto feito com o tronco inteiro de um olmo; e no fogo

onde devia assar ardia uma montanha razoável de lenha, e as seis

panelas que estavam ao redor da fogueira não tinham sido feitas na

mesma forma das panelas comuns, porque eram do tamanho de seis

meias tinas — cabia um açougue de carne em cada uma, tanto que ali

se cozinhavam carneiros sem que se pudesse notar, como se fossem

pombinhos. Eram inumeráveis as lebres já sem pele e as galinhas sem

penas que estavam penduradas pelas árvores à espera de mergulharem

nas panelas; eram infinitos os pássaros e caça de diversos tipos,

também pendurados nas árvores para que o ar os mantivesse frios.

Sancho contou mais de sessenta odres de mais de duas arrobas cada

um, e todos cheios de vinhos generosos, como se viu depois. Havia

também pilhas de pão branquíssimo como costuma haver montões de

trigo nas eiras; os queijos, empilhados como tijolos, formavam uma

muralha, e dois caldeirões de azeite maiores que os de uma tinturaria

serviam para fritar bolos, que eram retirados com duas valentes pás e mergulhados em outro caldeirão de mel apurado que estava ali perto.

Os cozinheiros e cozinheiras passavam de cinquenta, todos limpos,

todos diligentes e todos alegres. Costurados no ventre amplo do

novilho estavam doze leitões pequenos e tenros para lhe dar sabor e

amaciá-lo. As especiarias de diversos tipos não pareciam ter sido

compradas a quilo, mas por arrobas, e todas estavam à mostra numa

grande arca. Enfim, o aparato do casamento era rústico, mas tão

abundante que podia sustentar um exército.

Sancho Pança tudo via, tudo contemplava e tudo o arrebatava.

Primeiro as panelas cativaram e renderam o desejo dele: de muito boa

gana tomaria delas uma bela porção; depois dominaram sua vontade

os odres e, por fim, os bolinhos com açúcar e mel que saíam das

frigideiras, se é que se podia chamar de frigideiras caldeirões tão

bojudos. Assim, sem poder se aguentar, porque estava acima de suas

forças, aproximou-se de um dos solícitos cozinheiros, e com palavras

corteses e famintas rogou que o deixasse molhar um pedaço de pão

num daqueles panelões. Ao que o cozinheiro respondeu:

— Hoje, meu irmão, a fome não manda, graças ao rico Camacho.

Apeai, vede por aí se há uma concha e puxai uma galinha ou duas, e bom apetite.

— Não vejo nenhuma — respondeu Sancho.

— Esperai — disse o cozinheiro. — Por meus pecados, que

melindroso e acanhado deveis ser!

Dizendo isso, agarrou uma caçarola e a meteu numa das meias tinas,

tirando-a com três galinhas e dois gansos, e disse a Sancho:

— Aqui tendes, meu amigo. Quebrai o jejum com esta canja,

enquanto espera a hora de jantar.

— Não tenho no que despejá-la — respondeu Sancho.

— Ora — disse o cozinheiro —, levai com caçarola e tudo, que a

riqueza e a alegria de Camacho suprem tudo.

Enquanto isso acontecia a Sancho, dom Quixote estava olhando

para um lado do caramanchão, por onde entravam uns doze

camponeses montando doze éguas muito lindas, com ricos e vistosos

enfeites e muitos guizos nos peitorais, e todos vestidos de gala e de

festa, que em grupo bem organizado correram não uma, mas muitas

carreiras pelo campo, com alegre algazarra e gritaria, dizendo:

— Vivam Camacho e Quitéria, ele tão rico como ela formosa, e ela a

mais formosa do mundo!

Ouvindo isso, dom Quixote disse a si mesmo:

— Bem se vê que estes nunca viram minha Dulcineia del Toboso,

pois, se a tivessem visto, teriam refreado os elogios a essa sua Quitéria.

Dali a pouco começaram a encontrar em diversos lugares do

caramanchão muitas e diferentes danças, entre as quais uma de

espadas, com vinte e quatro rapazes galantes e animados, todos

vestidos com o linho mais fino e branco, usando lenços de seda de

várias cores na cabeça. Um dos homens das éguas perguntou a um

rapaz desembaraçado, que guiava os dançarinos, se algum deles havia

se ferido.

— Por ora, graças a Deus, ninguém se feriu: estamos todos bem.

E em seguida começou a lutar com os companheiros, com tantas

piruetas e com tanta destreza que dom Quixote, mesmo acostumado

com semelhantes danças, achou que nunca tinha visto outra tão boa

como aquela.

Também considerou boa a próxima dança, com donzelas

lindíssimas, tão moças que pelo visto nenhuma tinha menos de catorze nem mais de dezoito anos, todas vestidas com tecidos verdes de

Cuenca,2 os cabelos parte trançados e parte soltos, mas todos tão

loiros que podiam competir com os raios do sol, e sobre eles traziam

grinaldas de jasmins, rosas, amarantos e madressilvas. Eram guiadas

por um velho venerável e uma velha matrona, mas mais ligeiros e

desenvoltos do que prometiam seus anos. A música vinha de uma

flauta da Zamora, de dois tubos, e as donzelas, levando a modéstia

nos rostos e nos olhos e a rapidez nos pés, se mostravam as melhores

dançarinas do mundo.

Depois desse, entrou outro grupo que ia dançar uma mascarada com

enredo e declamações. Eram oito ninfas divididas em duas fileiras:

uma das fileiras era guiada pelo deus Cupido e a outra, pelo Interesse;

aquele, enfeitado com asas, aljava e setas; este, vestido de ricas e

diversas cores de seda bordada de ouro. As ninfas que seguiam o

Amor traziam nas costas um pergaminho branco com seus nomes

escritos em letras grandes. Poesia era o título da primeira; o da

segunda, Bom Senso; o da terceira, Boa Linhagem, e a quarta, Valentia. Do mesmo modo vinham assinaladas as que seguiam o

Interesse: a primeira, Generosidade; a segunda, Dádiva; a terceira e a

quarta, Tesouro e Posse Pacífica. Na frente de todos vinha um castelo

de madeira, puxado por quatro selvagens vestidos de hera e cânhamo

tingido de verde, que pareciam tão reais que quase assustaram Sancho.

Na fachada do castelo e em suas quatro paredes, estava escrito:

Castelo do Bom Recato. A música era feita por quatro tocadores de

tamborim e flauta.

Cupido começava a dança e, depois de duas evoluções, levantava os

olhos e retesava o arco contra uma donzela que aparecia nas alamedas

do castelo, a quem falou desse modo:

— Eu sou o deus poderoso

no ar e na terra

e no largo mar tempestuoso

e em tudo que o abismo encerra

em seu inferno espantoso.

Nunca conheci o medo;

tudo o que quero, posso,

mesmo que queira o impossível,

e em tudo o que é possível

mando, tiro, ponho e vedo.a

Acabada a estrofe, disparou uma flecha por cima do castelo e

retirou-se a seu posto. Logo saiu o Interesse e fez outras duas

evoluções; os tamborins se calaram e ele disse:

— Sou quem pode mais que o Amor,

mas é o Amor quem me guia;

sou da melhor estirpe

que o céu na terra cria,

mais conhecida e antiga.

Sou o Interesse, com quem

poucos costumam agir bem,

mas agir sem mim é grande milagre;

e como sou, a ti me consagro,

para sempre jamais, amém.b

O Interesse se retirou e se adiantou a Poesia, que, depois de fazer

suas evoluções como os demais, com os olhos postos na donzela do castelo, disse:

— Em dulcíssimos conceitos,

altos, graves e sábios,

a dulcíssima Poesia,

senhora, a alma te envia

envolta entre mil sonetos.

Se acaso não te importuna

minha disputa, tua fortuna,

por muitas outras invejada,

será por mim elevada

sobre o aro da lua.c

A Poesia se afastou, e do lado do Interesse avançou a Generosidade

que, depois de feitas suas evoluções, disse:

Chamam Generosidade

ao dar que foge do extremo

da prodigalidade

e do contrário, que argui

morna e frouxa vontade.

Mas eu, para te valorizar,

a partir de hoje serei mais pródiga:

embora seja vício, é vício honrado

e de peito apaixonado,

que em dar se deixa ver.d

Desse modo se apresentaram e se retiraram todos os personagens dos

dois grupos, e cada um dançou e disse seus versos, alguns elegantes e

alguns ridículos, mas dom Quixote decorou apenas os já referidos,

mesmo tendo grande memória. Então todos se misturaram na dança,

enlaçando-se e se desenlaçando com posturas graciosas e desenvoltas,

e o Amor, quando passava diante do castelo, disparava suas flechas

para o alto, mas o Interesse quebrava em suas paredes alcancias cheias

de moedas de ouro.

Finalmente, depois de ter dançado um bom tempo, o Interesse puxou

uma grande bolsa feita com a pele de um gato tigrado, que parecia

cheia de dinheiro, e a jogou contra o castelo. Com o golpe, as tábuas

das paredes se desencaixaram e caíram, deixando a donzela à mostra e

sem defesa alguma.

O Interesse chegou com sua comitiva e pôs uma grande corrente de

ouro no pescoço dela, dando mostras de prendê-la, rendê-la e sujeitá-

la. Ao ver isso, o Amor e sua comitiva se dispuseram a libertá-la, e

todas as demonstrações que faziam eram ao som dos tamborins,

dançando harmoniosamente. A paz foi restabelecida pelos selvagens,

que com muita rapidez levantaram e encaixaram de novo as paredes

do castelo, e a donzela se encerrou nele como antes, para grande

contentamento dos que assistiam.

Dom Quixote perguntou a uma das ninfas quem havia composto e

dirigido a dança. Ela respondeu que um padre daquele povoado, que

tinha muito jeito para semelhantes invenções.

— Aposto — disse dom Quixote — que deve ser mais amigo de

Camacho que de Basílio o tal bacharel ou padre, e que deve se dar

melhor com as sátiras que com as orações: encaixou muito bem as

habilidades de Basílio e as riquezas de Camacho!

Sancho, que escutava tudo, disse:

— Aposto no mais galo: fico com Camacho.

— Ora, ora, Sancho — disse dom Quixote —, bem se vê que és

camponês e daqueles que dizem: “Viva quem vence!”.

— Não sei se sou desses — respondeu Sancho —, mas sei muito bem

que nunca vou tirar das caçarolas de Basílio canja tão saborosa como

tirei das de Camacho.

E mostrou a caçarola cheia de gansos e galinhas e, pegando uma,

começou a comer com muita distinção e apetite, e depois disse:

— Pendure a conta nas habilidades de Basílio, pois vales tanto

quanto tens e tens tanto quanto vales! Só há duas linhagens no

mundo, como dizia minha avó: a que tem e a que não tem, e ela se

agarrava com a que tinha. E, nos dias de hoje, meu senhor dom

Quixote, se respeita mais o haver que o saber: um burro coberto de

ouro parece melhor que um cavalo encilhado com albarda. Assim

sendo, repito que fico com Camacho. Nas caçarolas dele são fartos os

ensopados de gansos e galinhas, lebres e coelhos; nas de Basílio, se é

que vou botar a mão em alguma, ou mesmo o pé, só deve haver sopa

de pedra.

— Acabaste tua arenga, Sancho? — disse dom Quixote.

— Acabei, sim — respondeu Sancho —, porque vejo que vossa mercê se amola com ela, pois, se isso não atrapalhasse, teria pano para

três dias de mangas.

— Queira Deus, Sancho — replicou dom Quixote —, que eu não

morra sem te ver mudo.

— No passo que vamos — respondeu Sancho —, antes que vossa

mercê morra, eu estarei comendo grama pela raiz, e aí pode ser que eu

fique mudo, que não diga uma palavra até o fim do mundo, ou pelo

menos até o dia do juízo.

— Mesmo que isso aconteça assim, Sancho — respondeu dom

Quixote —, nunca teu silêncio chegará aonde chegou o que falaste,

falas e falarás em tua vida. Além disso, é muito mais provável que

chegue primeiro o dia de minha morte que o da tua; então não penso

jamais te ver mudo, nem quando estejas bebendo ou dormindo, que é

o que mais me admira.

— Por Deus, senhor — respondeu Sancho —, não dá para se fiar na

Caveirosa, digo, na morte, que tanto come bodes como cordeiros; e,

como ouvi nosso padre dizer, pisa com o mesmo pé nos palácios dos

reis como nas cabanas humildes dos pobres. Essa senhora tem mais

poder que melindres, não tem nojo de nada: come de tudo e tudo faz, e de todo tipo de pessoas, idades e posições enche seus alforjes. Não é

ceifador que durma as sestas, porque a toda hora ceifa, e tanto apara

a grama seca como a verde; e parece que não mastiga, mas que engole

tudo o que aparece pela frente, pois tem fome canina, que nunca se

satisfaz; e, embora não tenha barriga, dá a entender que está hidrópica

e tem sede para beber sozinha a vida de todos, como quem bebe um

copo de água fria.

— Basta, Sancho — disse dom Quixote nesse ponto. — Fica aí, em

terra firme, pois na verdade o que disseste sobre a morte com tuas

palavras grosseiras é o que poderia dizer um bom pregador. Olha,

Sancho, se tivesses bom senso como tens boa índole, poderias arranjar

um emprego de pregador e ir-te por esse mundo dando lindos sermões.

— Prega bem quem vive bem — respondeu Sancho —, e outras

teologias não sei.

— Nem precisa — disse dom Quixote. — Mas não consigo entender

como, sendo o princípio da sabedoria o temor a Deus, tu, que tens

mais medo de um lagarto que d’Ele, sabes tanto.

— Julgue vossa mercê suas cavalarias, senhor — respondeu Sancho

—, mas não se meta a julgar os temores e valentias alheias, que sou

pagão tão temente a Deus como qualquer cristão. E me deixe

despachar logo essa canja, que o resto são palavras ociosas, de que

irão nos pedir contas na outra vida.3

E, dizendo isso, assaltou de novo sua caçarola, com tão bom apetite

que despertou o de dom Quixote, que sem dúvida o teria ajudado, se

não o impedisse o que por força se contará adiante.

a — Yo soy el dios poderoso/ en el aire y en la tierra/ y en el ancho mar undoso/ y en quanto el abismo encierra/ en su báratro espantoso./ Nunca conocí qué es miedo;/ todo cuanto quiero puedo,/ aunque quiera lo imposible,/ y en todo lo que es posible/ mando, quito, pongo y vedo.

b — Soy quien puede más que Amor,/ y es Amor el que me guía;/ soy de la estirpe mejor/ que el cielo en la tierra cría,/ más conocida y mayor./ Soy el Interés, en quien/ pocos suelen obrar bien,/ y obrar sin mí es grande milagro;/ y cual soy te me consagro,/ por siempre jamás, amén.

c — En dulcísimos conceptos,/ la dulcísima Poesía,/ altos, graves y discretos,/ señora, el alma te envía/ envuelta entre mil sonetos./ Si acaso no te importuna/ mi porfía, tu fortuna,/ de otras muchas envidiada,/ será por mí levantada/ sobre el cerco de la luna.

d Llaman Liberalidad/ al dar que el extremo huye/ de la prodigalidad/ y del contrario, que arguye/ tibia y floja voluntad./ Mas yo, por te engrandecer,/ de hoy más pródiga he de ser:/ que aunque es vicio, es vicio honrado/ y de pecho enamorado,/ que en el dar se echa de ver.

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