Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 43 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXXV

 

onde se termina a história

do “curioso impertinente”

Pouco mais restava para ler da história, quando Sancho Pança saiu

todo alvoroçado do sótão onde repousava dom Quixote, dizendo aos

gritos:

— Vinde depressa, senhores! Socorrei meu senhor, que está metido

na mais renhida e cruenta batalha que meus olhos viram ser travada.

Por Deus, ele deu uma cutilada no gigante inimigo da senhora

princesa Micomicona, que lhe cortou a cabeça pela raiz, como se fosse

um nabo!

— Que dizeis, meu irmão? — disse o padre, largando os cadernos da

história. — Estais fora de si, Sancho? Como diabos pode ser isso, se o

gigante está a duas mil léguas daqui?

Nisso ouviram um grande barulho no aposento e dom Quixote

falando aos gritos:

— Fica aí, ladrão, velhaco, canalha, que já te pego! E de nada te

servirá tua cimitarra!

E parecia que dava grandes espadadas pelas paredes.

— Não fiqueis aí parados ouvindo — disse Sancho. — Entrai logo

para apartar a contenda ou para ajudar meu amo, mesmo que não seja

mais preciso, porque nessas alturas sem dúvida o gigante já está morto

e prestando contas a Deus de sua vida pregressa de maldades, pois vi

correr sangue pelo chão, e a cabeça cortada e caída de um lado, do

tamanho de um grande odre de vinho.

— Raios me partam — disse o estalajadeiro nesse ponto — se dom

Quixote ou dom diabo não atacou algum de meus odres de vinho

tinto que estavam à cabeceira de sua cama! Deve ser o vinho derramado o que este bom homem achou que era sangue.

E então entrou no aposento, e todos atrás dele, e encontraram dom

Quixote no mais estranho traje do mundo. Estava de camisa, que na

frente não era tão comprida que lhe cobrisse as coxas e por trás era

mais curta em seis dedos; as pernas eram muito longas e finas, peludas

e nada limpas; tinha na cabeça uma touca vermelha, sebosa, que era do estalajadeiro; no braço esquerdo tinha enrolado a manta da cama

— que Sancho detestava, sabendo muito bem por quê — e, na mão

direita, a espada desembainhada com que dava cutiladas pelas

paredes, falando como se realmente estivesse lutando com algum

gigante. E o melhor de tudo é que não tinha os olhos abertos, pois

dormia e sonhava que estava numa batalha com o gigante: era tão

intensa em sua imaginação a aventura que ia viver, que o fez sonhar

que já chegara ao reino de Micomicão e que já enfrentava seu inimigo;

e havia dado tantas cutiladas nos odres, pensando que dava no

gigante, que o quarto todo estava cheio de vinho. O estalajadeiro, ao

ver isso, foi tomado de tanta raiva que se atirou contra dom Quixote e

com os punhos fechados começou a dar tantos golpes nele que, se

Cardênio e o padre não o agarrassem, ele acabaria a guerra do

gigante. Apesar de tudo, o pobre cavaleiro não acordava, até que o

barbeiro trouxe um grande caldeirão de água fria do poço e lhe

despejou de repente por todo o corpo, o que despertou dom Quixote,

mas não o suficiente para se dar conta do estado em que se achava.

Doroteia, que viu os trajes tão curtos e vaporosos de seu paladino,

não quis entrar para assistir à batalha contra seu inimigo.

Sancho andava procurando a cabeça do gigante pelo assoalho e,

como não a encontrasse, disse:

— Já sei, tudo nesta casa é encantamento, como da outra vez. Neste

mesmo lugar onde estou agora, deram-me muitos murros e bofetões,

sem que eu soubesse quem os dava: nunca pude ver ninguém. E agora

não aparece por aqui essa cabeça, que vi cortar por meus próprios

olhos, e o sangue corria do corpo como de uma fonte.

— Mas de que sangue e fonte me falas, inimigo de Deus e de todos

os santos?! — disse o estalajadeiro. — Ladrão miserável, não vês que

o sangue e a fonte nada mais são que esses odres furados e o vinho

tinto que empapa este quarto? Que eu possa ver empapada nos

infernos a alma de quem os furou!

— Não sei de nada — respondeu Sancho —, mas sei que serei tão

desgraçado, se não achar essa cabeça, que meu condado irá se desfazer

como o sal na água.

Sancho estava pior acordado que seu amo dormindo: a esse ponto o

levaram as promessas de seu senhor. O estalajadeiro se desesperava ao ver a pachorra do escudeiro e o estrago feito pelo senhor e jurava que

não havia de ser como da outra vez, que foram embora sem pagar:

agora os privilégios de sua cavalaria não o livrariam de pagar as

dívidas de ontem e de hoje, sem falar no que pudessem custar os

remendos que teria de fazer nos odres escangalhados.

O padre segurava dom Quixote pelas mãos, e ele, pensando que a

aventura já havia acabado e que se encontrava diante da princesa

Micomicona, caiu de joelhos, dizendo:

— A partir de hoje, bem pode vossa grandeza, excelsa e formosa

senhora, viver segura de que essa malnascida criatura não pode mais

lhe fazer mal. E eu também, a partir de hoje, estou quite da palavra

que vos empenhei, pois, com a ajuda do bom Deus e com o favor

daquela por quem eu vivo e respiro, tão bem a cumpri.

— Eu não disse? — disse Sancho, ao ouvir isso. — Claro que eu não

estava bêbado: vejam bem se meu amo já não botou o gigante na

salmoura! Certo como a morte: meu condado está no papo!

Quem não haveria de rir dos disparates dos dois, amo e criado? Todos riam, menos o estalajadeiro, que espumava de raiva,

encomendando-se a Satanás. Por fim, mas não sem muito trabalho, o

barbeiro, Cardênio e o padre conseguiram botar dom Quixote na

cama. Ele ficou dormindo, com sinais de um grandíssimo cansaço. Ali

o deixaram e foram para o átrio da estalagem consolar Sancho Pança

por não ter achado a cabeça do gigante, embora tenham tido muito

mais trabalho para acalmar o estalajadeiro, que estava desesperado

com a morte repentina de seus odres. E a mulher dele dizia, em altos

brados:

— Maldito segundo e hora condenada em que entrou em minha casa

esse cavaleiro andante: melhor seria nunca ter posto os olhos nele,

pois me custa caro. Na primeira vez, se foi sem pagar o preço de uma

noite, do jantar, da cama, palha e cevada, para ele e para seu

escudeiro, mais o pangaré e o jumento, dizendo que era cavaleiro em

busca de aventuras (que má ventura Deus lhe dê em dobro e a quantos

aventureiros haja no mundo), e que por isso não tinha obrigação de

pagar nada, que assim estava escrito no regulamento da cavalaria

andante. E agora, por causa dele, apareceu esse outro senhor que

levou meu rabo e me devolveu com mais de dois tostões de prejuízo, tão pelado que já não vai servir para o que meu marido o quer. E por

fim, para arrematar tudo, estropiaram meus odres e derramaram meu

vinho. Que derramado eu veja seu sangue! Pois juro pelos ossos de

meu pai e pela vida eterna de minha mãe que, se não vão me pagar um

tostão em cima do outro, eu não me chamo como me chamo nem sou

filha de meus pais!

A estalajadeira desfiava essas e outras coisas semelhantes com muita

irritação, ajudada por sua boa criada Maritornes. A filha se calava e

sorria, de quando em quando. O padre acalmou a todos, prometendo

compensar o prejuízo o melhor que pudesse, tanto da perda dos odres

como do vinho e principalmente do estrago do rabo, pelo qual tinham

tanta consideração. Doroteia consolou Sancho Pança dizendo a ele

que, logo que se confirmasse que seu amo tinha realmente decapitado

o gigante e ela se visse em paz em seu reino, prometia lhe dar o melhor

condado que houvesse nele. Com isso, Sancho se consolou e garantiu

à princesa que podia ter certeza de que ele tinha visto a cabeça do

gigante, que o sinal mais destacado era uma barba que lhe chegava à cintura, e que se ela não aparecia era porque tudo naquela casa

acontecia por meio de encantamentos, como ele sentira na pele na

outra vez que havia pousado ali. Doroteia disse que acreditava nele,

sim, e que não se preocupasse, que tudo daria certo como pedido de

encomenda.

Serenados os ânimos, o padre quis terminar a história do curioso,

porque viu que faltava pouco. Cardênio, Doroteia e os demais

insistiram para que a lesse. Como desejava agradar a todos e se

divertia ele mesmo ao lê-la, prosseguiu a narrativa, que assim dizia:

“Aconteceu que Anselmo, convencido da virtude de Camila, vivia

uma vida alegre e despreocupada, e Camila de propósito fechava a

cara a Lotário, para que Anselmo entendesse ao contrário o desejo

que sentia por ele; e, para maior confirmação da trama, Lotário pediu

licença para não vir mais a sua casa, pois claramente transparecia o

desagrado com que era recebido por Camila. Mas o enganado

Anselmo disse a ele que de jeito nenhum fizesse isso; e, dessa maneira,

por mil maneiras Anselmo era o construtor de sua desonra,

acreditando que o era de sua felicidade.

“Enquanto isso, o prazer que Leonela sentia por se ver autorizada

em seus amores chegou a tanto que, sem olhar mais nada, ia atrás dele

de rédea solta, fiada em que sua senhora lhe daria cobertura e ainda

lhe diria como poderia executá-lo com pouco receio. Mas enfim, uma

noite, Anselmo ouviu passos no quarto de Leonela e, querendo entrar

para ver quem caminhava, percebeu que a porta o detinha, coisa que

lhe deu mais vontade de abri-la, e fez tanta força que conseguiu entrar

a tempo de ver que um homem saltava pela janela para a rua. A toda

pressa, tentou alcançá-lo ou reconhecê-lo, mas não conseguiu nem

uma coisa nem outra, porque Leonela o abraçou, dizendo: ‘Calma,

meu senhor! Por Deus, não te zangues nem sigas o homem que fugiu: é

problema meu; na verdade, é meu esposo’.

“Anselmo não quis acreditar; pelo contrário: cego de raiva, sacou a

adaga e quis ferir Leonela, dizendo-lhe que falasse a verdade ou a

mataria. Ela, com medo, sem saber o que dizia, falou: ‘Não me mates,

senhor, que te direi coisas mais importantes do que podes imaginar’.

“‘Fala logo’, disse Anselmo. ‘Se não, estás morta.’

“‘Agora é impossível’, disse Leonela, ‘estou muito confusa. Dá-me

até amanhã, que te espantarás com o que saberás de mim. Mas podes

crer, quem saltou pela janela foi um rapaz desta cidade que se

comprometeu a ser meu esposo.’

“Com isso Anselmo se acalmou e resolveu aguardar o prazo que ela

pedia, porque não pensava ouvir nada contra Camila — estava muito

satisfeito e seguro de sua virtude. Assim, saiu do quarto e deixou

Leonela trancada, dizendo-lhe que ficaria ali até que dissesse o que

tinha de lhe dizer.

“Em seguida foi ver Camila para contar o que havia acontecido com

sua aia e que ela prometera lhe revelar coisas tremendas. Se Camila se

perturbou ou não, não é preciso dizer, porque foi tanto o medo que

teve, como devia ter, acreditando que Leonela realmente iria dizer

tudo o que sabia a Anselmo sobre sua modesta fidelidade, que não

teve ânimo para esperar se sua suspeita se mostrava falsa ou não.

Naquela mesma noite, quando lhe pareceu que Anselmo dormia,

juntou as melhores joias que tinha e algum dinheiro e, sem ser

percebida por ninguém, saiu de casa e foi à de Lotário, a quem contou

o que acontecia e pediu que a pusesse a salvo ou que fugissem de Anselmo para onde pudessem ficar em segurança. A confusão em que

Camila mergulhou Lotário foi tanta que ele não sabia o que

responder, muito menos pensar no que faria.

“Por fim resolveu levar Camila a um mosteiro, onde uma irmã sua

era prioresa. Camila concordou com isso, e Lotário a levou com a

urgência que o caso pedia, deixando-a lá. Em seguida ele também foi

embora da cidade, sem avisar ninguém de sua ausência.

“Quando amanheceu, Anselmo, sem se dar conta de que Camila não

estava a seu lado, ansioso para saber o que Leonela queria lhe dizer, se

levantou e foi até o quarto onde a deixara trancada. Abriu a porta e

entrou, mas não achou Leonela, apenas uns lençóis amarrados na

janela, sinal de que havia descido por ali e ido embora. Muito triste,

voltou para falar a Camila e, não a encontrando na cama nem no

resto da casa, ficou assustado. Perguntou por ela aos criados, mas

ninguém soube responder o que ele queria.

“Estando à procura de Camila, por acaso viu seus cofres abertos e

que faltava a maioria das joias — então se deu conta de sua desgraça e de que a aia não era a causa dela. Assim como estava, sem terminar de

se vestir, triste e pensativo, foi contar sua infelicidade a seu amigo

Lotário. Mas, quando não o encontrou e os criados dele disseram que

naquela noite havia se ausentado de casa, levando consigo todo o

dinheiro que tinha, pensou que perdia o juízo. E, para coroar tudo,

quando voltou, não achou nenhum criado ou criada, mas a casa vazia

e solitária.

“Não sabia o que pensar, o que dizer nem o que fazer, e pouco a

pouco ia perdendo o juízo. Imaginava-se e se via num instante sem

mulher, sem amigo e sem criados, desamparado até do céu que o

cobria, em sua opinião, mas principalmente sem honra, porque na

ausência de Camila divisou sua perdição.

“Enfim, depois de um bom tempo, resolveu ir à aldeia de seu amigo,

onde estivera quando facilitou a tramoia de toda aquela desgraça.

Trancou as portas da casa, montou no cavalo e, com o ânimo abatido,

partiu; mal percorrera metade do caminho, quando, perseguido por

seus pensamentos, se viu forçado a apear e prender o cavalo pelas

rédeas numa árvore, e se deixou cair contra o tronco, com suspiros

débeis e dolorosos. Ficou ali até quase anoitecer, quando viu que vinha da cidade um homem a cavalo; depois de cumprimentá-lo, perguntou

que notícias trazia de Florença. O cidadão respondeu: ‘As mais

estranhas que se ouviram por lá em muitos dias. Todo mundo diz que

Lotário, aquele grande amigo de Anselmo, o rico, que vivia perto de

São João, fugiu esta noite com Camila, a mulher de Anselmo, que

também desapareceu. Quem contou isso tudo foi uma criada de

Camila, que o governador encontrou ontem à noite descendo por um

lençol amarrado numa janela da casa de Anselmo. Na verdade não sei

tintim por tintim como se passou o negócio: só sei que toda a cidade

está admirada com o caso, porque não se podia esperar uma coisa

dessas da grande e íntima amizade dos dois. Dizem que era tanta que

os chamavam “os dois amigos”.’

“‘Por acaso’, disse Anselmo, ‘se sabe que rumo Lotário e Camila

tomaram?’

“‘Nem por sombras’, disse o cidadão, ‘embora o governador tenha

dado ordens urgentes para procurá-los.’

“‘Ide com Deus, senhor’, disse Anselmo.

“‘Com Ele fiqueis’, respondeu o cidadão e se foi.

“Com essas notícias atrozes, Anselmo esteve perto não só de perder

o juízo, como de acabar com a vida. Levantou-se como pôde e chegou

à casa de seu amigo, que ainda não sabia de nada, mas que, ao vê-lo

macilento, fraco e abatido, entendeu que um grande mal o afligia.

Anselmo pediu para se deitar e que lhe trouxessem material para

escrever. Assim se fez, e o deixaram deitado, com a porta trancada,

porque foi o que ele quis. Quando se viu sozinho, começou a pensar

tanto em sua desgraça que entendeu claramente que era o fim e então

decidiu explicar os motivos de sua estranha morte. Começou a

escrever, mas, antes de dizer tudo o que queria, perdeu a coragem e

deixou a vida nas mãos da dor causada por sua curiosidade

impertinente.

“Vendo o dono da casa que já era tarde e que Anselmo não

chamava, resolveu entrar para saber se sua indisposição continuava e

o achou estendido de bruços, ainda com a pena na mão, metade do

corpo na cama e a outra sobre a mesinha, onde estava a carta aberta.

O hospedeiro se aproximou, depois de chamá-lo, e lhe segurou a mão,

mas, vendo que não respondia e que estava frio, percebeu que havia morrido. Muito aflito e espantado, chamou as pessoas da casa para

que vissem a desgraça que acontecera a Anselmo e finalmente leu a

carta, que, notou, tinha sido escrita pela própria mão do amigo. Estas

eram as palavras que continha:

Um tolo e impertinente desejo me tirou a vida. Se as notícias de

minha morte chegarem aos ouvidos de Camila, saiba que eu a

perdoo, porque ela não era obrigada a fazer milagres, nem eu tinha

necessidade de querer que ela os fizesse; e como eu fui o construtor

de minha desonra, não há razão para que…

“Anselmo escrevera até ali — assim se viu que naquele ponto, sem

poder acabar a carta, acabou sua vida. No dia seguinte, o amigo de

Anselmo avisou os parentes dele, que já sabiam da desgraça e do

mosteiro onde Camila estava a ponto de acompanhar o marido

naquela viagem forçada, não por causa das notícias de sua morte, mas

pelas que soube do amigo ausente. Dizem que, mesmo viúva, não quis

sair do mosteiro nem se tornar monja enquanto não lhe chegaram,

dali a muitos dias, notícias de que Lotário havia morrido numa batalha que o senhor de Lautrec travava naquele tempo com o grande

capitão Gonzalo Hernández de Córdoba no reino de Nápoles,1 onde

havia ido parar o amigo arrependido tardiamente. Ao saber disso,

Camila adotou o hábito e entregou a vida, em poucos dias, às severas

mãos da tristeza e da melancolia. Esse foi o fim que tiveram todos,

nascido de um princípio tão desatinado.”

— Essa história me parece boa — disse o padre —, mas não posso

me convencer de que seja verdadeira. Se foi inventada, o autor

inventou mal, porque não se pode imaginar que haja marido tão burro

que queira fazer uma experiência penosa como essa de Anselmo. Se o

caso fosse entre um conquistador e sua amante, poderia se tolerar, mas

entre marido e mulher tem alguma coisa de impossível. Agora, quanto

ao modo de contá-la, não me desagrada.

 

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