Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 16 de 137

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Dom Quixote

Capítulo VIII

do grande êxito que o valente dom quixote

teve na espantosa e jamais imaginada

aventura dos moinhos de vento, com outras

coisas dignas de feliz lembrança

Nisso, avistaram trinta ou quarenta moinhos de vento que há naquele

campo. Mal dom Quixote os viu, disse a seu escudeiro:

— O acaso vai guiando nossas coisas melhor do que poderíamos

desejar: olha lá, amigo Sancho Pança, onde estão uns trinta gigantes

monstruosos, com quem penso travar batalha e a todos tirar as vidas.

Com os despojos deles começaremos a enriquecer, que esta guerra é

boa, e grande serviço presta a Deus quem varre da face da terra

semente tão maligna.

— Que gigantes? — disse Sancho Pança.

— Aqueles ali, de braços compridos — respondeu o amo. — Alguns

costumam ter braços de quase duas léguas.

— Olhe vossa mercê — respondeu Sancho —, aqueles que estão ali

não são gigantes, mas moinhos de vento, e o que neles parecem braços

são as pás, que, rodadas pelo vento, fazem trabalhar as mós.

— Bem se vê — respondeu dom Quixote — que não és versado em

aventuras: eles são gigantes. E, se tens medo, some-te daqui e fica

rezando enquanto isso, porque vou travar com eles uma batalha feroz

e desigual.

E, dizendo isso, esporeou seu cavalo Rocinante, sem ligar para os

gritos de seu escudeiro Sancho, avisando-o de que sem dúvida

nenhuma eram moinhos de vento e não gigantes aqueles que ia atacar.

Ele ia tão convencido de que eram gigantes que nem ouvia seu

escudeiro Sancho nem conseguia ver o que eram, embora já estivesse bem perto; pelo contrário, ia dizendo aos brados:

— Não fujais, covardes e vis criaturas, que apenas um cavaleiro vos

ataca.

Nesse instante o vento soprou um pouco, e as grandes pás

começaram a se mover; vendo isso, dom Quixote disse:

— Ainda que movais mais braços que os do gigante Briareu, haveis

de me pagar.

Dizendo isso e se encomendando de todo coração a sua senhora

Dulcineia, pedindo-lhe que o socorresse em tamanho aperto, bem

protegido pela rodela, com a lança em riste, arremeteu a toda brida

com Rocinante e investiu no primeiro moinho que encontrou pela

frente. Quando deu uma lançada na pá, girou-a com tanta fúria o

vento que fez a lança em pedaços, levando junto o cavalo e o

cavaleiro, que foi rolando todo desconjuntado pelo campo. Sancho

Pança correu para socorrê-lo, a galope em seu burro, mas ao chegar

achou que ele não podia se mexer, tamanho fora o tombo que

Rocinante dera com ele.

— Que Deus me acuda! — disse Sancho. — Eu não disse a vossa

mercê que olhasse bem o que fazia, que eram apenas moinhos de

vento? Só podia ignorar isso quem tivesse outros iguais na cabeça.

— Quieto, amigo Sancho — respondeu dom Quixote —, porque as

coisas da guerra, mais que as outras, estão sujeitas à contínua mudança. Além do mais, eu penso, e esta é a verdade, que aquele

mago Frestão, que me roubou o quarto e os livros, transformou esses

gigantes em moinhos para me tirar a glória de vencê-los, tamanha é a

inimizade que me tem. Mas no final das contas a magia negra dele

pouco poderá contra a excelência de minha espada.

— Que Deus faça o que puder — respondeu Sancho Pança,

ajudando-o a se levantar.

Dom Quixote voltou a montar Rocinante, que estava meio

descadeirado. E, conversando sobre a aventura, seguiram a estrada

para Puerto Lápice, porque ali, dizia dom Quixote, não era possível

deixar de se achar muitas e diferentes aventuras, por ser lugar de

grande movimento. Mas ia muito pesaroso por se ver sem a lança;

comentando isso com seu escudeiro, disse:

— Lembro ter lido que um cavaleiro espanhol chamado Diego Pérez

de Vargas, tendo quebrado a espada numa batalha, arrancou um

galho grosso ou tronco de uma azinheira e com ele fez tais coisas

aquele dia, machucou tantos mouros, que foi apelidado de Machuca; e

assim, tanto ele como seus descendentes se chamaram, dali por diante,

Vargas y Machuca. Digo-te isso porque pretendo tirar da primeira azinheira ou carvalho com que nos deparemos um galho tão bom

como o do Machuca; e penso fazer com ele tais façanhas que deves te

julgar feliz por haver merecido vir vê-las e ser testemunha de coisas em

que mal se poderão acreditar.

— Seja o que Deus quiser — disse Sancho. — Acredito em tudo que

vossa mercê me diz. Mas endireite-se um pouco, que parece que vai

meio de lado; deve ser por causa das machucaduras do tombo.

— É verdade — respondeu dom Quixote —, mas não me queixo da

dor porque não é permitido aos cavaleiros andantes se queixarem de

ferida alguma, mesmo que lhes saiam as tripas por ela.

— Se é assim, não digo mais nada — respondeu Sancho —, mas sabe

Deus que eu ficaria mais tranquilo se vossa mercê se queixasse quando

alguma coisa lhe doesse. Por mim sei que vou me queixar de qualquer

dorzinha que tenha, se é que esse negócio de não se queixar não vale

também para os escudeiros dos cavaleiros.

Dom Quixote não deixou de rir da simplicidade de seu escudeiro e

declarou que ele podia se queixar como e quando quisesse, com ou sem vontade, porque até agora não havia lido nada contra isso nos

livros de cavalaria. Sancho Pança lhe disse que reparasse que era hora

de comer. Seu amo respondeu que por enquanto não tinha fome, que

comesse ele quando quisesse. Com essa licença, Sancho se acomodou o

melhor que pôde sobre o jumento e, tirando dos alforjes o que

guardara, ia andando e comendo muito à vontade atrás de seu amo;

de quando em quando empinava o odre com tanto prazer que faria

inveja ao mais satisfeito dono de adega de Málaga. Enquanto ia

repetindo os tragos, não se lembrava de nenhuma promessa que seu

amo lhe tivesse feito, nem considerava trabalho nenhum, mas uma boa

folga, andar em busca de aventuras, por mais perigosas que fossem.

Resolveram passar aquela noite entre umas árvores, e de uma delas

dom Quixote arrancou um galho seco que quase podia lhe servir de

lança, e pôs nele a ponta de ferro da que se quebrara. Dom Quixote

não dormiu a noite toda, pensando em sua senhora Dulcineia, para se

ajustar ao que havia lido nos livros, quando os cavaleiros passavam

sem dormir muitas noites nas florestas e descampados, entretidos com

as lembranças de suas amadas. Sancho Pança passou-a toda num sono

só, pois tinha o estômago cheio, e não de chá de chicória;1 e, se seu amo não o chamasse, não seriam suficientes para despertá-lo os raios

do sol que lhe davam no rosto, nem o canto das muitas aves que

alegremente saudavam a vinda do novo dia. Ao se levantar, deu uma

bicada no odre e achou-o um pouco mais murcho que na noite

anterior, o que lhe afligiu o coração; não parecia que fossem por um

caminho em que logo se pudesse remediar esse problema. Dom

Quixote de novo não quis comer nada, porque, como se disse, dera

para se sustentar de lembranças saborosas. Voltaram à estrada para

Puerto Lápice e o avistaram por volta das três da tarde.

— Aqui podemos meter a mão na massa nisso que chamam de

aventuras, irmão Sancho Pança — disse dom Quixote. — Mas já te

aviso: embora me vejas nos maiores perigos do mundo, jamais deverás

empunhar tua espada para me defender, a menos que os que me

atacam sejam canalhas e gente da ralé. Neste caso bem podes me

ajudar. Mas, se forem cavaleiros, de jeito nenhum é lícito nem

concedido pelas leis da cavalaria que me ajudes, até que sejas armado

cavaleiro.

— Com certeza, senhor — respondeu Sancho —, nisso vossa mercê

será muito bem obedecido, porque eu sou muito pacífico e inimigo de

me meter em brigas e confusões. Mas também é verdade que, se tiver

de defender minha pessoa, não levarei em conta essas leis, pois as

divinas e as humanas permitem que cada um se defenda de quem

quiser prejudicá-lo.

— Não digo menos — respondeu dom Quixote. — Mas nisso de me

ajudar contra cavaleiros deverás manter na linha teus ímpetos

naturais.

— Garanto que assim o farei — respondeu Sancho. — Guardarei

esse preceito tão bem como os domingos.

Estando nessa conversa, viram surgir pela estrada dois frades da

Ordem de São Bento cavalgando dois dromedários — pois não eram

menores as duas mulas em que vinham. Usavam guarda-sóis e

máscaras com lentes para a poeira. Atrás vinha um coche

acompanhado por quatro ou cinco cavaleiros e dois rapazes a pé

puxando as mulas. Como depois se soube, no coche vinha uma

senhora basca que ia a Sevilha, onde estava seu marido, que ia para as

Índias nomeado para um cargo muito importante. Os frades não vinham com ela, embora fossem pelo mesmo caminho. Porém, mal os

divisou, dom Quixote disse a seu escudeiro:

— Ou muito me engano, ou esta será a mais famosa aventura que já

se viu, porque aqueles vultos negros que ali aparecem devem ser, e sem

dúvida são, uns magos que levam naquele coche alguma princesa

raptada. É preciso desfazer esta infâmia com todas as minhas forças.

— Isto vai ser pior que os moinhos de vento — disse Sancho. —

Olhe, senhor, aqueles são frades de São Bento e o coche deve ser de

gente de passagem. Por favor, olhe bem o que faz, não vá cair em

outra trapaça do diabo.

— Já te disse, Sancho — respondeu dom Quixote —, que sabes

pouco em matéria de aventuras: o que digo é verdade, já verás.

E, dizendo isso, avançou, pondo-se no meio da estrada; quando os

frades chegaram tão perto que lhe pareceu que poderiam ouvi-lo, disse

em voz alta:

— Gente endiabrada e descomunal, deixai agora mesmo as nobres

princesas que levais cativas nesse coche; senão, preparai-vos para receber morte rápida, justo castigo por vossas malfeitorias.

Os frades puxaram as rédeas, surpresos tanto com a figura de dom

Quixote como com suas palavras, a que responderam:

— Senhor cavaleiro, nós não somos endiabrados nem descomunais,

mas dois religiosos de São Bento seguindo nosso caminho, e não

sabemos se nesse coche vêm ou não algumas princesas aprisionadas.

— Poupe-me de palavras macias, que eu vos conheço, canalha infiel

— disse dom Quixote.

E, sem esperar mais resposta, esporeou Rocinante e investiu com a

lança baixa contra o primeiro frade, com tanta fúria e intrepidez que,

se o frade não se deixasse cair da mula, ele o teria atirado ao chão,

contra a vontade e talvez gravemente ferido, se não morto. O segundo

religioso, que viu o modo como tratavam seu companheiro, meteu os

calcanhares nas costelas de sua boa mula,2 que desatou a correr pelo

campo mais ligeira que o próprio vento.

Sancho Pança, vendo o frade por terra, apeou rapidamente, caiu

sobre ele e começou a lhe tirar a batina. Chegaram dois rapazes que

acompanhavam os frades e lhe perguntaram por que o despia. Sancho

respondeu que a batina era dele de direito, como despojo da batalha que seu senhor dom Quixote havia ganhado. Os rapazes — que não

estavam para gracejos, nem entendiam esse negócio de despojos nem

batalhas —, vendo que dom Quixote já se afastara dali e conversava

com as damas que vinham no coche, investiram contra Sancho e

deram com ele no chão; e, sem lhe deixar pelo nas barbas, moeram-no

de pontapés e o deixaram estendido, sem fôlego nem sentido. Sem

perda de tempo o frade montou de novo, todo temeroso e acovardado

e sem cor no rosto; mal se viu a cavalo, picou atrás de seu

companheiro, que a uma boa distância dali o aguardava, vendo em

que dava aquela confusão. Mas, sem esperar pelo desfecho, foram

embora, benzendo-se mais do que se tivessem o diabo nos calcanhares.

Dom Quixote, como se disse, estava falando com a senhora do

coche:

— Vossa formosura, minha senhora, pode fazer de vossa pessoa o

que mais vos agradardes, porque a soberba de vossos captores jaz por

terra, derrubada por meu braço forte. E, para que não vos aflijais por

desconhecer o nome de vosso libertador, sabei que me chamo dom Quixote de la Mancha, cavaleiro andante e aventureiro, e cativo da

sem-par e formosa dona Dulcineia del Toboso. Como pagamento pelo

benefício que de mim haveis recebido, não quero nada além de que

volteis a El Toboso e, de minha parte, vos apresenteis diante dessa

senhora, dizendo a ela o que fiz por vossa liberdade.

Um dos escudeiros que acompanhavam o coche, um basco, escutava

tudo o que dom Quixote dizia. Vendo que ele não queria deixar passar

o coche e dizia que deviam voltar a El Toboso, avançou para dom

Quixote e, agarrando-lhe a lança, lhe disse, em mau castelhano e pior

basco:

— Anda, cavaleiro que mal andes! Pelo Deus que me criou que, se

não deixa coche, assim te matas como basco sou.

Mas dom Quixote entendeu-o muito bem e respondeu com toda

calma:

— Se fosses cavaleiro, como não és, eu já teria castigado tua loucura

e atrevimento, reles criatura.

Ao que o basco replicou:

— Eu não cavaleiro? Por Deus juro, tanto mentes como cristão. Se

lança atiras e espada sacas, a porca verás o rabo como torce logo! Basco por terra, fidalgo por mar, fidalgo com os diabos: mentes que

olha se outra dizes coisa.

— Agora o vereis, como disse Agrajes3 — respondeu dom Quixote.

E, atirando a lança no chão, sacou a espada, prendeu o braço na

rodela e investiu contra o basco com a intenção de lhe tirar a vida. O

basco, que gostaria de apear da mula porque era de aluguel e não

dava para se fiar nela, não pôde fazer outra coisa que sacar a espada;

por sorte se achava perto do coche, de onde conseguiu pegar uma

almofada, que lhe serviu de escudo. Assim avançaram um para o

outro, como se fossem dois inimigos mortais. Os outros tentaram

apaziguá-los, mas não puderam, porque o basco dizia com suas

palavras enroladas que, se não o deixassem acabar a batalha, ele

mesmo havia de matar sua patroa e todas as pessoas que o

estorvassem. A senhora do coche, surpresa e amedrontada com o que

via, fez o cocheiro se afastar um pouco dali e de longe ficou olhando a

dura contenda. No desenrolar dela, o basco deu uma grande espadada

num ombro de dom Quixote, por cima da rodela — se o pegasse sem defesa, iria abri-lo até a cintura. Dom Quixote, que sentiu o peso

daquele tremendo golpe, deu um grande brado:

— Oh, Dulcineia, senhora de minha alma, flor da formosura,

socorrei este vosso cavaleiro que, para agradar a vossa grande

bondade, nesta rigorosa situação se acha!

Dizer isso, firmar a espada, proteger-se bem com a rodela e investir

contra o basco foi uma coisa só, decidido a arriscar tudo num golpe

certeiro.

O basco, vendo-o vir, percebeu muito bem pela intrepidez sua

coragem e resolveu fazer o mesmo: aguardou dom Quixote protegido

com a almofada, sem poder virar a mula para lado nenhum, pois,

além de não ser feita para essas brincadeiras, já estava morta de

cansaço e não podia dar um passo.

Então, como se disse, dom Quixote vinha contra o basco cauteloso,

com a espada no alto, pronto para abri-lo ao meio, e o basco o

aguardava também com a espada em riste e protegido por sua

almofada. Todos os presentes estavam amedrontados e suspensos do

que havia de acontecer com a ameaça de tamanhos golpes; e a senhora

do coche e suas criadas estavam fazendo mil juras e promessas a todas as imagens e casas de devoção da Espanha para que Deus livrasse seu

escudeiro e elas do grande perigo em que se encontravam.

Mas o problema disso tudo é que justo neste ponto o autor desta

história deixa pendente esta batalha, desculpando-se porque não

achou mais nada escrito sobre estas façanhas de dom Quixote, além

das que já foram relatadas aqui. É bem verdade que o segundo autor

desta obra não quis acreditar que história tão estranha estivesse

entregue às leis do esquecimento, nem que os cronistas da Mancha

houvessem sido tão pouco cuidadosos que não tivessem em seus

arquivos ou em suas escrivaninhas alguns papéis que tratassem do

famoso cavaleiro. Assim pensando, não se desesperou de achar o fim

desta aventura prazerosa — sendo-lhe o céu favorável, encontrou-a do

modo que se contará a seguir.

 

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