Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 57 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XLIX

que trata da sagaz

conversa que sancho pança teve

com seu senhor dom quixote

— Ah, peguei vossa mercê! — disse Sancho. — Era isso que eu queria

saber, no fundo de minha alma. Venha cá, senhor: poderia negar o que

comumente se diz por aí quando uma pessoa está indisposta: “Não sei

o que tem fulano, que não come, nem bebe, nem dorme, nem responde

coisa com coisa o que lhe perguntam, que até parece que está

encantado?”. Do que se deduz que os tais que não comem, nem

bebem, nem dormem, nem fazem aquelas obras naturais que

mencionei, estão encantados, mas não aqueles que têm a vontade que

vossa mercê tem, e que bebe e come quando lhe dão o que beber e

comer, e responde a tudo que lhe perguntam.

— É verdade, Sancho — respondeu dom Quixote —, mas já te disse

que há muitos tipos de encantamentos, e poderia ser que tenham

mudado com o tempo e que agora esteja em voga que os encantados

façam tudo o que eu faço, mesmo que não fizessem antes. De modo

que contra os costumes da época não devemos argumentar nem tirar

conclusões. Tenho certeza de que estou encantado e isso basta para

acalmar minha consciência, que ficaria muito pesada se eu pensasse

que não e me deixasse estar nesta jaula, preguiçoso e covarde,

malogrando o socorro que poderia proporcionar a muitos desvalidos e

afrontados que neste exato instante devem sentir extrema necessidade

de minha ajuda e amparo.

— Mesmo assim — replicou Sancho —, digo que, para maior

prosperidade e satisfação de todos, seria uma boa ideia que vossa

mercê experimentasse sair desta prisão. E eu me obrigo a ajudá-lo e até a tirá-lo dela, com todas as minhas forças, para que tente montar

de novo em Rocinante, que também parece que vai encantado, pois

está triste e melancólico. Então, feito isso, seria bom que tentássemos

outra vez a sorte na busca de aventuras; e, se não nos saíssemos bem,

não faltaria tempo para voltarmos à jaula, na qual prometo, pela lei

que rege o bom e leal escudeiro, me encerrar juntamente com vossa mercê, se por acaso fosse vossa mercê tão desgraçado ou eu tão burro

que não consiga sair como lhe digo.

— Fico feliz de fazer o que dizes, meu caro Sancho — replicou dom

Quixote. — Quando vires oportunidade de me pôr em liberdade, eu te

obedecerei em tudo e por tudo; mas verás, Sancho, como te enganas

no conhecimento de minha desgraça.

Nessas conversas se entretiveram o cavaleiro andante e o mal-

andante escudeiro, até que chegaram aonde o padre, o cônego e o

barbeiro esperavam, já apeados. O carreteiro desatrelou logo os bois

da carreta e os deixou andar à vontade por aquele vale verde e

agradável, cujo frescor era convidativo, não para pessoas encantadas

como dom Quixote, mas para manhosos e sabidos como seu

escudeiro, que rogou ao padre que permitisse que seu senhor saísse

por um momento da jaula, porque do contrário aquela prisão não iria

tão limpa como requeria a decência de um cavaleiro do porte de seu

amo. O padre entendeu, mas disse que faria de boa vontade o que lhe

pedia se não temesse que seu senhor, vendo-se em liberdade, haveria de fazer das suas e ir-se para onde ninguém jamais o visse.

— Eu garanto que não fugirá — respondeu Sancho.

— Eu também — disse o cônego —, e mais ainda se ele me der a

palavra como cavaleiro de não se afastar de nós enquanto não

quisermos.

— Dou sim — respondeu dom Quixote, que escutava tudo. — Sem

falar que aquele que está encantado, como eu, não tem liberdade para

fazer de sua pessoa o que quiser, porque quem o encantou pode fazer

com que ele não se mexa de um lugar por três séculos e, se houver

fugido, o trará de volta voando.

Assim sendo, podiam muito bem soltá-lo, ainda mais que seria

vantajoso para todos, pois, se não o soltassem, com certeza não

poderia deixar de castigar-lhes o olfato, se não se afastassem dali.

O cônego achou que estavam em boas mãos, apesar de amarradas, e

então, sob promessa e palavra de dom Quixote, soltaram-no da jaula,

o que o alegrou infinitamente; e a primeira coisa que fez foi esticar

todo o corpo, depois andou até onde estava Rocinante e, dando-lhe

duas palmadas nas ancas, disse:

— Por Deus e por sua bendita Mãe, espero, flor e espelho dos

cavalos, que logo nos veremos como desejamos: tu, com teu senhor no

lombo; e eu, montado em ti, exercitando o ofício para o qual Deus me

pôs no mundo.

E, dizendo isso, dom Quixote se afastou com Sancho para bem

longe, de onde veio mais aliviado e com mais ganas de fazer o que seu

escudeiro ordenasse.

O cônego o olhava, espantado com a esquisitice de sua grande

loucura e de que, quando falava e respondia, mostrava ter muito bom

senso: só perdia as estribeiras, como se disse outras vezes, ao tratar de

cavalaria. E assim, movido pela compaixão, depois que todos tinham

se sentado na grama verde para esperar as provisões, ele lhe disse:

— Como é possível, senhor fidalgo, que a leitura amarga e ociosa

dos livros de cavalaria tenha tido tanto poder sobre vossa mercê, que

lhe tenha virado o juízo de modo que veio a acreditar que está

encantado, com outras coisas desse tipo, tão longe de ser verdadeiras

como a própria mentira está da verdade? E como é possível que haja mente humana capaz de aceitar que houve no mundo aquela

infinidade de Amadises e aquela multidão de cavaleiros famosos, tanto

imperador de Trebizonda, tanto Felixmarte de Hircânia, tanto

palafrém, tanta donzela andante, tantas serpentes, tantos dragões,

tantos gigantes, tantas aventuras inauditas, tantos tipos de

encantamentos, tantas batalhas, tantos combates furiosos, tantas

vestes elegantes, tantas princesas apaixonadas, tantos escudeiros

condes, tantos anões graciosos, tantas cartinhas, tanto galanteio,

tantas mulheres valentes e, por fim, tantos casos totalmente absurdos

como os que os livros de cavalaria contam? Sei que me dão algum

prazer quando os leio, se não parar para pensar que são mentiras e

leviandades; mas, quando caio em mim, atiro o melhor deles na

parede e até o atiraria no fogo, se houvesse um por perto, como a

merecedores dessa pena, por ser falsos e embusteiros, distante do

tratamento que a natureza comum pede, e como a inventores de novas

doutrinas e de modo novo de vida, e como a quem leva o populacho

ignorante a acreditar e a considerar verdadeiras tantas asneiras como

as que eles contêm. E são tão descarados que se atrevem a perturbar a

mente de fidalgos inteligentes e bem-nascidos, como se vê muito bem pelo que fizeram com vossa mercê, pois o levaram a tais extremos que

foi forçoso trancá-lo numa jaula e trazê-lo num carro de bois, como

quem traz ou leva algum leão ou algum tigre de povoado em povoado,

para que paguem para vê-lo.

“Eia, senhor dom Quixote, tenha pena de si mesmo, volte à guarida

do bom senso e saiba usar o grande discernimento que o céu lhe

concedeu, empregando o feliz talento de sua mente em outra leitura

que beneficie sua consciência e aumente sua honra! E se mesmo assim,

levado por sua natural inclinação, quiser ler livros de façanhas e de

cavalaria, leia o Livro dos Juízes nas Sagradas Escrituras, que ali

achará verdades grandiosas e feitos tão verdadeiros como corajosos. A

Lusitânia teve um Viriato; Roma, um César; Cartago, um Aníbal; a

Grécia, um Alexandre; Castela, um conde Fernán González; Valência,

um Cid; a Andaluzia, um Gonzalo Fernández; a Estremadura, um

Diego García de Paredes; Xerez, um Garci Pérez de Vargas; Toledo,

um Garcilaso; Sevilha, um dom Manuel de León,1 cuja lição de seus

valorosos feitos pode entreter, ensinar, divertir e espantar as mais agudas mentes que os lerem. Esta sim será leitura digna da grande

inteligência de vossa mercê, meu caro dom Quixote: sairá dela erudito

em história, apaixonado pela virtude, instruído na bondade, melhor

em seus hábitos, valente sem temeridade, ousado sem covardia, e tudo

isso para glória de Deus, proveito seu e fama da Mancha, onde nasceu

e de onde vem, pelo que fiquei sabendo.

Dom Quixote esteve muito atento escutando as palavras do cônego

e, quando viu que havia terminado, disse, depois de ficar um bom

tempo olhando para ele:

— Parece-me, senhor fidalgo, que a conversa de vossa mercê visava a

me dar a entender que não houve cavaleiros andantes e que todos os

livros de cavalaria são falsos, mentirosos, prejudiciais e inúteis para a

república, e que eu fiz mal em lê-los e, pior ainda, em acreditar neles, e

muito mais em imitá-los, consagrando-me à duríssima profissão da

cavalaria andante que eles ensinam, negando-me que tenha existido no

mundo Amadises, nem de Gaula nem da Grécia, nem todos os outros

cavaleiros de que os textos estão cheios.

— Sim, tudo ao pé da letra como vossa mercê diz — disse o cônego

nessas alturas.

Ao que dom Quixote respondeu:

— Vossa mercê acrescentou também que esses livros haviam me

prejudicado muito, pois teriam me virado a cabeça e me metido numa

jaula, e que seria melhor eu me corrigir e mudar de leitura, lendo

outras coisas mais verdadeiras, que ensinam e divertem mais.

— Isso mesmo — disse o cônego.

— Bem — replicou dom Quixote —, em minha opinião o sem juízo e

o encantado é vossa mercê, pois começou a dizer tantas blasfêmias

contra uma coisa tão bem aceita e considerada verdadeira que aquele

que a negasse, como vossa mercê a nega, mereceria a mesma pena que

vossa mercê diz que aplica aos livros quando os lê e o aborrecem.

Porque querer convencer alguém de que Amadis não existiu, nem

todos os outros cavaleiros aventureiros de que as histórias estão

repletas, é querer persuadir de que o sol não ilumina, nem o gelo

esfria, nem a terra nos sustenta. Que mente pode ser capaz de

persuadir outra de que não foi verdade o caso da infanta Floripes e

Guy de Borgonha, e o de Ferrabrás com a ponte de Mantible, que

aconteceu no tempo de Carlos Magno,2 que juro por Deus que é tão

verdadeiro como agora é dia? E, se for mentira, também não deve ter

existido Heitor, nem Aquiles, nem a guerra de Troia, nem os Doze

Pares de França, nem o rei Artur da Inglaterra, que até hoje anda

transformado em corvo, e o esperam dia após dia em seu reino. E

também se atreve a dizer que é mentirosa a história de Guarino

Mesquinho3 e a busca pelo Santo Graal, e que são apócrifos os amores

de dom Tristão e da rainha Isolda, como os de Guinevere e Lancelot,

havendo pessoas que quase se lembram de ter visto dona

Quintañona,4 que foi quem melhor servia vinho na Grã-Bretanha?

Isso tudo é exatamente assim, tanto que me lembro de que minha avó

por parte de pai dizia, quando via alguma dona, viúva digna de

respeito: “Aquela, meu neto, se parece com dona Quintañona”; então

concluo que ela deve tê-la conhecido, ou pelo menos deve ter visto

algum retrato seu. Pois quem poderá negar ser verdadeira a história de

Pierres e da linda Magalona, se hoje em dia ainda se vê no arsenal dos

reis a cravelha com que se conduzia o cavalo de madeira que o valente

Pierres montava pelos ares,5 que é um pouco maior que um varal de

carreta? E perto da cravelha está a sela de Babieca, e em Roncesvalles está a trompa de Roland, grande como uma viga. Disso se infere que

existiram Doze Pares, que existiram Pierres, que existiram Cides e

outros cavaleiros semelhantes,

destes que dizem as pessoas

que a suas aventuras vão.

Se não, diga-me também que não é verdade que foi cavaleiro

andante o valente português João de Merlo,6 que foi à Borgonha e

combateu na cidade de Ras com o famoso senhor de Charny, chamado

monsenhor Pierres, e depois, na cidade de Basileia, com monsenhor

Henrique de Remestan, saindo vencedor de ambas as empresas e cheio

de fama e honra; e as aventuras e desafios vividos na Borgonha pelos

valentes espanhóis Pedro Barba e Gutierre Quijada7 (de cuja estirpe

descendo em linha direta pelo lado masculino), vencendo os filhos do

conde de Saint-Pol. Negue-me ainda que dom Fernando de Guevara

não saiu em busca de aventuras na Alemanha, onde combateu com

monsenhor Jorge, cavaleiro da casa do duque da Áustria; diga que

foram uma fraude as justas de Suero de Quiñones, do Passo

Honroso,8 ou as aventuras do monsenhor Luís de Falces contra dom

Gonzalo de Guzmán,9 cavaleiro castelhano, e outras façanhas de

cavaleiros cristãos, deste e de reinos estrangeiros, tão autênticas e

verdadeiras que repito: aquele que as negar carece de toda razão e

bom senso.

O cônego ficou admirado ao ouvir a mistura que dom Quixote fazia

de verdades e mentiras, de ver o conhecimento que tinha de todas

aquelas coisas relacionadas com os feitos de sua cavalaria andante, e

respondeu assim:

— Não posso negar, senhor dom Quixote, que alguma coisa do que

vossa mercê disse seja verdade, especialmente o que se refere aos

cavaleiros andantes espanhóis, e quero admitir também que existiram

os Doze Pares de França, mas não posso acreditar que fizeram todas

aquelas coisas que o arcebispo de Turpin10 escreve sobre eles, porque

a verdade é que foram cavaleiros escolhidos pelos reis da França, a

quem chamaram pares por serem todos iguais em posição, audácia e

valentia: pelo menos, se não eram, havia razão para que fossem, e era

como uma ordem militar dessas que estão em voga agora em Santiago

ou em Calatrava; supõe-se que os que a professam são ou devem ser cavaleiros audaciosos, valentes e bem-nascidos; e como dizem agora

“cavaleiros de São João” ou “de Alcântara”, diziam naquele tempo

“cavaleiro dos Doze Pares”, porque foram doze iguais os escolhidos

para essa ordem militar. Quanto a ter existido o Cid não há dúvida,

muito menos Bernardo del Carpio; mas que tenham feito as façanhas

que contam vai uma grande diferença. E quanto àquilo da cravelha

que vossa mercê diz do conde Pierres, e que está perto da sela de

Babieca no arsenal dos reis, confesso meu pecado, sou tão ignorante

ou tão curto de vista que, embora tenha enxergado a sela, não

consegui ver a cravelha, mesmo sendo ela tão grande como vossa

mercê disse.

— Claro que está lá — replicou dom Quixote. — Dizem, além do

mais, que foi metida num estojo de pele de vitela para não mofar.

— É, tudo é possível — respondeu o cônego —, mas juro pelo

sacramento que recebi que não me lembro de tê-la visto. Agora,

mesmo que eu concorde que ela está lá, não sou obrigado a acreditar

nas histórias de tantos Amadises, nem nas dessa multidão de cavaleiros que se contam por aí, nem é razão para que um homem

como vossa mercê, tão honrado, com tantas qualidades, dotado de tão

bom discernimento, pense que sejam verdadeiras tantas loucuras

esquisitas como as que estão escritas nesses livros disparatados de

cavalaria.

 

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