Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 134 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXXIII

dos presságios que dom quixote teve

ao entrar em sua aldeia, com outros acontecimentos que adornam

e dão credibilidade a esta grande história

Conforme Cide Hamete, à entrada da aldeia, dom Quixote viu dois

meninos discutindo nas eiras, e um disse ao outro:

— Não te canses, Periquillo, porque nunca mais vai vê-la em tua

vida.

Dom Quixote ouviu isso e disse a Sancho:

— Não reparaste, meu amigo, no que disse aquele menino? “Nunca

mais vai vê-la em tua vida.”

— Mas que importa o que esse menino disse? — respondeu Sancho.

— O quê?! — replicou dom Quixote. — Não vês que aplicando

aquelas palavras a minha esperança significa que não vou ver

Dulcineia?

Sancho gostaria de responder, quando se atrapalhou ao ver que uma

lebre vinha fugindo pelo campo, seguida por muitos galgos e

caçadores. Amedrontada, a lebre veio se refugiar e se esconder entre as

patas do burro. Sancho a pegou sem dificuldade e apresentou-a a dom

Quixote, que estava dizendo:

— Malum signum! Malum signum!1 Lebre foge, galgos a seguem:

Dulcineia não aparece!

— Vossa mercê é esquisito — disse Sancho. — Digamos que esta

lebre é Dulcineia del Toboso e estes galgos que a perseguem, os magos

velhacos que a transformaram em camponesa; ela foge, eu a pego e a

ponho em poder de vossa mercê, que a tem em seus braços e a mima:

que mau sinal é este? Que mau agouro pode se ver aqui?

Os dois meninos da pendência se aproximaram para ver a lebre, e Sancho perguntou a um deles por que discutiam; o que havia dito

“nunca mais vai vê-la em tua vida” respondeu que pegara uma gaiola

de grilos do outro menino e que não pensava devolvê-la em toda a sua

vida. Sancho tirou da algibeira quatro quartos de real, deu-os ao

menino pela gaiola e, pondo-a nas mãos de dom Quixote, disse:

— Aqui estão, meu senhor, rotos e desbaratados esses presságios. Eu

posso ser um tolo, mas me parece que eles têm tanto a ver com nossos

assuntos como as nuvens de antigamente. E, se bem me lembro, ouvi o

padre de nosso povoado dizer que não é coisa de cristão nem de sábio

dar atenção a essas ninharias, e até mesmo vossa mercê me disse isso

esses dias, insinuando que eram uns bobos todos aqueles cristãos que

acreditavam em presságios. Mas não é preciso insistir nisso; vamos

logo e entremos em nossa aldeia.

Chegaram os caçadores, pediram sua lebre e dom Quixote a

entregou; seguiram adiante e, à entrada do povoado, num campo,

toparam com o padre e o bacharel Carrasco rezando. Mas é bom que

se diga que Sancho Pança havia jogado por cima do burro, para

proteger a mixórdia de armas e armadura, a túnica de bocassim

pintada com labaredas com que o vestiram no castelo do duque na

noite em que Altisidora ressuscitou. Também tinha ajeitado a mitra na

cabeça dele — transformação e enfeite mais insólitos com que jamais

se viu um jumento no mundo.

Os dois foram logo reconhecidos pelo padre e pelo bacharel, que se

aproximaram deles com os braços abertos. Dom Quixote apeou e os

abraçou apertado; e os meninos — mais rápidos que os linces —

perceberam a mitra do burro e correram para vê-la, e diziam um ao

outro:

— Vinde, meninos, e vereis o burro do Sancho Pança todo

endomingado, e a besta de dom Quixote mais magra hoje que no

primeiro dia.

Por fim, rodeados de meninos e acompanhados pelo padre e pelo

bacharel, entraram no povoado e foram até a casa de dom Quixote, e

encontraram à porta a ama e a sobrinha, que já tinham recebido

notícias de sua vinda. Também as tinham dado à mulher de Sancho,

Teresa Pança, que, desgrenhada e meio despida, trazendo pela mão

sua filha Sanchinha, correu para encontrar o marido. Mas, vendo-o

não muito alinhado como ela pensava que havia de estar um

governador, disse:

— Como vindes assim, meu caro? Pois me parece que vindes a pé e

todo estropiado, e tens mais jeito de desgovernado que de

governador?

— Cala-te, Teresa — respondeu Sancho —, pois quem vê cara não vê

coração, e vamos para nossa casa, que lá ouvirás maravilhas. Trago

dinheiro, que é o que importa, ganho com minha astúcia e sem

prejuízo de ninguém.

— Se trazeis dinheiro, meu caro marido — disse Teresa —, não

importa se o ganhastes assim ou assado, pois, seja lá como foi, não

inventastes um modo novo.

Sanchinha abraçou o pai e perguntou se lhe trazia alguma coisa, pois

estava esperando por ele como à chuva em tempo de seca. E Sancho,

agarrado pela mão por sua mulher e pelo cinto por sua filha, que

puxava o burro, foi para casa, deixando dom Quixote na sua em

poder da sobrinha e da criada, e em companhia do padre e do

bacharel.

Sem observar nem hora nem ocasião, naquele mesmo instante dom

Quixote se afastou sozinho com o bacharel e o padre, e em rápidas

palavras contou a eles sua derrota e a obrigação que assumira de não

sair de sua aldeia por um ano, obrigação que pensava obedecer ao pé da letra, sem a transgredir um ponto, como estava sujeito pela

disciplina e ordem da cavalaria andante. Mas tinha pensado em se

tornar pastor durante aquele ano e se meter na solidão dos campos,

onde a rédeas soltas podia dar vazão a seus pensamentos amorosos,

dedicando-se ao virtuoso ofício pastoril. E suplicava a eles que fossem

seus companheiros, se não tivessem muito que fazer e não estivessem

impedidos por negócios mais importantes. Ele compraria ovelhas e

gado suficiente para poderem ser chamados de pastores, sem falar que

a parte mais importante daquele negócio já estava feita, porque já

tinha dado nomes a eles, e nomes que lhes serviriam como luvas. O

padre pediu que os dissesse. Dom Quixote respondeu que ele se

chamaria pastor Quixótis; o bacharel, pastor Carrascão; o padre,

pastor Rosarião; e Sancho, pastor Pancino.

Ficaram pasmos ao ver o novo desatino de dom Quixote, mas, para

que não se fosse do povoado em busca de aventuras, esperando que

pudesse ser curado naquele ano, concordaram com sua nova intenção

e aprovaram por sabedoria sua loucura, oferecendo-se como

companheiros em seu exercício.

— Além do mais — disse Sansão Carrasco —, como todo mundo já

sabe, sou poeta célebre e a cada passo comporei versos pastoris ou

cortesãos ou como vier a calhar, para nos entretermos por esses ermos

por onde haveremos de andar. E o que é mais necessário, meus

senhores, é que cada um escolha o nome da pastora que pensa

celebrar em seus versos, e que não deixemos árvore, por mais dura que

seja, onde não se inscreva e grave seu nome, como é uso e costume dos

pastores apaixonados.

— Isso vem sob medida — respondeu dom Quixote —, mesmo que

eu não precise buscar nome de pastora imaginária, pois está aí a sem-

par Dulcineia del Toboso, glória destas ribeiras, adorno destes

campos, sustento da formosura, nata da galhardia e, enfim, pessoa a

quem cabe todo louvor, por mais hiperbólico que seja.

— É verdade — disse o padre —, mas nós vamos procurar por aí

umas pastoras mansinhas, que, se não valerem seis, valerão meia

dúzia.

Ao que Sansão Carrasco acrescentou:

— E, se faltarem, daremos a elas os nomes das que andam nas

estampas e nos livros, de que o mundo está cheio: Fílidas, Amarílis,

Dianas, Fléridas, Galateias e Belisardas, pois, se as vendem nas praças,

nós podemos muito bem comprar e considerá-las nossas. Se minha

dama, ou, digamos melhor, minha pastora, por acaso se chamar Ana,

eu a celebrarei sob o nome de “Anarda”, e, caso se chame Francisca,

eu a chamarei “Francênia”, e se Lúcia, “Lucinda”, pois tudo sai pelo

mesmo lugar. E Sancho Pança, se é que vai entrar nesta confraria,

poderá celebrar sua mulher Teresa Pança com o nome de “Teresaina”.

Dom Quixote caiu na risada com a invenção do nome, e o padre

elogiou imensamente sua virtuosa e honrada resolução e se ofereceu de

novo para lhe fazer companhia durante todo o tempo que se dedicasse

ao cumprimento de suas forçosas obrigações. Com isso se despediram

dele, e lhe rogaram e aconselharam que cuidasse de sua saúde,

deleitando-se com tudo o que fosse bom para ela.

Quis a sorte que sua sobrinha e a ama tivessem ouvido a conversa

dos três. Então, logo que eles se foram, as duas entraram em casa com

dom Quixote, e a sobrinha disse:

— O que é isto, senhor meu tio? Agora que pensávamos que vossa

mercê voltava para casa para se acomodar e levar uma vida quieta e

honrada, quer se meter em novos labirintos, se tornando

“pastorzinho, tu, que vens, pastorzinho, tu, que vais?”.2 A verdade

pura e simples é que vossa mercê já passou do ponto.

Ao que a ama acrescentou:

— E vossa mercê poderá passar no campo as sestas do verão e os

serenos do inverno? Poderá aguentar os uivos dos lobos? Não, claro

que não, que isso é vida para homens fortes, curtidos e criados para

esse ofício desde que largaram as fraldas e os babeiros. Depois, ruim

por ruim, melhor ser cavaleiro andante que pastor. Olhe, senhor, ouça

meu conselho, que lhe dou com cinquenta anos nas costas e em jejum,

não entupida de pão e vinho: fique em casa, cuide de suas coisas,

confesse seguido e ajude os pobres. E dane-se minha alma se isso lhe

fizer mal.

— Calai-vos, minhas filhas — respondeu dom Quixote. — Sei de

sobra o que devo fazer. Levai-me para a cama, pois acho que não me sinto bem, e tendes certeza de que, seja eu cavaleiro andante ou pastor

por andar, nunca deixarei de vos ajudar no que for preciso, como

vereis por minhas ações.

E as boas filhas (que sem dúvida o eram a ama e a sobrinha)

levaram-no à cama, onde lhe deram de comer e o trataram do melhor

modo possível.

 

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