Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 91 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXX

do que aconteceu a dom quixote

com uma bela caçadora

Cavaleiro e escudeiro chegaram muito melancólicos e rabugentos a

seus animais, especialmente Sancho, a quem partia o coração meter a

mão no bolso atrás de dinheiro, pois parecia que tudo o que se tirava

dele era como lhe arrancar a menina dos olhos. Finalmente, sem falar

uma palavra, montaram a cavalo e se afastaram do famoso rio, dom

Quixote mergulhado nos pensamentos de seus amores e Sancho nos

da melhora de sua vida, que então ele achava que estava bem longe de

acontecer, porque, embora fosse um tolo, percebia muito bem que as

ações de seu amo, todas ou a maioria, eram disparates, e procurava

uma oportunidade para um dia se separar de seu senhor e ir embora

para casa, sem entrar em discussões e despedidas com ele. Mas a sorte

ordenou as coisas de modo muito diferente do que ele temia.

Aconteceu que no outro dia, ao pôr do sol, ao sair de uma mata,

dom Quixote espichou a vista por um campo verde e viu umas pessoas

ao longe. Ao se aproximar, descobriu que eram caçadores de falcoaria.

Aproximando-se mais, viu entre eles uma garbosa senhora sobre um

palafrém ou hacaneia branquíssima, adornada de guarnições verdes e

com um selim de prata. A senhora também vinha vestida de verde, tão

elegante e ricamente que ela mesma era a própria elegância em pessoa.

Na mão esquerda trazia um açor, detalhe que levou dom Quixote a

pensar que se tratava de uma nobre, senhora de todos aqueles

caçadores, como era realmente. Então disse a Sancho:

— Corre, Sancho, meu filho, e diz àquela senhora do palafrém e do

açor que eu, o Cavaleiro dos Leões, beijo as mãos de sua grande

formosura e que, se sua grandeza me der licença, irei beijá-las e servi-la enquanto minhas forças puderem e sua alteza me ordenar. E olha

como falas, Sancho, e vê se não encaixa nenhum de teus ditados em

meu recado.

— Com bom encaixador haveis topado! — respondeu Sancho. —

Ainda essa conversa? Olhai, meu senhor, não é a primeira vez na vida

que levei recado a senhoras nobres e distintas!

— Exceto o que levaste à senhora Dulcineia — replicou dom

Quixote —, não sei de outro que tenhas levado, pelo menos enquanto

estás comigo.

— É verdade — respondeu Sancho —, mas ao bom pagador as

penhoras não doem, e a bom entendedor, meia palavra basta: quero

dizer que para mim não é preciso dizer nem me recomendar nada, que

estou pronto para tudo e de tudo sei um pouco.

— Acredito, Sancho, acredito — disse dom Quixote —, mas vai

logo, e que Deus te guie.

Sancho partiu a galope, tirando o burro do passo de sempre, e

chegou aonde a bela caçadora estava. Apeando, caiu de joelhos diante

dela e disse:

— Formosa senhora, aquele cavaleiro que se vê ali, chamado o

Cavaleiro dos Leões, é meu amo, e eu sou seu escudeiro, a quem

chamam em sua casa de Sancho Pança. Este tal Cavaleiro dos Leões,

que não faz muito tempo se chamava Cavaleiro da Triste Figura, envia

por mim a vossa grandeza votos de que lhe dê licença para que ele, sob sua determinação e beneplácito e consentimento, venha a realizar

seu desejo, que não é outro, segundo ele disse e eu confirmo, que

servir a vossa honrada altanaria e lindeza. Concedendo-lhe vossa

senhoria esta licença, ele cometerá façanhas que redundem em seu

favor, e disso ele receberá gloriosa mercê e contentamento.

— Com certeza, bom escudeiro — respondeu a senhora —,

desincumbistes-vos de vossa embaixada com todas aquelas

circunstâncias que essas embaixadas demandam. Levantai-vos, que

não é justo que escudeiro de tão grande cavaleiro como é o da Triste

Figura, de quem já tivemos muitas notícias, fique de joelhos. Levantai-

vos, amigo, e dizei a vosso senhor que seja muito bem-vindo e que

será servido com todo prazer por mim e pelo duque, meu marido,

numa casa de campo que temos aqui.

Sancho se levantou, pasmo tanto pela formosura da boa senhora

como por sua grande distinção e cortesia, e mais ainda por ela ter dito

que tinha notícias de seu senhor, o Cavaleiro da Triste Figura — e se

não o chamara de Cavaleiro dos Leões devia ser porque tinha adotado

o nome recentemente. A duquesa — cujo título ainda não se sabe —

lhe perguntou:

— Dizei-me, irmão escudeiro: este vosso senhor não é um de que

anda impressa uma história que se chama O engenhoso fidalgo dom

Quixote de la Mancha, que tem por senhora de sua alma uma tal

Dulcineia del Toboso?

— É ele mesmo, senhora — respondeu Sancho —, e aquele escudeiro

dele que anda ou deve andar na dita história, a quem chamam Sancho

Pança, sou eu, se é que não me trocaram no berço, quero dizer, se não

imprimiram outro.

— Isso tudo me alegra muito — disse a duquesa. — Ide, meu caro

Pança, e dizei a vosso senhor que ele é bem-vindo aos meus domínios,

que nenhuma coisa poderia me deixar mais contente.

Sancho, depois dessa resposta tão agradável, voltou com muito

prazer a seu amo, a quem contou tudo o que a nobre senhora havia

dito, elevando aos céus com seus termos rústicos sua grande

formosura, elegância e cortesia. Dom Quixote empertigou-se na sela,

firmou-se nos estribos, ajeitou a viseira, esporeou Rocinante e com

graciosa desenvoltura foi beijar as mãos da duquesa. Enquanto ele vinha, ela mandou chamar o duque, seu marido, e contou toda a sua

embaixada; e os dois, por terem lido a primeira parte desta história e

compreendido a índole disparatada de dom Quixote, aguardavam-no

com muito gosto e desejo de conhecê-lo, dispostos a lhe seguir o

humor e concordar em tudo que dissesse, tratando-o como cavaleiro

andante por todos os dias que ficasse com eles, com todas as

cerimônias habituais vistas nos livros de cavalaria, que haviam lido e a

que ainda eram muito aficionados.

Chegou então dom Quixote, a viseira levantada. Como desse sinais

de que ia apear, Sancho correu para lhe segurar o estribo, mas foi tão

desastrado que, ao descer do burro, enroscou um pé numa corda da

albarda de tal modo que não foi possível se desenredar, ficando

pendurado por ele, com a cara e o peito no chão. Dom Quixote, que

não tinha o costume de apear sem que lhe segurassem o estribo,

pensando que Sancho já havia chegado e o segurava, descarregou de

repente o corpo e levou junto a sela de Rocinante, que devia estar com

a cincha frouxa. Assim, a sela e ele caíram por terra, não sem

vergonha e muitas pragas entre dentes contra Sancho, que ainda tinha

o pé embaraçado na corda.

O duque mandou seus caçadores ajudarem o cavaleiro e o escudeiro.

Eles levantaram dom Quixote, que, maltratado pela queda,

rengueando um pouco, foi como pôde se ajoelhar diante dos dois

senhores. Mas o duque não consentiu isso de forma alguma; pelo

contrário, apeando do cavalo, foi abraçar dom Quixote, dizendo-lhe:

— Com pesar vejo, senhor Cavaleiro da Triste Figura, que a primeira

figura que vossa mercê fez em minha terra tenha sido tão triste, mas

descuidos de escudeiros costumam ser causa de piores males.

— O que foi a causa de vos conhecer, valoroso senhor — respondeu

dom Quixote —, não pode ser um mal, mesmo que minha queda não

parasse até os quintos dos infernos, pois dali me levantaria e me

arrancaria a glória de vos ter conhecido. Meu escudeiro, que Deus o

castigue, melhor desata a língua para dizer malícias que aperta e ata a

cincha de uma sela para que fique firme. Mas, esteja eu como estiver,

prostrado ou ereto, a pé ou a cavalo, sempre estarei a vosso serviço e

ao serviço de minha senhora a duquesa, digna consorte vossa e digna

senhora da formosura e universal princesa da cortesia.

— Vamos com calma, senhor dom Quixote de la Mancha! — disse o

duque —, pois onde está minha senhora dona Dulcineia del Toboso

não há razão para que se louvem outras formosuras.

A essas alturas Sancho Pança já se livrara da corda e, como estava

por perto, antes que seu amo respondesse, disse:

— Não se pode negar nem denegar que minha senhora Dulcineia del

Toboso é muito formosa, mas a lebre salta onde a gente menos espera,

pois eu ouvi dizer que isso que chamam de natureza é como um oleiro

que faz canecos de barro: aquele que faz um caneco formoso também

pode fazer dois ou três ou cem. Digo isso porque juro que minha

senhora, a duquesa, não fica atrás de minha ama, a senhora Dulcineia

del Toboso.

Dom Quixote se virou para a duquesa e disse:

— Vossa grandeza imagine que não houve no mundo cavaleiro

andante com escudeiro mais linguarudo nem mais gracioso do que eu

tenho; e ele demonstrará que digo a verdade se vossa nobre

excelsitude desejar servir-se de mim alguns dias.

Ao que a duquesa respondeu:

— Que Sancho, o bom, seja gracioso me agrada muito, porque é

sinal de que é atilado, pois as pilhérias e os gracejos, meu caro dom

Quixote, como vossa mercê bem sabe, não assentam em espíritos

obtusos. Como o bom Sancho é cheio de pilhérias e gracejos, desde já

o tomo por atilado.

— E falador — acrescentou dom Quixote.

— Tanto melhor — disse o duque —, porque muitos gracejos não

podem ser ditos com poucas palavras. Mas, para que não se vá nosso

tempo nelas, venha o grande Cavaleiro da Triste Figura…

— “Dos Leões” vossa alteza deve dizer — disse Sancho —, pois já

não há mais triste figura nem figurão.

— Que seja dos Leões — prosseguiu o duque. — Repito, então, que

venha o senhor Cavaleiro dos Leões a um castelo que tenho perto

daqui, onde terá a recepção devida a tão nobre pessoa, coisa que eu e

a duquesa costumamos fazer a todos os cavaleiros andantes que a ele

chegam.

Nesse meio-tempo, Sancho já havia ajeitado a sela e apertado bem a cincha; montando dom Quixote em Rocinante e o duque num belo

cavalo, puseram a duquesa entre eles e se encaminharam para o

castelo. A duquesa mandou que Sancho ficasse perto dela, porque

gostava imensamente de ouvir seus ditos espirituosos. Sancho não se

fez de rogado, meteu-se entre os três e entrou na conversa, o quarto

mas não o último, para grande prazer da duquesa e do duque, que

consideraram uma enorme sorte acolher em seu castelo tal cavaleiro

andante e tal escudeiro andado.

 

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