Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 69 de 137

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Dom Quixote

Capítulo VIII

onde se conta o que aconteceu

a dom quixote quando estava indo ver

sua senhora dulcineia del toboso

“Abençoado seja o poderoso Alá!”, diz Hamete Benengeli no começo

deste oitavo capítulo. “Abençoado seja Alá!”, repete três vezes. Ele diz

que essas bênçãos são por já ter dom Quixote e Sancho em campo e

que os leitores de sua agradável história podem considerar que neste

ponto começam as façanhas e as graças de dom Quixote e de seu

escudeiro. Mas pede a eles que esqueçam as aventuras passadas do

engenhoso fidalgo e voltem os olhos para as que estão por vir, pois

começam agora, na estrada para El Toboso, como as outras

começaram nos campos de Montiel, e não é muito o que pede em

troca de tudo o que promete. Enfim, ele prossegue, dizendo:

Dom Quixote e Sancho ficaram sozinhos e, mal Sansão havia se

afastado, Rocinante começou a relinchar e o burro a peidar, coisa que

cavaleiro e escudeiro consideraram um bom sinal e feliz presságio,

embora, se devemos contar a verdade, foram bem mais peidos e zurros

do ruço que os relinchos do pangaré, do que Sancho deduziu que sua

sorte devia sobrepujar e ficar muito além da de seu senhor, baseando-

se não sei se em astrologia, de que ele entendia, embora a história

revele apenas que o ouviram dizer que, quando tropeçava ou caía,

desejava não ter saído de casa, porque do tropeço ou da queda não

ganhava nada além das botinas arrebentadas ou as costelas partidas

— apesar de tolo, nisso não andava muito errado. Dom Quixote lhe

disse:

— Sancho, meu amigo, a noite vem chegando mais depressa e mais

escura do que precisávamos para ver El Toboso de dia, onde decidi ir antes de me meter em outra aventura, para tomar a bênção e ganhar a

licença da sem-par Dulcineia. Com essa licença, penso encarar toda

aventura perigosa e tenho por certo encerrá-la com felicidade, porque

nenhuma coisa nesta vida torna os cavaleiros andantes mais valentes

que se verem favorecidos por suas damas.

— Acredito — respondeu Sancho —, mas acho difícil que vossa

mercê possa falar ou se avistar com ela, pelo menos em lugar em que

possa receber sua bênção, a menos que ela a dê pela cerca do pátio,

por onde a vi pela primeira vez, quando levei a carta com as notícias

das tolices e loucuras que vossa mercê tinha ficado fazendo no coração

da Serra Morena.

— Então, Sancho, te pareceram pátio e cerca onde e por onde viste

aquela graça e formosura nunca louvada o bastante? — disse dom

Quixote. — Não deviam ser nada menos que sacadas ou varandas, ou

um saguão, ou sei lá como chamam, de ricos e reais palácios.

— Pode ser — respondeu Sancho —, mas me pareceu cerca, se é que

não me falha a memória.

— Mesmo assim, vamos lá, Sancho — replicou dom Quixote —,

pois, desde que a veja, tanto faz se for pela cerca ou pelas janelas, ou

por frestas ou grades de jardins, porque qualquer raio de sol de sua

beleza que chegue a meus olhos iluminará meu espírito e fortalecerá

meu coração, de modo que me tornarei único e sem igual na sabedoria e na bravura.

— Na verdade, senhor — respondeu Sancho —, quando vi esse sol

da senhora Dulcineia del Toboso, ele não brilhava tanto que pudesse

lançar qualquer raio; deve ter sido porque sua mercê estava

peneirando aquele trigo de que falei: a polvadeira que fazia ficou

como nuvem diante do rosto dela, obscurecendo-o.

— Tu insistes, Sancho — disse dom Quixote —, em dizer, pensar,

acreditar e teimar que minha senhora Dulcineia peneirava trigo, sendo

isso uma tarefa e função que nada têm a ver com tudo o que fazem ou

devem fazer as pessoas distintas, que são educadas e reservadas para

outras coisas e passatempos, que mostram a tiro de balestra sua

posição! Como lembras mal, Sancho, daqueles versos de nosso poeta1

em que nos pinta os bordados que faziam lá em suas moradas de

cristal aquelas quatro ninfas que emergiram as cabeças do amado Tejo

e se sentaram no campo verde para bordar aqueles tecidos preciosos

que o engenhoso poeta nos descreve ali: todos eram de fios de ouro, de

seda e pérolas entrelaçadas. E dessa maneira devia ser o trabalho de

minha senhora quando tu a viste, a não ser que algum mago perverso,

de pura inveja que deve ter por minhas coisas, troque e transforme todas as que devem me dar prazer em diferentes figuras daquelas que

têm. Assim, se por acaso o autor daquela história em que dizem que

andam impressas minhas façanhas foi algum mago inimigo, temo que

tenha trocado algumas coisas por outras, misturando com uma

verdade mil mentiras, divertindo-se em contar outras ações fora do

que requer a narração de uma história verídica. Oh, inveja, raiz de

infinitos males e caruncho das virtudes! Todos os vícios, Sancho,

trazem um não sei quê de deleite consigo, mas o da inveja só traz

desgostos, rancores e iras.

— Isso é o que digo também — respondeu Sancho — e penso que

nesse relato ou história sobre nós, que o bacharel Carrasco disse que

havia visto, minha honra deve ter ido para o diabo, apedrejada de um

lado para o outro feito cachorro ladrão, como se diz. Pois eu juro por

minha mãe que não falei mal de nenhum mago, nem tenho tantos bens

que possa ser invejado. É verdade que sou meio malicioso e tenho

umas comichões de velhacaria, mas tudo cobre e oculta minha tolice,

sempre natural e nunca ardilosa. E, mesmo que não tivesse outra virtude a não ser crer, como creio desde sempre, firme e

verdadeiramente em Deus e em tudo aquilo que tem e crê a santa

Igreja Católica Romana, e ser inimigo mortal dos judeus, como sou, os

historiadores deviam ter misericórdia de mim e me tratar bem em seus

escritos. Mas digam o que quiserem, nasci nu e nu me encontro: nada

perdi nem ganhei; apesar de estar em livros e andar por esse mundo de

mão em mão, não dou um ovo podre para o que dizem de mim.

— Acho que isso se parece, Sancho — disse dom Quixote —, com o

que aconteceu a um famoso poeta de nossa época, que, tendo feito

uma sátira maliciosa contra todas as damas cortesãs, não incluiu nem

nomeou uma dama de quem podia se duvidar se era ou não prostituta.

Então a moça, vendo que não estava na lista das demais, se queixou

ao poeta perguntando o que havia visto nela para não incluí-la entre

as outras, e que ampliasse a sátira e a pusesse lá: se não, ia se

arrepender de ter nascido. Assim fez o poeta, e falou mais mal dela do

que outras damas falariam, e ela ficou satisfeita de se ver com fama,

apesar de infame.

“Isso também se parece com o que contam daquele pastor que botou

fogo e queimou o famoso templo de Diana, considerado uma das sete maravilhas do mundo, apenas para que seu nome ficasse vivo nos

séculos futuros. Embora tenha se ordenado que ninguém mencionasse

de viva voz ou por escrito o nome dele, para que não se realizasse seu

desejo, soube-se que se chamava Eróstrato.

“Isso também lembra o que aconteceu ao grande imperador Carlos

Quinto com um cavaleiro em Roma. O imperador quis ver aquele

famoso templo da Rotunda, que na Antiguidade se chamou o templo

de todos os deuses e que agora, com mais propriedade, se chama de

todos os santos. É o edifício que ficou mais inteiro entre todos os que

os pagãos construíram em Roma e o que mais conserva a fama da

grandiosidade e magnificência de seus fundadores. Tem a forma de

uma meia laranja, é grande ao extremo e bem iluminado, sem que

entre nele outra luz que a de uma janela, ou, melhor dizendo,

claraboia redonda, que está em seu topo; o imperador olhava o

edifício por ela, enquanto a seu lado um cavaleiro romano lhe

explicava os primores e as sutilezas daquela grande construção e

memorável arquitetura; por fim, tendo se afastado da claraboia, disse ao imperador: ‘Mil vezes, sagrada majestade, senti o desejo de me

abraçar com vossa alteza e me jogar claraboia abaixo, para deixar de

mim fama eterna no mundo’. ‘Eu vos agradeço’, respondeu o

imperador, ‘por não ter executado tão mau pensamento, e de hoje em

diante não vos darei oportunidade para que volteis a testar vossa

lealdade. Assim, ordeno-vos que jamais me faleis nem estejais onde eu

estiver.’ E, depois dessas palavras, fez uma grande mercê a ele.

“Quero dizer, Sancho, que o desejo de alcançar fama é um estímulo

poderoso. Quem pensas tu que atirou Horácio da ponte, com

armadura e tudo, nas profundezas do Tibre? Quem queimou o braço e

a mão de Múcio? Quem impeliu Cúrcio de se lançar no fundo da

cratera que apareceu no meio de Roma? Quem, contra todos os

augúrios contrários, fez César cruzar o Rubicão? E, com exemplo mais

moderno, quem afundou os navios e deixou em terra e isolados os

valentes espanhóis guiados pelo cortesíssimo Cortés no Novo Mundo?

Todas essas e outras grandes e diferentes façanhas são, foram e serão

obras da fama, que os mortais desejam como prêmios e parte da

imortalidade que seus famosos feitos merecem, apesar de que nós (os

cristãos, católicos e cavaleiros andantes) devemos dar maior atenção à glória dos séculos futuros, que é eterna nas regiões etéreas e celestes,

do que à vaidade da fama que se alcança neste presente e finito século.

Pois a fama, por mais que dure, irá acabar com o próprio mundo, que

tem seu fim marcado.

“Então, meu amigo Sancho, nossas obras não devem sair dos limites

estabelecidos pela religião cristã, que professamos. Devemos matar

nos gigantes a soberba; combater a inveja com a generosidade e o bom

coração; a ira com a calma sobriedade e tranquilidade da alma; a gula

e o sono comendo pouco e velando muito; a luxúria e a lascívia com a

lealdade que guardamos àquelas que fizemos senhoras de nossos

pensamentos; a preguiça andando por todos os lugares do mundo, em

busca das oportunidades que podem nos fazer e façam, além de

cristãos, cavaleiros famosos. Vês aqui, Sancho, os meios pelos quais se

alcançam os extremos de louvores que traz consigo a boa fama.”

— Tudo o que vossa mercê me disse até aqui — disse Sancho —, eu

entendi muito bem, mas, mesmo assim, queria que vossa mercê me

sorvesse uma dúvida que me veio à mente justo nesse ponto.

— Queres dizer resolvesse, Sancho — disse dom Quixote. — Diz de

uma vez, que responderei o que souber.

— Diga-me, senhor — prosseguiu Sancho —, esses Júlios e Agostos,

e todos esses cavaleiros façanhosos de que falou, que já morreram,

onde estão agora?

— Os pagãos — respondeu dom Quixote — sem dúvida estão no

inferno; os cristãos, se foram bons cristãos, ou estão no purgatório ou

no céu.

— Está bem — disse Sancho —, mas agora vejamos: essas sepulturas

onde estão os corpos desses maiorais têm diante de si candelabros de

prata, ou as paredes de suas capelas estão adornadas com muletas,

mortalhas, cabeleiras, pernas e olhos de cera? Se não, como estão

adornadas?

Ao que dom Quixote respondeu:

— Os sepulcros dos pagãos foram na maioria templos suntuosos: as

cinzas do corpo de Júlio César foram postas sobre um obelisco de

pedra de tamanho descomunal, que hoje chamam em Roma de “a

agulha de são Pedro”; ao imperador Adriano serviu de sepultura um

castelo tão grande como uma boa aldeia, que chamaram “Moles

Â

Hadriani”, que agora é o castelo de santo Ângelo em Roma; a rainha

Artemisa sepultou seu marido Mausolo numa sepultura que foi

considerada uma das sete maravilhas do mundo. Mas nenhuma dessas

sepulturas nem muitas outras que os pagãos tiveram foram adornadas

com mortalhas, nem com outras oferendas e sinais que mostrassem ser

santos os que nelas estavam sepultados.

— Já chego lá — replicou Sancho. — E agora me diga: o que vale

mais, ressuscitar um morto ou matar um gigante?

— A resposta cai de madura: é ressuscitar um morto.

— Agora o peguei — disse Sancho. — Portanto, a fama de quem

ressuscita mortos, dá visão aos cegos, conserta os coxos e cura os

doentes, e diante de suas sepulturas ardem velas, e suas capelas estão

cheias de pessoas devotas que adoram de joelhos suas relíquias, é

melhor, nesta e na outra vida, do que a fama que deixaram e irão

deixar quantos imperadores pagãos e cavaleiros andantes tenham

existido no mundo.

— Confesso que também é verdade — respondeu dom Quixote.

— Pois essa fama, essas graças, essas prerrogativas, como chamam

— respondeu Sancho —, têm os corpos e as relíquias dos santos, que

com aprovação e licença de nossa santa madre Igreja têm candelabros,

velas, mortalhas, muletas, pinturas, cabeleiras, olhos, pernas, com que

aumentam a devoção e engrandecem sua fama cristã. Os reis levam

sobre seus ombros os corpos dos santos ou suas relíquias, beijam os

pedaços de seus ossos, adornam e enriquecem com eles seus oratórios

e altares preciosos.

— O que queres que eu conclua, Sancho, de tudo que disseste? —

disse dom Quixote.

— Quero dizer — disse Sancho — que tratemos de ser santos e

alcançaremos mais rapidamente a boa fama que pretendemos. E

repare, senhor, que ontem ou anteontem (porque, como faz tão pouco

tempo, pode-se falar dessa maneira) canonizaram ou beatificaram dois

fradezinhos descalços. Agora se considera uma sorte beijar ou tocar as

correntes de ferro com que prendiam e atormentavam os corpos, e são

mais veneradas, segundo dizem, que a espada de Roland no arsenal do

rei nosso senhor, que Deus proteja. Então, meu amo, mais vale ser um

humilde fradezinho, de qualquer ordem que seja, do que valente e andante cavaleiro; mais valor têm para Deus duas dezenas de açoites

em penitência que duas mil lançadas, tanto faz se em gigantes,

monstros ou em dragões.

— Tudo isso é verdade — respondeu dom Quixote —, mas nem

todos podemos ser frades, e muitos são os caminhos por onde Deus

leva os seus ao céu: a cavalaria é religião e há cavaleiros santos na

glória.

— Sim — respondeu Sancho —, mas ouvi dizer que há mais frades

no céu que cavaleiros andantes.

— É assim — respondeu dom Quixote — porque é maior o número

dos religiosos que o de cavaleiros.

— São muitos os andantes — disse Sancho.

— Muitos — respondeu dom Quixote —, mas poucos os que

merecem o nome de cavaleiros.

Nestas e em outras conversas semelhantes passaram aquela noite e o

dia seguinte, sem que lhes acontecesse coisa digna de se contar, do que

dom Quixote não se amolou pouco. Enfim, no outro dia ao anoitecer, eles depararam com a grande cidade de El Toboso, e a visão dela

alegrou o espírito de dom Quixote e entristeceu o de Sancho, porque

não sabia onde ficava a casa de Dulcineia, nem nunca a tinha visto,

como também não a tinha visto seu senhor; de modo que estavam

preocupados, um por vê-la e o outro por não tê-la visto, e Sancho não

imaginava o que havia de fazer quando seu amo o enviasse a El

Toboso. Por fim, dom Quixote decidiu que entrariam de noite na

cidade, e enquanto esperavam a hora ficaram num mato de azinheiras

que havia perto de El Toboso. Quando chegou o momento preciso,

entraram na cidade, onde lhes aconteceram coisas estupendas.

 

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