Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 135 de 137

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Dom Quixote

Capítulo LXXIV

 

de como dom quixote

caiu doente, do testamento que fez

e de sua morte

Como as coisas humanas não são eternas, mas um declínio constante

do começo até seu derradeiro fim, especialmente as vidas dos homens,

e como a de dom Quixote não tivesse o privilégio do céu para deter o

curso do declínio da sua, chegou o fim e desfecho dela quando ele

menos esperava. Fosse pela melancolia que lhe causava se ver vencido,

ou pela disposição do céu, que assim o ordenava, foi tomado por uma

febre que o deixou seis dias de cama. Nesse meio-tempo, recebeu

muitas vezes a visita do padre, do bacharel e do barbeiro, seus amigos,

sem que seu bom escudeiro Sancho Pança saísse da cabeceira.

Eles, julgando que o abatimento pela derrota e pelo fim da esperança

de ver Dulcineia livre e desencantada o mantinha daquele jeito, por

todos os meios possíveis procuravam alegrá-lo. O bacharel dizia que

se animasse e levantasse para começar logo sua vida pastoril, para a

qual ele já tinha escrito uma écloga, que desbancaria todas as que

Sannazaro havia escrito, e que já tinha comprado com seu próprio

dinheiro, de um fazendeiro de Quintanar, dois famosos cachorros para

guardar o rebanho, um chamado Brasino e o outro Caramelão. Mas

nem por isso dom Quixote deixava suas tristezas.

Seus amigos chamaram o médico, que tomou o pulso dele, não ficou

muito satisfeito e disse que pelo sim, pelo não, cuidasse da saúde de

sua alma, porque a do corpo corria perigo. Dom Quixote ouviu-o com

toda a calma, mas não o ouviram assim sua criada, sua sobrinha e seu

escudeiro, que começaram a chorar ternamente, como se já o dessem

por morto. A opinião do médico foi que melancolias e amarguras davam cabo dele. Dom Quixote rogou que o deixassem sozinho,

porque queria dormir um pouco. Obedeceram-no, e ele dormiu a sono

solto, como se diz, por mais de seis horas, tanto que a criada e a

sobrinha pensaram que havia de ficar no sono. Mas ele acordou no

fim daquele tempo e disse com um grande brado:

— Bendito seja Deus, todo-poderoso, que tanto bem me fez! Suas

misericórdias realmente não têm limites, nem as reduzem nem as

impedem os pecados dos homens.

A sobrinha esteve atenta às palavras do tio e, parecendo-lhe mais

razoáveis que de costume, pelo menos durante aquela doença,

perguntou a ele:

— O que vossa mercê está dizendo, senhor? Há alguma novidade?

Que misericórdias são essas? E que pecados?

— As misericórdias, minha cara sobrinha — respondeu dom

Quixote —, são as que Deus me dispensou neste instante, e que meus

pecados não impediram, como disse. Já tenho o juízo livre e claro, sem

as sombras tenebrosas da ignorância que sobre ele puseram minha

amarga e contínua leitura dos detestáveis livros de cavalaria. Já

reconheço seus disparates e seus logros, e só me pesa que este

desengano tenha chegado tão tarde, pois não me sobra tempo para

compensar lendo outros que sejam luz da alma. Eu me sinto às portas

da morte, minha sobrinha, mas gostaria de encará-la de um modo que mostrasse que minha vida não foi tão ruim a ponto de me deixar com

fama de louco, porque, apesar de eu tê-lo sido, não gostaria de

confirmar essa verdade em minha morte. Vamos, minha amiga, chame

meus bons amigos, o padre, o bacharel Sansão Carrascos e mestre

Nicolás, o barbeiro, que quero me confessar e fazer meu testamento.

Mas a entrada dos três dispensou a sobrinha desse trabalho. Mal os

viu, dom Quixote disse:

— Felicitai-me, bons senhores, porque já não sou dom Quixote de la

Mancha, mas Alonso Quixano, a quem meus costumes deram fama de

“bom”. Agora sou inimigo de Amadis de Gaula e de toda a

inumerável corja de sua família; agora me são odiosas todas as

histórias profanas da cavalaria andante, e reconheço minha estupidez

e o perigo em que me puseram tê-las lido; agora, pela misericórdia de

Deus, aprendi a lição na própria carne e as abomino.

Quando os três ouviram isso, sem dúvida imaginaram que alguma

nova loucura havia tomado conta dele. Sancho lhe disse:

— Agora, senhor dom Quixote, que temos notícias de que a senhora

Dulcineia está desencantada, vossa mercê se sai com essa? E agora que

estamos a pique de ser pastores, para passar a vida cantando como uns príncipes, vossa mercê quer se tornar ermitão? Cale-se, por Deus,

volte a si e deixe de histórias.

— As histórias que vivi até aqui foram verdadeiras apenas em meu

prejuízo, mas minha morte, com a ajuda do céu, deverá torná-las

proveitosas para mim — replicou dom Quixote. — Senhores, sinto

que estou morrendo rapidamente: deixem as brincadeiras para lá e me

tragam alguém para me confessar e um escrivão para fazer meu

testamento, que em situações como esta um homem não deve brincar

com sua alma. Assim sendo, suplico que, enquanto o senhor padre me

confessa, vão buscar o escrivão.

Olharam uns para os outros, pasmos com as alegações de dom

Quixote e, apesar de duvidarem, quiseram acreditar. E um dos sinais

que os levaram a deduzir que morria mesmo foi ter ele passado da

loucura à sanidade tão facilmente, porque, às já mencionadas

alegações, acrescentou muitas outras tão bem articuladas, tão cristãs e

com tamanho bom senso que por fim não duvidaram mais, e

acreditaram que havia sarado.

O padre fez todos saírem e, ficando sozinho com ele, confessou-o.

O bacharel foi atrás do escrivão e dali a pouco voltou com ele e com

Sancho Pança. O dito Sancho, que já sabia pelas notícias do bacharel

do estado de seu senhor, achando a criada e a sobrinha chorosas,

começou a fazer beicinho e a derramar lágrimas e mais lágrimas.

Acabada a confissão, o padre saiu e disse:

— Realmente está morrendo e realmente está curado Alonso

Quixano, o Bom. Podemos entrar para que faça seu testamento.

Essas palavras foram um terrível estímulo para a criada, a sobrinha e

Sancho Pança, seu bom escudeiro, de tal maneira que fez rebentar os

olhos deles em lágrimas e os peitos em profundos suspiros. Realmente,

como se disse uma vez, enquanto dom Quixote foi apenas Alonso

Quixano, o Bom, e enquanto foi dom Quixote de la Mancha, sempre

foi de temperamento ameno e trato agradável, e por isso não só era

amado pelos de sua casa, como por todos os que o conheciam.

O escrivão entrou com os demais e — depois de dom Quixote ter

encomendado sua alma, com todos aqueles ritos cristãos necessários

— fez o cabeçalho do testamento, chegando à disposição de última

vontade. Então dom Quixote disse:

É

— Item. É minha vontade que certa quantia de dinheiro que está de

posse de Sancho Pança, que em minha loucura fiz meu escudeiro,

continue com ele, sem que o culpem ou lhe peçam conta alguma,

porque houve entre nós certas coisas, uns toma lá, dá cá. E, se sobrar

algum dinheiro depois de ele ter recebido o que lhe devo, que o troco

seja seu, pois não deve ser muito, e que faça bom proveito. E assim

como eu, estando louco, ajudei que lhe dessem o governo de uma ilha,

se pudesse agora, que estou em meu juízo, lhe daria o de um reino,

porque a simplicidade de seu caráter e a fidelidade de sua conduta

merecem-no.

E, virando-se para Sancho, lhe disse:

— Perdoa-me, meu amigo, tê-lo levado a passar por louco como eu,

fazendo-o cair no erro em que eu caí: acreditar que houve cavaleiros

andantes no mundo.

— Ai, meu senhor, não morra! — respondeu Sancho, chorando. —

Ouça meu conselho: viva muitos anos, porque a maior loucura que

um homem pode fazer nesta vida é se deixar morrer assim sem mais nem menos, sem que ninguém o mate nem que outras mãos lhe deem

cabo além das da melancolia. Vamos, não seja preguiçoso, levante-se

desta cama, e vamos para o campo vestidos de pastores, como

tínhamos combinado: quem sabe encontremos em alguma mata a

senhora dona Dulcineia desencantada e formosa como ela só. Se vossa

mercê morrer de pesar por ter sido derrotado, bote a culpa em mim,

dizendo que o derrubaram por eu ter apertado mal a cincha do

Rocinante, sem falar que vossa mercê deve ter visto em seus livros de

cavalaria ser coisa bastante comum uns cavaleiros derrubarem outros

e o que é derrotado hoje ser vitorioso amanhã.

— É verdade — disse Sansão —, o bom Sancho Pança conhece bem

esses casos.

— Vamos com calma, senhores — disse dom Quixote —, pois águas

passadas não movem moinhos. Eu fui louco, mas agora tenho juízo;

fui dom Quixote de la Mancha, mas agora, como já disse, sou Alonso

Quixano, o Bom. Possam meu arrependimento e minha sinceridade

me devolver à estima que vossas mercês tinham por mim. E vamos

adiante, senhor escrivão.

“Item. Deixo todas as minhas posses, sem necessidade de

enumeração, a Antônia Quixana, minha sobrinha, aqui presente,

tendo antes tirado do que for mais fácil dispor o que se necessitar para

cumprir meu legado. Quero, em primeiro lugar, que se pague o salário

que devo a minha criada pelo tempo que me serviu, e mais vinte

ducados para um vestido. Nomeio meus testamenteiros o senhor padre

e o senhor bacharel Sansão Carrasco, aqui presentes.

“Item. É minha vontade que, se Antônia Quixana, minha sobrinha,

quiser se casar, case com homem de quem primeiro se averiguou não

saber o que são livros de cavalaria. Mas, no caso de se averiguar que

ele sabe e, mesmo assim, minha sobrinha quiser se casar e

efetivamente se casar, é minha vontade que perca o direito a toda a

herança que deixei, e que meus testamenteiros distribuam esses bens

em obras de caridade a sua vontade.

“Item. Suplico aos senhores meus testamenteiros que, se a boa sorte

os levar a conhecer o autor que dizem que escreveu uma história que

anda por aí com o título de Segunda parte das façanhas de dom Quixote de la Mancha, peçam a ele, de minha parte, o mais

encarecidamente que se possa, que me perdoe a oportunidade que sem

pensar eu lhe dei de ter escrito tantos e tamanhos disparates como nela

descreve, pois parto desta vida com o escrúpulo de lhe ter dado

motivo para escrevê-los.”

Com isso encerrou o testamento, mas de repente desmaiou e se

estendeu de comprido na cama; todos se agitaram e correram em sua

ajuda. Nos três dias que ainda viveu, depois da assinatura do

testamento, desmaiava muito seguido. A casa andava sobressaltada,

mas mesmo assim a sobrinha comia, a criada brindava e Sancho Pança

se divertia, pois isso de herdar alguma coisa apaga ou ameniza na

memória do herdeiro a tristeza que é natural que o morto deixe.

Por fim, chegou a hora derradeira de dom Quixote, depois de

receber todos os sacramentos e depois de ter abominado com muitas e

eficazes palavras os livros de cavalaria. O escrivão se encontrava

presente e disse que nunca tinha lido, em nenhum livro de cavalaria,

que algum cavaleiro andante houvesse morrido em seu leito tão calma

e cristãmente como dom Quixote, que, entre os lamentos e as lágrimas

dos que se achavam ali, entregou sua alma, quero dizer, morreu.

Vendo isso, o padre pediu ao escrivão que testemunhasse que Alonso

Quixano, o Bom, chamado comumente de “dom Quixote de la

Mancha”, havia deixado a presente vida e morrido de causas naturais;

e que pedia esse testemunho para eliminar a oportunidade de que

algum outro autor que não fosse Cide Hamete Benengeli lhe

ressuscitasse falsamente e escrevesse intermináveis histórias de suas

façanhas.

Este foi o fim do engenhoso fidalgo da Mancha, cuja aldeia Cide

Hamete não quis lembrar, para que todas as vilas e povoados da

Mancha pudessem disputar entre si para adotá-lo e tê-lo como filho,

como as sete cidades da Grécia disputaram por Homero.

Deixam-se de incluir aqui os prantos de Sancho, da sobrinha e da

criada de dom Quixote, e os novos epitáfios de sua sepultura, embora

se inclua este de Sansão Carrasco:

Aqui jaz o fidalgo forte

que a tal extremo chegou

de bravura, que se adverte

que a morte não triunfou

sobre sua vida com sua morte.

De todo o mundo fez pouco,

foi o espantalho e o papão

do mundo, mas de tal modo,

que favoreceu sua aventura

morrer são, depois de viver louco.a

E o prudente Cide Hamete disse a sua pena: “Aqui ficarás, minha

pena, pendurada neste gancho, por um fio de arame, nem sei se bem

cortada ou mal aparada, onde viverás longos séculos, se historiadores

presunçosos e velhacos não te pegarem para te profanar. Mas, antes

que se aproximem de ti, podes adverti-los, dizendo da melhor forma

que puderes:

— Alto lá, seus patifezinhos!

Por nenhum seja tocada,

porque esta empresa, bom rei,

para mim estava guardada.1

Apenas para mim nasceu dom Quixote, e eu para ele: ele soube agir

e eu escrever. Nós dois somos um só, a despeito e apesar do escritor falso e tordesilhesco que se atreveu ou haverá de se atrever a escrever

com pena de avestruz grosseira e mal aparada as façanhas de meu

bravo cavaleiro, porque não é carga para seus ombros, nem assunto

para seu espírito insosso. Se por acaso chegares a conhecê-lo, diz-lhe

que deixe repousar na sepultura os cansados e já podres ossos de dom

Quixote, e não queira levá-lo para Castela, a Velha, contra todas as

prerrogativas da morte, fazendo-o sair do cemitério onde real e

verdadeiramente jaz estendido de fora a fora, impossibilitado de

empreender uma terceira jornada e nova saída,2 pois para zombar de

tantas como fizeram tantos cavaleiros andantes, bastam as duas que

ele fez, com tanto prazer e beneplácito das pessoas a cujo

conhecimento chegaram, tanto neste como em reinos estranhos.

“E com isso cumprirás com o que pede a fé cristã, aconselhando bem

a quem te quer mal, e eu ficarei satisfeito e orgulhoso de ter sido o

primeiro que gozou inteiramente do fruto de seus escritos, como

desejava, pois não foi outro meu desejo que execrar para os homens as

falsas e disparatadas histórias dos livros de cavalaria, que já tropeçaram nas de meu verdadeiro dom Quixote e haverão de cair de

todo sem dúvida alguma.” Vale.

a Yace aquí el hidalgo fuerte/ que a tanto extremo llegó/ de valiente, que se advierte/ que la muerte no triunfó/ de su vida con su muerte.// Tuvo a todo el mundo en poco,/ fue el espantajo y el coco/ del mundo, en tal coyuntura,/ que acreditó su ventura/ morir cuerdo y vivir loco.

 

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