Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 29 de 137

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Dom Quixote

Capítulo XXI

que trata da grande aventura

e preciosa conquista do elmo de mambrino,

com outras coisas acontecidas

ao nosso invencível cavaleiro

Nisso começou a chover um pouco, e Sancho gostaria que se

abrigassem no moinho dos pisões, mas dom Quixote tinha ficado com

tal aversão por ele por causa daquela zombaria medonha que não quis

entrar ali de jeito nenhum. E assim, dobrando à direita, deram em

outro caminho como o que haviam trilhado no dia anterior.

Dali a pouco, dom Quixote avistou um homem a cavalo, que trazia

na cabeça uma coisa que reluzia como se fosse de ouro. Mal o viu,

virou-se para Sancho e disse:

— Parece-me, Sancho, que não há ditado que não seja verdadeiro

(porque todos são sentenças tiradas da própria experiência, mãe de

todas as ciências), especialmente aquele que diz: “Onde uma porta se

fecha, outra se abre”. Pois se ontem à noite o destino nos fechou a

porta que procurávamos, enganando-nos com os pisões, agora nos

abre outra de par em par para uma aventura melhor e mais certa; e, se

eu não conseguir entrar por ela, a culpa será minha, sem que a possa

atribuir ao desconhecimento de pisões ou à escuridão da noite. Digo

isso porque, se não me engano, vem ali em nossa direção um homem

que traz na cabeça o elmo de Mambrino, sobre o qual eu fiz aquele

juramento, que já conheces.

— Veja bem vossa mercê o que diz e mais ainda o que faz — disse

Sancho —, pois eu não gostaria que fossem outros pisões que

acabassem por nos socar e moer o bom senso.

— Que o diabo te carregue, seu covarde! — replicou dom Quixote. — Que tem a ver elmo com pisões?

— Não sei de nada — respondeu Sancho —, mas juro que, se

pudesse falar tanto como antes, talvez eu alegasse tais razões que

vossa mercê veria que se engana no que diz.

— Como posso me enganar no que digo, traidor melindroso? —

disse dom Quixote. — Diz-me: não vês aquele cavaleiro que vem ali, num cavalo tordilho, que traz na cabeça um elmo de ouro?

— Pelo que posso ver — respondeu Sancho —, é apenas um homem

montado num burro, ruço como o meu, que traz na cabeça uma coisa

que reluz.

— Pois isso é o elmo de Mambrino — disse dom Quixote. — Afasta-

te para o lado e deixa-me sozinho com ele: verás como, sem dizer uma

palavra para poupar tempo, acabo esta aventura e será meu o elmo

que tanto desejo.

— Terei o cuidado de me afastar — replicou Sancho. — Mas repito:

queira Deus que o que reluz seja ouro mesmo, não pisões.

— Já vos disse, irmão, que não mencioneis mais os pisões nem em

pensamento, pois juro por… — e dom Quixote lançou o nome em

vão, redondo como uma bola — que vos pisoteio a alma.

Sancho se calou, com medo de que seu amo cumprisse a promessa.

O caso é que o elmo, o cavalo e o cavaleiro que dom Quixote via

eram isto: naquelas bandas havia duas aldeias, uma tão pequena que

não tinha nem botica nem barbeiro; como a outra, que ficava perto, os tinha, o barbeiro da maior também servia à menor. Aconteceu que aí

um doente teve necessidade de uma sangria e outro sujeito de fazer a

barba, por isso vinha o barbeiro com uma bacia de latão, montado

num burro ruço, como dissera Sancho. Quis o destino que, nessa hora,

começasse a chover e, para não manchar o chapéu, que devia ser

novo, o barbeiro botou na cabeça a bacia que, como estava limpa,

reluzia a meia légua. Foi assim que a dom Quixote pareceu cavalo

tordilho, cavaleiro e elmo de ouro — pois com muita facilidade

ajustava todas as coisas que via a suas desvairadas cavalarias e mal-

andantes pensamentos. E, quando viu o pobre cavaleiro se aproximar,

sem conversa investiu a todo galope, com o chuço baixo, decidido a

trespassá-lo de lado a lado. Mas, bem perto dele, sem deter a carreira

furiosa de Rocinante, disse:

— Defende-te, reles criatura, ou entrega-me de bom grado o que

com tanta razão me é devido!

O barbeiro, que vinha tão descuidado e sem medo, quando viu

aquele fantasma avançar sobre ele, não teve outro remédio para se

defender do golpe da lança que se atirar de cima do burro. Aí, mal

tocou o chão, se levantou mais ligeiro que um gamo e saiu correndo por aquela campina de modo que nem o vento o alcançaria, deixando

a bacia para trás. Dom Quixote se contentou com ela e disse que o

pagão tinha agido com discernimento — havia imitado o castor, que,

vendo-se acossado pelos caçadores, rasga e despedaça com os dentes

aquilo pelo que ele, por instinto natural, sabe que é perseguido.1

Mandou que Sancho pegasse o elmo, o qual, tomando a bacia com

ambas as mãos, disse:

— Por Deus, é boa a bacia! Acho que vale tanto oito reais como um

maravedi.

Entregou-a ao amo, que a botou logo na cabeça, girando-a de um

lado para o outro, procurando a presilha para prender na armadura,

e, como não a encontrava, disse:

— Sem dúvida, o pagão para quem se forjou sob medida este famoso

elmo devia ter a cabeça muito grande; e o pior é que falta metade dele.

Quando Sancho ouviu chamar a bacia de “elmo”, não pôde conter o

riso; mas veio à mente dele a cólera de seu amo e se calou em seguida.

— De que te ris, Sancho? — disse dom Quixote.

— Estava imaginando — disse Sancho — a cabeçona que tinha o

pagão dono deste morrião, que parece uma bacia de barbeiro sem tirar

nem pôr.

— Sabes o que penso, Sancho? Por algum acaso estranho este

famoso elmo encantado caiu nas mãos de quem não soube ver nem

avaliar seu valor, percebendo apenas que era de ouro puríssimo.

Então, sem saber o que fazia, deve ter fundido uma metade para se

aproveitar do preço e da outra fez esta, que parece bacia de barbeiro,

como dizes. Mas, seja como for, para mim que o conheço não vem ao

caso a transmutação; eu o consertarei na primeira vila onde haja

ferreiro, e de um modo que não leve vantagem sobre ele, nem mesmo

se compare, o que fez e forjou o deus das ferrarias para o deus das

batalhas. Enquanto isso, vou levá-lo como puder, que mais vale um

pouco que nada; no mínimo será suficiente para me defender de

alguma pedrada.

— Isso — disse Sancho — se não for atirada com funda, como

atiraram na briga dos dois exércitos, quando benzeram os molares de

vossa mercê e lhe arrebentaram a azeiteira onde vinha aquela bendita

beberagem que me fez vomitar as tripas.

— Não me importo muito de tê-la perdido, Sancho — disse dom

Quixote —, pois sei a receita de cor, como tu sabes.

— Eu também sei — respondeu Sancho —, mas se eu a fizer ou se

alguma vez na vida a provar de novo, quero cair morto agora. Além

do mais, não penso precisar dela, porque pretendo evitar com todos os

meus cinco sentidos ser ferido ou ferir alguém. Quanto a ser manteado

outra vez, não digo nada, que semelhantes desgraças mal podem se

prevenir; e, se acontecem, não há o que fazer senão encolher os

ombros, prender o fôlego, fechar os olhos e se deixar ir por onde a

sorte e a manta nos levar.

— És mau cristão, Sancho — disse dom Quixote ao ouvir isso —,

porque nunca esqueces a injúria que te fizeram uma vez. Pois saibas

que é próprio de corações nobres e generosos não fazer caso de

ninharias. Saíste com um pé coxo, uma costela partida, a cabeça

rachada, para que não te esqueças daquela brincadeira? Porque,

pensando bem, foi só uma brincadeira e diversão. Se eu não pensasse

assim, já teria voltado lá e, para vingar-te, teria feito mais estrago do que os gregos por causa do rapto de Helena, que, se vivesse nestes

tempos, ou minha Dulcineia vivesse naqueles, certamente não teria

tanta fama de formosa como tem.

E aqui deu um suspiro que foi às nuvens.

— É melhor levar na brincadeira mesmo — disse Sancho —, já que a

vingança não pode ser levada a sério; mas eu sei de que tipo foram as

seriedades e as brincadeiras, e sei também que não me sumirão da

memória, como nunca me sairão das costas. Mas, deixando isso para

lá, diga-me vossa mercê o que faremos deste cavalo tordilho, que

parece um burro ruço, que abandonou aqui aquele Mantrino que

vossa mercê derrubou. Do modo como botou o pé na estrada sem nem

nos dizer adeus, não leva jeito de quem volta. E, por minhas barbas, se

não é bom o ruço!

— Nunca foi meu costume despojar aos que venço — disse dom

Quixote —, nem é uso da cavalaria tirar os cavalos deles e deixá-los a

pé, a menos que o vencedor tenha perdido o seu no combate. Neste

caso é lícito pegar o do vencido, como fruto de guerra justa. Assim,

Sancho, deixa esse cavalo ou burro ou o que tu quiseres que seja; seu

dono, vendo-nos longe daqui, logo voltará para buscá-lo.

— Sabe Deus como gostaria de levá-lo — replicou Sancho —, ou,

pelo menos, trocá-lo pelo meu, que não me parece tão bom. Na

verdade, são rigorosas as leis da cavalaria, pois não permitem deixar

um burro por outro. Mas gostaria de saber se ao menos posso trocar

os arreios.

— Não tenho muita certeza disso — respondeu dom Quixote. —

Mas, por via das dúvidas, até estar mais bem informado, consinto que

troques, se é que tens extrema necessidade deles.

— É tão extrema — respondeu Sancho — que, se fosse para minha

própria pessoa, não seriam mais necessários.

Em seguida, habilitado com aquela licença, fez mutatio capparum2 e

deixou seu jumento às mil maravilhas, melhorando-o de cabo a rabo.

Feito isso, almoçaram as sobras do que tinham despojado da mula

de carga, beberam da água do riacho do pisão, sem virar a cara para

olhá-lo, tamanha era a aversão que lhe tinham por causa do medo que

haviam passado.

Então, aplacadas a fome e até a melancolia, montaram a cavalo e, sem escolher o caminho, por ser muito de cavaleiros andantes não ter

rumo certo, puseram-se a caminhar por onde a vontade de Rocinante

quis, levando atrás a do amo e mesmo a do burro, que sempre seguia

o cavalo por onde fosse, em boa amizade e companhia. Apesar disso

tudo, voltaram à estrada real e seguiram por ela ao acaso, sem

desígnio algum.

Assim iam caminhando, quando Sancho disse a seu amo:

— Vossa mercê pode me dar licença de falar um pouco? Desde

aquela penosa ordem de silêncio, apodreceram-me mais de quatro

coisas no estômago, e eu gostaria que ao menos uma que tenho agora

na ponta da língua não se perdesse.

— Fala — disse dom Quixote —, mas sê breve, porque nenhum

discurso é bom se for longo.

— Olhe, senhor — disse Sancho —, há dias venho pensando no

pouco que se ganha e conquista ao andar buscando essas aventuras

que vossa mercê busca nesses desertos e encruzilhadas, onde, mesmo

sendo vitorioso nas mais perigosas, não há quem as veja nem saiba

delas: assim vão ficar em perpétuo silêncio, em prejuízo da intenção de

vossa mercê e do que elas merecem. Por isso me parece que seria melhor (a menos que vossa mercê seja de outra opinião) que fôssemos

servir a algum imperador ou a outro grande príncipe que tenha

alguma guerra, em cujo serviço vossa mercê mostre o valor de sua

pessoa, suas grandes forças e maior inteligência; ao ver isso, o senhor

a quem servirmos há de nos remunerar certamente, cada um conforme

seus méritos; e ali não faltará quem ponha por escrito as façanhas de

vossa mercê, para memória perpétua. Das minhas não digo nada, pois

não sairão dos limites escudeiris, embora saiba dizer que, se na

cavalaria for costume escrever façanhas de escudeiros, não penso que

as minhas vão ficar nas entrelinhas.

— Não falas mal, Sancho — respondeu dom Quixote —, mas, antes

de chegar a esse ponto, é necessário andar pelo mundo como que em

provação, buscando aventuras para que, vencidas algumas, se ganhe

nome e tanta fama que já seja o cavaleiro conhecido por seus feitos,

quando for à corte de algum grande monarca. Então, mal o tenham

visto entrar pela porta da cidade, os meninos irão rodeá-lo e segui-lo,

aos gritos: “Este é o cavaleiro do Sol”, ou da Serpente, ou de alguma outra insígnia sob a qual tiver feito grandes façanhas. “Este é”, dirão,

“o que venceu em singular batalha o gigantesco Brocabruno da

Grande Força, o que desencantou o Grande Mameluco da Pérsia do

longo encantamento em que esteve por quase novecentos anos.”

Assim, de boca em boca, irão apregoando seus feitos e, depois do

alvoroço dos meninos e das outras pessoas, surgirá nas janelas do

palácio o rei daquelas terras e, assim que veja o cavaleiro,

reconhecendo-o pela armadura ou pelo emblema do escudo,

forçosamente há de dizer: “Eia, eia! Saiam meus cavaleiros e todos os

que estão em minha corte, para receber a flor da cavalaria, que ali

vem!”. A esta ordem sairão todos, e ele chegará até a metade da

escada e o abraçará fortemente, desejando-lhe paz e beijando-lhe o

rosto, e em seguida o levará pelas mãos ao aposento da senhora

rainha, onde o cavaleiro a encontrará com a infanta, sua filha, que há

de ser uma das mais belas e perfeitas donzelas que a duras penas

poderá se achar em grande parte do mundo conhecido.

“Logo depois disso, acontecerá que ela pousa os olhos no cavaleiro,

o cavaleiro pousa os olhos nela, e cada um parece ao outro coisa mais

divina que humana. Sem saber como nem quando, ficam presos e enlaçados na intrincada rede amorosa, e com grande ansiedade em

seus corações por não saberem como poderão se falar para descobrir

seus desejos e sentimentos. Sem dúvida dali o levam a algum quarto

do palácio, luxuosamente ornamentado, onde, havendo lhe tirado a

armadura, lhe trazem um rico manto de escarlate para que se cubra; e,

se de armadura pareceu bonito, mais bonito ainda parecerá de gibão.

“Chegada a noite, jantará com o rei, a rainha e a infanta, quando

nunca tirará os olhos dela, olhando-a de modo dissimulado; e ela fará

o mesmo com a mesma sagacidade, porque, como já disse, é donzela

muito inteligente. Tirada a mesa, cruzará de repente pela porta da sala

um pequeno e feio anão com uma formosa ama que, entre dois

gigantes, vem atrás do anão, com um enigma criado por um mago

antiquíssimo: aquele que o resolver será considerado o melhor

cavaleiro do mundo. Em seguida o rei mandará que todos os que estão

presentes tentem a sorte, mas nenhum o deslindará a não ser o

cavaleiro hóspede, aumentando assim sua fama, do que ficará muito

contente a infanta, que além de feliz se dará por bem paga por ter posto seus pensamentos em pessoa de tão altos méritos. O melhor é

que este rei ou príncipe, ou seja lá o que for, trava uma guerra renhida

com outro tão poderoso como ele, e o cavaleiro hóspede lhe pede,

depois de alguns dias em sua corte, licença para ir servi-lo naquela

guerra. O rei a dará de muito boa vontade, e o cavaleiro lhe beijará

cortesmente as mãos pela mercê que lhe faz.

“Naquela noite se despedirá de sua senhora, a infanta, pelas grades

do jardim que dá para o aposento onde ela dorme, pelas quais já

muitas outras vezes havia falado com ela, sendo intermediária e

conhecedora de tudo uma aia em quem a infanta muito confiava. Ele

suspirará, ela desfalecerá, a aia trará água, ele se angustiará muito pela

honra de sua dama, porque vem a manhã e não gostaria que fossem

descobertos. Finalmente, a infanta voltará a si e dará suas mãos alvas

pela grade ao cavaleiro, que as beijará mil e mil vezes, banhando-as

em lágrimas. Ficará combinado entre os dois o modo como se darão

as boas e as más notícias, e a princesa lhe suplicará que demore o

menos possível; ele o prometerá com muitas juras e, voltando a lhe

beijar as mãos, despedir-se-á com tanto sentimento que estará a um

passo de perder a vida. Dali vai para seus aposentos, atira-se sobre o leito, não pode dormir por causa da dor da partida; levanta muito

cedo, vai se despedir do rei, da rainha e da infanta. Ao se despedir do

rei e da rainha, dizem-lhe que a senhora infanta está indisposta e que

não pode receber visita; o cavaleiro pensa que é de tristeza por sua

partida, seu coração se despedaça, e falta pouco para não demonstrar

sua agonia. A aia alcoviteira está ali perto, observa tudo e vai contar a

sua senhora, que a recebe com lágrimas e lhe diz que uma das maiores

tristezas que tem é não saber quem é seu cavaleiro, se é de linhagem de

reis ou não; a aia lhe garante que não pode caber tanta cortesia,

distinção e bravura como a de seu cavaleiro senão em pessoa nobre e

real; a coitada consola-se com isso e procura disfarçar, para que seus

pais não suspeitem dela, e dali a dois dias aparece em público.

“O cavaleiro já se foi: luta na guerra, vence o inimigo do rei,

conquista muitas cidades, triunfa em muitas batalhas, volta à corte, vê

sua senhora no lugar de costume, combina-se então que a pedirá a seu

pai como esposa, em pagamento por seus serviços. O rei não a quer

dar porque não sabe quem é ele; mas, apesar disso, raptada ou de qualquer outro jeito que for, a infanta vem a ser sua esposa, e seu pai

fica muito feliz porque se soube que o tal cavaleiro é filho de um

valente rei de não sei que reino, pois acho que não deve estar no

mapa. O pai morre, a infanta herda e o cavaleiro, num piscar de

olhos, vira rei. Aqui começam as mercês a seu escudeiro e a todos

aqueles que o ajudaram a subir a tão alta posição: casa seu escudeiro

com uma aia da infanta, que será, sem dúvida, a que intermediou seus

amores, que é filha de um duque muito importante.”

— É o que peço, e sem tretas! — disse Sancho. — Conto com isso,

porque há de acontecer tudo ao pé da letra como vossa mercê disse,

agora que se chama o Cavaleiro da Triste Figura.

— Não tenhas dúvidas, Sancho — replicou dom Quixote —, porque

os cavaleiros andantes chegaram e chegam a ser reis e imperadores

exatamente do jeito que te contei, seguindo os mesmos passos. Agora

só falta ver que rei dos cristãos ou dos pagãos tenha guerra e filha

formosa; mas haverá tempo para pensar nisso, pois, como te disse,

primeiro é preciso ganhar fama por outras bandas antes de chegar à

corte. Também me falta outra coisa: no caso de encontrarmos rei com

guerra e filha formosa, tendo eu ganhado fama incrível em todo o universo, não sei como poderia se pensar que eu seja da linhagem de

reis ou pelo menos primo segundo de imperador; porque o rei não vai

querer me dar sua filha por mulher se, antes, não estiver inteirado

disso, embora mais o mereçam meus famosos feitos. Assim, por essa

falta, temo perder o que meu braço tanto merece. Mas é verdade que

eu sou fidalgo de casa antiga e conhecida, homem com propriedades

reconhecidas pelo tribunal, e a lei protege meu bom nome de afrontas

com quinhentos soldos de multa.3 Além do mais, poderia ser que o

mago que escrevesse minha história deslindasse de tal maneira minha

parentela e descendência que me descobrisse quinto ou sexto neto de

rei. Pois te digo, Sancho, que há duas espécies de linhagens no mundo:

umas derivam sua descendência de príncipes e monarcas, a quem

pouco a pouco o tempo foi desgastando, até acabarem em ponta como

uma pirâmide posta ao contrário; outras começaram com gente baixa

e foram subindo, de grau em grau, até chegar a grandes senhores. De

modo que a diferença está em que uns foram e já não são, e outros

são, mas não foram. Eu bem poderia ser dos que já não são. Assim, depois de averiguado, se veria como foi grande e famoso meu

princípio, com o que deveria se contentar o rei que haveria de ser meu

sogro; ou a infanta há de me amar de tal maneira que, apesar de seu

pai e de saber indubitavelmente que sou filho de um cavalariço, há de

me admitir por senhor e esposo; e, se não, ainda posso raptá-la e levá-

la para onde eu bem quiser, que o tempo ou a morte há de acabar com

o desgosto de seus pais.

— É como dizem alguns bandidos: “Não peças por favor o que

podes tomar pela força” — disse Sancho —, ou no caso talvez seja

melhor dizer: “Mais vale um mau acordo que um bom pleito”. Digo

isso porque se o senhor rei, sogro de vossa mercê, não quiser lhe

entregar minha senhora, a infanta, não haverá o que fazer, como diz

vossa mercê, senão raptá-la e carregá-la. O problema é que, enquanto

não façam as pazes e se goze pacificamente do reino, o pobre

escudeiro poderá ficar chupando o dedo nisso das mercês. A não ser

que a aia alcoviteira, que deverá ser sua mulher, fuja com a infanta, e

ele viva com ela sua desventura, até que o céu ordene outra coisa;

porque, parece-me, seu senhor poderá dá-la logo por legítima esposa.

— Isso não há quem impeça — disse dom Quixote.

— Pois então — respondeu Sancho — só temos de nos encomendar a

Deus e deixar a sorte correr por onde Ele determinar.

— Que Deus faça como eu desejo e tu, Sancho, necessitas —

respondeu dom Quixote. — E ruim seja quem ruim se julga.

— Seja como Deus quiser — disse Sancho —, pois sou cristão-velho,

e para ser conde isto me basta.

— E até sobra — disse dom Quixote. — E, mesmo que não fosses,

não fazia mal porque, sendo eu o rei, posso te dar nobreza sem que a

compres nem me sirvas em nada. Olha, fazendo-te conde, podes te dar

por cavaleiro, digam o que disserem; pois juro que vão te tratar por

senhoria, por mais que resmunguem.

— Ora se eu não estaria à altura do tiltu! — disse Sancho.

— Deves dizer título, não tiltu — disse seu amo.

— Isso, então — respondeu Sancho Pança. — Digo que eu o saberia

portar porque, graças a Deus, por um tempo fui andador de uma

confraria, e me assentava tão bem o uniforme que todos diziam que eu

tinha presença para ser administrador da própria confraria. Imagine o que será quando eu botar nas costas um manto de duque forrado de

arminho ou me vestir de ouro e pérolas, como um conde estrangeiro?

Acho que vai ter gente que fará cem léguas só para me ver.

— Ficarás muito bem — disse dom Quixote —, mas será preciso se

barbear mais seguido, porque, tendo as barbas assim cerradas, escuras

e descuidadas, sem ver navalha no mínimo de dois em dois dias, à

distância de um tiro de escopeta se verá o que és.

— O que posso fazer, senão contratar um barbeiro e mantê-lo

assalariado em casa? — disse Sancho. — Aí, se precisar, farei com que

ande atrás de mim, como cavalariço dos grandes.

— Mas como sabes que os grandes andam com os cavalariços atrás?

— perguntou dom Quixote.

— Já lhe conto — respondeu Sancho. — Há anos estive um mês na

corte e ali vi passeando um senhor muito pequeno, que diziam que era

muito grande: um homem o seguia a cavalo por tudo quanto era lado,

até parecia o rabo dele. Perguntei por que aquele homem não se

juntava com o outro, só andava atrás, e me responderam que era seu

cavalariço e que era costume dos grandes levar os ditos atrás. Foi

então que eu soube tão bem sabido que nunca mais me esqueci.

— Tens razão — disse dom Quixote. — Assim sendo, podes levar

teu barbeiro, pois os costumes não surgiram todos juntos nem foram

inventados de uma vez só, e bem podes ser tu o primeiro conde que

leva seu barbeiro atrás de si. Além disso, fazer a barba é uma tarefa de

mais confiança que encilhar um cavalo.

— Deixe por minha conta isso do barbeiro — disse Sancho —, e

vossa mercê trate de se tornar rei e me fazer conde.

— Assim será — respondeu dom Quixote.

E, levantando os olhos, viu o que se dirá no próximo capítulo.

 

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