Dom Quixote

Miguel de Cervantes · Capítulo 12 de 137

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Dom Quixote

Capítulo IV

do que aconteceu ao nosso cavaleiro

quando saiu da estalagem

Devia ser a hora da alvorada quando dom Quixote saiu da estalagem,

tão contente e tão garboso, num tremendo alvoroço por já se ver

armado cavaleiro, que sua alegria arrebentava até pelas cilhas do

cavalo. Mas, vindo a sua memória os conselhos do hospedeiro sobre

as coisas que devia levar consigo, em especial dinheiro e camisas,

resolveu voltar para casa, abastecer-se de tudo e arranjar um

escudeiro, calculando recrutar um camponês vizinho, que era pobre e

com filhos, porém perfeito para o ofício escudeiril da cavalaria. Com

esse pensamento, guiou Rocinante para sua aldeia, e o bicho,

pressentindo sua terra, começou a andar com tanta gana que nem

parecia tocar as patas no chão.

Não havia andado muito quando lhe pareceu que de sua direita, de

dentro de um mato, saíam uns gemidos delicados, como de pessoa que

se queixava. Mal os ouviu, disse:

— Dou graças ao céu pela mercê que me concede, pois tão cedo me

dá oportunidade para que eu possa cumprir com o que devo a minha

profissão e possa colher o fruto de meus bons desejos. Esses gemidos,

sem dúvida, são de algum desamparado ou desamparada que necessita

de meu favor e ajuda.

E, virando as rédeas, encaminhou Rocinante para o lugar de onde

pareciam vir os gemidos. Poucos passos depois de ter entrado no

mato, viu uma égua amarrada a uma azinheira e, amarrado em outra,

um rapaz por volta dos quinze anos, nu da cintura para cima. Era ele

quem gemia, e não sem causa, porque um camponês de bom tamanho

o surrava com um cinto, acompanhando cada lambada com uma repreensão e conselho. Dizia:

— Boca fechada e olho vivo!

E o rapaz respondia:

— Não farei de novo, meu senhor! Pelo amor de Deus, não farei de

novo! Eu prometo daqui por diante ter mais cuidado com o rebanho.

Dom Quixote, vendo o que se passava, disse com voz indignada:

— Descortês cavaleiro, não fica bem espancar quem não pode se

defender; montai vosso cavalo e empunhai vossa lança — realmente

havia uma lança escorada na azinheira onde a égua estava presa —,

que eu vos farei saber que é coisa de covarde o que estais fazendo.

O camponês, que viu aquela figura de armadura brandindo a lança

diante de seu rosto, deu-se por morto e respondeu com palavras

reverentes:

— Senhor cavaleiro, este rapaz que estou castigando é meu criado,

cuida de um rebanho de ovelhas que tenho por estas bandas. Mas é

tão descuidado que todo dia me falta uma; e porque castigo sua falta

de cuidado, ou velhacaria, diz que o faço por avarento, para não lhe

pagar o salário que devo. Por Deus, e por minha alma, ele mente.

— “Mente”1 em minha presença, vilão desgraçado? — disse dom

Quixote. — Pelo sol que nos ilumina que estou para trespassar-vos de

fora a fora com esta lança. Pagai-lhe logo sem mais conversa; se não,

pelo Deus que nos guia, eu vos extermino e aniquilo agora mesmo.

Desatai-o logo.

O camponês baixou a cabeça e, sem responder uma palavra, desatou

seu criado, a quem dom Quixote perguntou quanto seu amo devia. Ele

disse que nove meses, a sete reais por mês. Dom Quixote fez a conta,

viu que somava setenta e três reais e disse então ao camponês que os

desembolsasse no mesmo instante, se não quisesse morrer. Medroso, o

camponês respondeu que, pela situação em que se encontrava e pelo

juramento que fizera — mas ainda não havia jurado nada —, não

eram tantos, porque teria de descontar três pares de sapatos que lhe

dera e um real por duas sangrias que lhe haviam feito quando esteve

doente.

— Está tudo muito bem — respondeu dom Quixote —, mas fiquem

os sapatos e as sangrias pelas sovas que sem culpa lhe haveis dado: se

ele arrebentou o couro dos sapatos que pagastes, vós arrebentastes o

de seu corpo; e, se o barbeiro lhe tirou sangue quando esteve doente,

vós o tiraste estando são. De modo que, por esse lado, não vos deve

nada.

— O problema, senhor cavaleiro, é que não tenho dinheiro aqui. Se

Andrés vier comigo a minha casa, pagarei um real em cima do outro.

— Eu, ir com ele? — disse o rapaz. — De jeito nenhum! Não,

senhor, nem em pensamento, porque, ficando sozinho comigo, vai me

esfolar como a um são Bartolomeu.

— Não fará isso — respondeu dom Quixote. — Basta que eu mande

para que me obedeça; e, desde que ele me jure pela lei da cavalaria que

recebeu, eu o deixarei livre e garantirei o pagamento.

— Senhor, olhe vossa mercê o que diz — disse o rapaz. — Meu amo

não é cavaleiro nem recebeu ordem de cavalaria nenhuma; é Juan

Papudo, o rico, morador de Quintanar.

— Isso pouco importa — respondeu dom Quixote —, porque entre

os fanfarrões também pode haver cavaleiros, sem falar que cada um é

filho de suas obras.

— Isso é verdade — disse Andrés —, mas de que obras meu amo é

filho, se me nega meu salário, meu suor e trabalho?

— Não nego, caro Andrés — respondeu o camponês. — Dai-me o

prazer de vir comigo que eu juro, por todas as ordens de cavalaria que

há no mundo, de vos pagar, como já disse, um real sobre o outro, benzidos ainda por cima.

— Das benzeduras vos dispenso — disse dom Quixote. — Dai a ele

os reais apenas, que com isso me contento, e não falteis com o que

acabais de jurar, porque senão vos juro, pelo mesmo juramento, que

voltarei para castigar-vos e hei de vos achar, mesmo que vos escondais

melhor que uma lagartixa. E, se quereis saber quem vos ordena isso,

para ficardes deveras obrigado a obedecer, sabei que eu sou o valoroso

dom Quixote de la Mancha, o reparador de afrontas e injustiças. Ficai

com Deus e não afasteis do pensamento o prometido e jurado, sob

pena da pena pronunciada.

E, dizendo isso, esporeou Rocinante e num instante se afastou deles.

O camponês seguiu-o com os olhos e, quando o viu sair do mato e que

já não aparecia, se virou para o criado Andrés e disse:

— Vinde cá, meu filho, que desejo pagar o que vos devo, como

aquele reparador de afrontas me ordenou.

— Isso eu juro também — disse Andrés —, e como andará certo

vossa mercê em obedecer às ordens daquele bom cavaleiro, que mil

anos viva. Como é valente e bom juiz (que Deus o guarde), se vossa

mercê não me pagar, que ele volte e execute o que disse!

— Eu também juro — disse o camponês. — Mas, como vos quero

muito, desejo aumentar a dívida, para aumentar o pagamento.

E, agarrando-o pelo braço, voltou a amarrá-lo na azinheira, onde o

surrou tanto que o deixou meio morto.

— Chamai agora, senhor Andrés, pelo reparador de afrontas — disse

o camponês —, e vereis como não repara esta. Na verdade, acho que

ainda não acabei de cometê-la, porque tenho ganas de esfolar-vos

vivo, como temíeis.

Por fim, desatou-o e lhe deu licença para ir procurar seu juiz, para

que executasse a sentença pronunciada. Andrés partiu um tanto

desanimado, mas jurou procurar o valente dom Quixote de la Mancha

e lhe contar tintim por tintim o que havia acontecido, e que seria pago

com juros. De qualquer modo ele se foi chorando e seu amo ficou

rindo.

E foi dessa maneira que o valente dom Quixote reparou a afronta.

Contentíssimo com o que acontecera, crente de que havia dado um

grande e feliz começo a sua cavalaria andante, muito satisfeito consigo mesmo, ele ia para sua aldeia, dizendo a meia-voz:

— Bem podes te chamar feliz acima de quantas hoje vivem sobre a

terra, oh, Dulcineia del Toboso, a mais bela entre as belas! Pois te

coube a sorte de ter cativo e submisso, a tua vontade e desejo, tão

valente e tão célebre cavaleiro como é e será dom Quixote de la

Mancha, que, como todo mundo sabe, ontem recebeu a ordem de

cavalaria e hoje desfez a maior injúria e afronta que a injustiça formou

e a crueldade cometeu: hoje tirou o chicote da mão daquele inimigo

impiedoso que surrava um menino delicado sem razão alguma.

Nisso, chegou a uma estrada que se dividia em quatro, e logo lhe

vieram à imaginação as encruzilhadas onde os cavaleiros andantes

ficam pensando que rumo tomarão. Para imitá-los, esteve quieto um

momento e, depois de haver matutado muito, soltou a rédea de

Rocinante, entregando sua vontade à do pangaré, que seguiu seu

primeiro propósito: ir direto para a estrebaria. E, tendo andado umas

duas milhas, dom Quixote avistou um grande tropel de gente, que,

como se soube depois, era de uns mercadores de Toledo que iam

comprar seda em Múrcia. Eram seis e vinham com seus guarda-sóis,

com quatro criados a cavalo e três a pé, puxando as mulas. Mal os enxergou, dom Quixote imaginou-se em nova aventura e, como

imitava em tudo quanto era possível os desafios lidos nos livros, achou

que a ocasião se apresentava sob medida para um que pensava em

fazer. E assim, com galante sobriedade e intrepidez, firmou-se bem nos

estribos, apertou a lança, chegou a adarga ao peito e, parado no meio

da estrada, ficou à espera de que se aproximassem aqueles cavaleiros

andantes, que por isso os tinha e julgava. Quando eles chegaram a

uma distância que puderam ser vistos e ouvidos, levantou a voz e com

um gesto arrogante disse:

— Detenha-se o mundo todo, se o mundo todo não confessar que

não há no mundo todo donzela mais formosa que a imperatriz da

Mancha, a sem-par Dulcineia del Toboso.

Os mercadores pararam ao som dessas palavras, e ao ver a estranha

figura que as dizia. E, pela figura e pelas palavras, logo se deram conta

da loucura de seu dono, mas quiseram ver com calma no que dava

aquela confissão que lhes pedia. Um deles, que era um tanto malicioso

e muito, muito sagaz, disse:

— Senhor cavaleiro, não conhecemos essa boa senhora de que falais;

mostrai-a para nós, que, se ela for tão formosa como dizeis, de bom

grado e sem coação alguma confessaremos a verdade que nos é pedida

por vós.

— Se eu a mostrasse — respondeu dom Quixote —, que faríeis vós

confessando uma verdade tão notória? O que importa é que sem vê-la

haveis de crer, confessar, afirmar, jurar e defender; senão, travareis

combate comigo, gente descomunal e soberba. Então vinde um por um

como pede a ordem da cavalaria, ou todos juntos, como é uso e

costume dos de vossa laia. Aqui vos aguardo e espero, confiante em

que tenho razão.

— Senhor cavaleiro — respondeu o mercador —, suplico a vossa

mercê, em nome de todos estes príncipes aqui reunidos, que, para não

sobrecarregarmos nossas consciências confessando uma coisa por nós

jamais vista nem ouvida, sendo além do mais em prejuízo das

imperatrizes e rainhas da Alcarria e da Estremadura, nos mostre

algum retrato dessa senhora, mesmo que seja do tamanho de um grão

de trigo, pois pelo fio se desenrola o novelo. Com isto ficaremos

satisfeitos e seguros, e vossa mercê contente e desobrigado. E penso até que já nos sentimos tão favoráveis a ela que, mesmo que seu

retrato nos mostrar que tem um olho torto e que do outro verte zarcão

e enxofre, para comprazer vossa mercê diremos tudo o que quiserdes.

— Não verte nada, canalha infame! — respondeu dom Quixote,

inflamado de raiva. — Não verte isso que dizeis, mas âmbar e almíscar

entre algodões; e não é torta nem corcunda, e sim mais reta que um

fuso de Guadarrama. Mas vós pagareis a grande blasfêmia que

proferistes contra tamanha beleza como é a de minha senhora!

Dizendo isso, arremeteu contra o que tinha falado com a lança baixa

e com tanta fúria e exaltação que, se a boa sorte não fizesse Rocinante

tropeçar pela metade do caminho, passaria mal o mercador atrevido.

Rocinante caiu, e seu dono foi rolando um bom pedaço pelo campo.

Quis se levantar, mas nunca que pôde, tamanho embaraço lhe

causavam a lança, a adarga, as esporas e o elmo, sem falar no peso da

antiga armadura. E, enquanto lutava para se levantar sem conseguir,

dizia:

— Não fujais, gente covarde! Olhai, gente ruim, que aqui estou caído não por minha culpa, mas de meu cavalo.

Um dos condutores de mulas, que não devia ser muito bem-

intencionado, ouvindo do pobre caído tantas arrogâncias, não

aguentou sem lhe dar a resposta nas costelas. Aproximando-se dele,

pegou a lança e, depois de tê-la feito em pedaços, com um deles

começou a dar em nosso dom Quixote tantas bordoadas que, apesar

da armadura, deixou-o feito bagaço. Seus amos gritavam que não

batesse assim nele e que o deixasse, mas o rapaz estava picado e não

quis abandonar o jogo até apostar todo o resto de sua raiva; e,

pegando os demais pedaços da lança, acabou de desfazê-los sobre o

miserável fidalgo, que, sob todo aquele temporal de pancadas, não

fechava a boca, ameaçando o céu, a terra e aqueles bandidos, pois isso

lhe pareciam.

O rapaz se cansou, e os mercadores seguiram seu caminho, levando

por ele o que contar do pobre espancado, que ao se ver sozinho tentou

se levantar de novo — mas, se não conseguira quando estava são e

salvo, como o faria moído e quase desfeito? E ainda se dava por feliz,

parecendo-lhe que aquela era desgraça própria de cavaleiro andante, e atribuiu-a toda ao tropeço de seu cavalo. Não era possível se levantar,

porque tinha todo o corpo ferido.

 

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