Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 9 de 161

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Poesias Completas

Elegia

Essa pendula gelada

Que chamavas coração,

Eram bem fracos liames

Para que a alma enamorada

Me conseguissem prender;

Foram baldados tentames,

Saiu contra ti o azar,

E embora pouca, perdeste

A gloria de me arrastar

Ao teu carro... Vãs chimeras!

Para eu amar-te devias

Outra ser e não como eras...

 

ELEGIA

A bondade choremos innoccente

Cortada em flôr que, pela mão da morte,

Nos foi arrebatada d'entre a gente.

CAMÕES.

Se, como outr'ora, nas florestas virgens,

Nos fosse dado—o esquife que te

encerra

Erguer a um galho de arvore frondosa,

Certo, não tinhas um melhor jazigo

Do que alli, ao ar livre, entre os perfumes Da florente estação, imagem viva

De teus cortados dias, e mais perto

Do clarão das estrellas.

Sobre teus pobres e adorados restos,

Piedosa a noite, alli derramaria

Do seus negros cabellos puro orvalho;

Á beira do teu ultimo jazigo

Os alados cantores da floresta

Iriam sempre modular seus cantos;

Nem letra, nem lavor de emblema

humano,

Relembraria a mocidade morta;

Bastava só que ao coração materno,

Ao do esposo, ao dos teus, ao dos

amigos,

Um aperto, uma dôr, um pranto occulto,

Dissesse:—Dorme aqui, perto dos anjos, A cinza de quem foi gentil transumpto

De virtudes e graças.

Mal havia transposto da existencia.

Os dourados umbraes; a vida agora

Sorria-lhe toucada dessas flôres

Que o amor, que o talento e a mocidade

Á uma repartiam.

Tudo lhe era presagio alegre e doce;

Uma nuvem sequer não sombreava,

Em sua fronte, o iris da esperança;

Era, emfim, entre os seus a copia viva

Dessa ventura que os mortaes almejam,

E que raro a fortuna, avessa ao homem,

Deixa gozar na terra.

Mas eis que o anjo pallido da morte

A presentiu feliz e bella e pura,

E, abandonando a região do olvido,

Desceu á terra, e sob a aza negra

A fronte lhe escondeu; o fragil corpo

Não pôde resistir; a noite eterna

Veio fechar seus olhos;

Emquanto a alma abrindo

As azas rutilantes pelo espaço,

Foi engolfar-se em luz, perpetuamente,

No seio do infinito;

Tal a assustada pomba, que na arvore

O ninho fabricou,—se a mão do homem

Ou a impulsão do vento um dia abate

O recatado asylo,—abrindo o vôo,

Deixa os inuteis restos

E, atravessando airosa os leves ares,

Vai buscar n'outra parte outra guarida.

Hoje, do que ora inda lembrança resta,

E que lembrança! Os olhos fatigados

Parecem ver passar a sombra della;

O attento ouvido inda lhe escuta os

passos;

E as teclas do piano, em que seus dedos Tanta harmonia despertavam antes,

Como que soltam essas doces notas

Que outr'ora ao seu contacto

respondiam.

Ah! pezava-lhe este ar da terra impura,

Faltava-lhe esse alento de outra esphera, Onde, noiva dos anjos, a esperavam

As palmas da virtude.

Mas, quando assim a flôr da mocidade

Toda se esfolha sobre o chão de morte,

Senhor, em que firmar a segurança

Das venturas da terra? Tudo morre;

Á sentença fatal nada se esquiva,

O que é fructo e o que é flôr. O homem

cego

Cuida haver levantado em chão de

bronze

Um edificio resistente aos tempos,

Mas lá vem dia, em que, a um leve

sopro,

O castello se abate,