Poesias Completas
Visio
Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flôr
cheirosa,
Que vales tu, desillusão dos homens?
Tu que pódes, ó tempo.
A alma triste do poeta sobrenada
Á enchente das angustias,
E, affrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcyone divina.
Musa consoladora,
Quando da minha fronte de mancebo
A ultima illusão cair, bem como
Folha amarella e secca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me,—e haverá minha alma
afflicta,
Em vez de algumas illusões que teve,
A paz, o ultimo bem, ultimo e puro!
VISIO
Eras pallida. E os cabellos,
Aereos, soltos novellos,
Sobre as espaduas as cahiam...
Os olhos meio-cerrados
De volupia e de ternura
Entre lagrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiam...
Depois, naquelle delirio,
Suave, doce martyrio
De pouquissimos instantes,
Os teus labios sequiosos,
Frios, tremulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...
Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquelle sonho desperto,
Olhei... silencio de morte
Respirava a natureza—
Era a terra, era o deserto,
Fôra-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.
Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira:
Tu e o teu olhar ardente,
Labios tremulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e vehemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a phantasia doente.
E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquelle sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indifferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a visão do passado.