Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 3 de 161

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Poesias Completas

Visio

Ante esta voz que as dores adormece,

E muda o agudo espinho em flôr

cheirosa,

Que vales tu, desillusão dos homens?

Tu que pódes, ó tempo.

A alma triste do poeta sobrenada

Á enchente das angustias,

E, affrontando o rugido da tormenta,

Passa cantando, alcyone divina.

Musa consoladora,

Quando da minha fronte de mancebo

A ultima illusão cair, bem como

Folha amarella e secca

Que ao chão atira a viração do outono,

Ah! no teu seio amigo

Acolhe-me,—e haverá minha alma

afflicta,

Em vez de algumas illusões que teve,

A paz, o ultimo bem, ultimo e puro!

 

VISIO

Eras pallida. E os cabellos,

Aereos, soltos novellos,

Sobre as espaduas as cahiam...

Os olhos meio-cerrados

De volupia e de ternura

Entre lagrimas luziam...

E os braços entrelaçados,

Como cingindo a ventura,

Ao teu seio me cingiam...

Depois, naquelle delirio,

Suave, doce martyrio

De pouquissimos instantes,

Os teus labios sequiosos,

Frios, tremulos, trocavam

Os beijos mais delirantes,

E no supremo dos gozos

Ante os anjos se casavam

Nossas almas palpitantes...

Depois... depois a verdade,

A fria realidade,

A solidão, a tristeza;

Daquelle sonho desperto,

Olhei... silencio de morte

Respirava a natureza—

Era a terra, era o deserto,

Fôra-se o doce transporte,

Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:

Tudo aos meus olhos fugira:

Tu e o teu olhar ardente,

Labios tremulos e frios,

O abraço longo e apertado,

O beijo doce e vehemente;

Restavam meus desvarios,

E o incessante cuidado,

E a phantasia doente.

E agora te vejo. E fria

Tão outra estás da que eu via

Naquelle sonho encantado!

És outra, calma, discreta,

Com o olhar indifferente,

Tão outro do olhar sonhado,

Que a minha alma de poeta

Não vê se a imagem presente

Foi a visão do passado.