Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 5 de 161

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Poesias Completas

Stella

Corre, criança, até quando

Fores forçada a parar!

Então, desflorada a alma

De tanta illusão, perdida

Aquella primeira calma

Do teu somno de pureza;

Esfolhadas, uma a uma,

Essas rosas de belleza

Que se esvaem como a escuma

Que a vaga cospe na praia

E que por si se desfaz;

Então, quando nos teus olhos

Uma lagrima buscares,

E seccos, seccos de febre,

Uma só não encontrares

Das que em meio das angustias

São um consolo e uma paz;

Então, quando o frio spectro

Do abandono e da penuria

Vier aos teus soffrimentos

Juntar a ultima injuria:

E que não vires ao lado

Um rosto, um olhar amigo

Daquelles que são agora

Os desvellados comtigo;

Criança, verás o engano

E o erro dos sonhos teus;

E dirás,—então já tarde,—

Que por taes gozos não vale

Deixar os braços de Deus.

 

STELLA

Já raro e mais escasso

A noite arrasta o manto,

E verte o ultimo pranto

Por todo o vasto espaço.

Tibio clarão já córa

A téla do horizonte,

E já de sobre o monte

Vem debruçar-se a aurora.

Á muda e torva irmã,

Dormida de cansaço,

Lá vem tomar o espaço

A virgem da manhã.

Uma por uma, vão

As pallidas estrellas,

E vão, e vão com ellas

Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio

Inspiras do poeta,

Não vês que a vaga inquieta

Abre-te o humido seio?

Vai. Radioso e ardente,

Em breve o astro do dia,

Rompendo a nevoa fria,

Virá do roxo oriente.

Dos intimos sonhares

Que a noite protegera,

De tanto que eu vertera,

Em lagrimas a pares,

Do amor silencioso,

Mystico, doce, puro,