Poesias Completas
Stella
Corre, criança, até quando
Fores forçada a parar!
Então, desflorada a alma
De tanta illusão, perdida
Aquella primeira calma
Do teu somno de pureza;
Esfolhadas, uma a uma,
Essas rosas de belleza
Que se esvaem como a escuma
Que a vaga cospe na praia
E que por si se desfaz;
Então, quando nos teus olhos
Uma lagrima buscares,
E seccos, seccos de febre,
Uma só não encontrares
Das que em meio das angustias
São um consolo e uma paz;
Então, quando o frio spectro
Do abandono e da penuria
Vier aos teus soffrimentos
Juntar a ultima injuria:
E que não vires ao lado
Um rosto, um olhar amigo
Daquelles que são agora
Os desvellados comtigo;
Criança, verás o engano
E o erro dos sonhos teus;
E dirás,—então já tarde,—
Que por taes gozos não vale
Deixar os braços de Deus.
STELLA
Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o ultimo pranto
Por todo o vasto espaço.
Tibio clarão já córa
A téla do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.
Á muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.
Uma por uma, vão
As pallidas estrellas,
E vão, e vão com ellas
Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o humido seio?
Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a nevoa fria,
Virá do roxo oriente.
Dos intimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera,
Em lagrimas a pares,
Do amor silencioso,
Mystico, doce, puro,