Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 135 de 161

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Perguntas Sem Resposta

tua.

«Tira-me ao peito essas fataes

«Garras que abrindo vão a minha dor já

crua.»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

E o corvo ahi fica; eil-o trepado

No branco marmore lavrado

Da antiga Pallas; ei-lo immutavel,

ferrenho.

Parece, ao ver-lhe o duro cenho,

Um demonio sonhando. A luz cahida

Do lampião sobre a ave aborrecida

No chão espraia a triste sombra; e,

fóra

D'aquelas linhas funeraes

Que fluctuam no chão, a minha alma que

chora

Não sai mais, nunca, nunca mais!

 

PERGUNTAS SEM RESPOSTA

Venus Formosa, Venus fulgurava

No azul do céu da tarde que morria,

Quando á janella os braços encostava

Pallida Maria.

Ao ver o noivo pela rua umbrosa,

Os longos olhos avidos enfia,

E fica de repente côr de rosa

Pallida Maria.

Correndo vinha no cavallo baio,

Que ela de longe apenas distinguia,

Correndo vinha o noivo, como um raio...

Pallida Maria!

Trez dias são, trez dias são apenas,

Antes que chegue o suspirado dia,

Em que elles porão termo ás longas

penas...

Pallida Maria!

De confusa, naquelle sobressalto,

Que a presença do amado lhe trazia,

Olhos accesos levantou ao alto

Pallida Maria.

E foi subindo, foi subindo acima

No azul do céu da tarde que morria,

A ver se achava uma sonora rima...

Pallida Maria!

Rima de amor, ou rima de ventura,

As mesmas são na escala da harmonia.

Pousa os olhos em Venus que fulgura

Pallida Maria.

E o coração, que de prazer lhe bate,

Acha no astro a fraterna melodia

Que á natureza inteira dá rebate...

Pallida Maria.

Maria pensa: «Tambem tu, decerto,

«Esperas ver, neste final do dia,

«Um noivo amado que cavalga perto,

«Pallida Maria?»

Isto dizendo, subito escutava

Um estrepito, um grito e vozeria,

E logo a frente em ancias inclinava

Pallida Maria.

Era o cavallo, rabido, arrastando

Pelas pedras o noivo que morria;

Maria o viu e desmaiou gritando...

Pallida Maria!

Sobem o corpo, vestem-lhe a mortalha,

E a mesma noiva, semi-morta e fria,

Sobre elle as folhas do noivado espalha.

Pallida Maria!

Cruzam-se as mãos, na derradeira prece Muda que o homem para cima envia,

Antes que desça á terra em que

apodrece.

Pallida Maria!

Seis homens tomam do caixão fechado

E vão leval-o á cova que se abria;

Terra e cal e um responso recitado...

Pallida Maria

Quando, trez soes passados, rutilava

A mesma Venus, no morrer do dia,

Tristes olhos ao alto levantava

Pallida Maria.

E murmurou: «Tens a expressão do

goivo,

«Tens a mesma roaz melancholia;

«Certamente perdeste o amor e o noivo,

«Pallida Maria?»

Venus, porém, Venus brilhante e bella,

Que nada ouvia, nada respondia,

Deixa rir ou chorar n'uma janela

Pallida Maria.