Poesias Completas
Capítulo VIII
Era um varão distincto o honrado Freire,
Tabellião da terra, não mettido
Nas arengas do bairro. Pouco amante
Dessa gloria que tantas vezes fulge
Quando os mortaes merecedores della
Jazem no eterno pó, não se illustrara
Com actos de bravura ou de grandeza,
Nem cobiçara as distincções do mando.
Confidente supremo dos que á vida
Dizem o ultimo adeus, só lhe importava
Deitar em amplo in-folio as derradeiras
Vontades do homem, repartir co'a penna
Pingue ou magra fazenda, já cercada
De farejantes corvos,—grato emprego
A um coração philosopho, e remedio
Para matar as illusões no peito.
Certo, ver o usurario, que a riqueza
Obteve á custa dos vintens do proximo,
Comprar a eterna paz na eterna vida
Com biocos do posthumas virtudes;
Em torno delle contemplar anciados
Os que, durante longo-aridos annos,
De lisonjas e afagos o cercaram;
Depois alegres uns, sombrios outros,
Conforme foi silencioso ou grato
O abastado defuncto,—emprego é esse
Pouco adequado a jovens e a poetas.
VIII
Joven não era, nem poeta o Freire;
Tinha oito lustros e fallava em prosa.
Mas que és tu; mocidade? e tu, poesia?
Um auto de baptismo? quatro versos?
Ou brancas azas da sensivel pomba
Que arrulha em peito humano? Unico as
perde