Poesias Completas
Capítulo VI
Aos inimigos peitos. Outra força,
Outra e maior nos move a guerra crua;
São elles, são os padres. Esses mostram Cheia de riso a boca e o mel nas vozes,
Sereno o rosto e as brancas mãos
inermes;
Ordens não trazem de cacique alheio,
Tudo nos levam, tudo. Uma por uma
As filhas de Tupan correm trás elles,
Com ellas os guerreiros, e com todos
A nossa antiga fé. Vem perto o dia
Em que, na imensidão destes desertos,
Ha de ao frio luar das longas noites
O pagé suspirar sozinho e triste
Sem povo nem Tupan!»
VI
Silenciosas
Lagrimas lhe espremeu dos olhos negros Esta lembrança de futuros males.
«—Escuta!» diz Potyra. O indio estende
Imperioso as mãos e assim prossegue:
«—Tambem com elles foste, e foi
comtigo
Da minha vida a flôr! Teu pai mandara,
E com ele mandou Tupan que eu fosse
Teu esposo; vedou-m'o a voz dos padres, Que me perdeu, levando-te consigo.
Não morri; vivi só para esta affronta;
Vivi para esta insolita tristeza
De maldizer teu nome e as graças tuas,
Chorar-te a vida e desejar-te a morte.
Ai! nos rudes combates em que a tribu
Rega de sangue o chão da virgem terra
Ou tinge a flôr do mar, nunca a meu lado Teu nobre vulto esteve. A aldêa toda,
Mais que o teu coração, ficou deserta.
Duas vezes, mimosas rebentaram
Do lacrimoso cajueiro as flôres,
Desde o dia funesto em que deixaste
A cabana paterna. O extremo lumo
Expirou de teu pai nos olhos tristes;
Piedosa chamma consumiu seus restos,
E a aldêa toda o lastimou com prantos.
Não de todo se foi da nossa vida;
Parte ficou para sentir teus males.
Antes que o ultimo sol á melindrosa
Flôr do maracujá cerrasse as folhas
Um sonho tive. Merencorio vulto,
Triste como uma fronte de vencido,
Cor da lua os cabellos venerandos,
O vulto de teu pae: «Guerreiro (disse),
«Corre á vizinha habitação dos brancos,
«Vai, arranca Potyra á lei funesta
«Dos pallidos pagés; Tupan t'o ordena;
«Nos braços traze a fugitiva corça;
«Vincula o teu destino ao dela; é tua.»
«—Impossivel! Que vale um vago sonho? Sou esposa e christã. Impio, respeita
O amor que Deus protege e sanctifica:
Mata-me; a minha vida te pertence:
Ou, se te pesa derramar o sangue
Daquella a quem amaste, e por quem
foste
Lançar entre os christãos a dor e o susto, Faze-me escrava; servirei contente
Emquanto a vida allumiar meus olhos.
Toma, entrego-te o sangue e a liberdade
Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!»
Calou-se, e reclinada sobre a rede,
Potyra murmurava ignota prece,
Olhos fitos no proximo arvoredo,
Olhos não ermos de profunda magua.