Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 79 de 161

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Poesias Completas

Capítulo VI

Aos inimigos peitos. Outra força,

Outra e maior nos move a guerra crua;

São elles, são os padres. Esses mostram Cheia de riso a boca e o mel nas vozes,

Sereno o rosto e as brancas mãos

inermes;

Ordens não trazem de cacique alheio,

Tudo nos levam, tudo. Uma por uma

As filhas de Tupan correm trás elles,

Com ellas os guerreiros, e com todos

A nossa antiga fé. Vem perto o dia

Em que, na imensidão destes desertos,

Ha de ao frio luar das longas noites

O pagé suspirar sozinho e triste

Sem povo nem Tupan!»

VI

Silenciosas

Lagrimas lhe espremeu dos olhos negros Esta lembrança de futuros males.

«—Escuta!» diz Potyra. O indio estende

Imperioso as mãos e assim prossegue:

«—Tambem com elles foste, e foi

comtigo

Da minha vida a flôr! Teu pai mandara,

E com ele mandou Tupan que eu fosse

Teu esposo; vedou-m'o a voz dos padres, Que me perdeu, levando-te consigo.

Não morri; vivi só para esta affronta;

Vivi para esta insolita tristeza

De maldizer teu nome e as graças tuas,

Chorar-te a vida e desejar-te a morte.

Ai! nos rudes combates em que a tribu

Rega de sangue o chão da virgem terra

Ou tinge a flôr do mar, nunca a meu lado Teu nobre vulto esteve. A aldêa toda,

Mais que o teu coração, ficou deserta.

Duas vezes, mimosas rebentaram

Do lacrimoso cajueiro as flôres,

Desde o dia funesto em que deixaste

A cabana paterna. O extremo lumo

Expirou de teu pai nos olhos tristes;

Piedosa chamma consumiu seus restos,

E a aldêa toda o lastimou com prantos.

Não de todo se foi da nossa vida;

Parte ficou para sentir teus males.

Antes que o ultimo sol á melindrosa

Flôr do maracujá cerrasse as folhas

Um sonho tive. Merencorio vulto,

Triste como uma fronte de vencido,

Cor da lua os cabellos venerandos,

O vulto de teu pae: «Guerreiro (disse),

«Corre á vizinha habitação dos brancos,

«Vai, arranca Potyra á lei funesta

«Dos pallidos pagés; Tupan t'o ordena;

«Nos braços traze a fugitiva corça;

«Vincula o teu destino ao dela; é tua.»

«—Impossivel! Que vale um vago sonho? Sou esposa e christã. Impio, respeita

O amor que Deus protege e sanctifica:

Mata-me; a minha vida te pertence:

Ou, se te pesa derramar o sangue

Daquella a quem amaste, e por quem

foste

Lançar entre os christãos a dor e o susto, Faze-me escrava; servirei contente

Emquanto a vida allumiar meus olhos.

Toma, entrego-te o sangue e a liberdade

Ordena ou fere. Tua esposa, nunca!»

Calou-se, e reclinada sobre a rede,

Potyra murmurava ignota prece,

Olhos fitos no proximo arvoredo,

Olhos não ermos de profunda magua.