Poesias Completas
Capítulo XIV
Tremulo, calado,
Anagê crava n'ella os olhos turvos
Dos vapores da festa. As mãos inermes
Lhe pendem; mas o peito—ó misera!—
esse,
Esse de mal contido amor transborda.
Longo instante passou. Alfim: «Deixaste
A festa nossa (o barbaro murmura);
Mysteriosa vieste. Dos guerreiros
Nenhum te viu; mas eu senti teus
passos,
E vim comtigo ao ermo. Ave mesquinha,
Inutil foges; gavião te espreita, [12] Minha te fez Tupan.» Em pé, sorrindo,
Escutava Potyra a voz severa
De Anagê. Breve espaço abria entre
ambos
Alcatifado chão. A fatal hora
Chegara alfim? Não o perscruta a moça;
Tudo acceita das mãos do seu destino,
Tudo, excepto... No proximo arvoredo
Ouve de uma ave o pio melancholico;
Era a voz de seu pae? a voz do esposo? De ambos talvez. No animo da escrava
Restos havia dessa crença antiga
Antiga e sempre nova: o peito humano
Raro de obscuros elos se liberta.
XIV
—«Nasceste para ser senhora e dona:
Anagê não te veda a liberdade;
Quebra tu mesma os nós do captiveiro.
Faze-te esposa. Vem coroar meus dias;
Vem, tudo esqueço. A fronte do
guerreiro,