Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 118 de 161

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Poesias Completas

A Visão de Jaciuca

Perpetuamente fulge.

O engenho, as forças, o saber, a vida

Tu votaste á liberdade nossa,

Que a teus olhos nasceu, e que teus

olhos

Inconcussa deixaram.

Nunca interesse vil manchou teu nome,

Nem abjectas paixões; teu peito illustre

Na viva chamma ardeu que os homens

leva

Ao sacrificio honrado.

Se teus restos ha muito que repousam

No pó commum das gerações extinctas,

A patria livre que legaste aos netos

E te venera e ama,

Nem a face mortal consente á morte

Que te roube, e no bronze redivivo

O austero vulto restitue aos olhos

Das vindouras edades.

«Vede (lhes diz) o cidadão que teve

Larga parte no largo monumento

Da liberdade, a cujo seio os povos

Do Brasil te acolheram.»

«Póde o tempo varrer, um dia, ao longe,

A fabrica robusta; mas os nomes

Dos que o fundaram viverão eternos,

E viverás, Andrada!»

 

A VISÃO DE JACIUCA

Prestes de novo a batalhar, chegavam

Os valentes guerreiros. Mas onde elle,

O duro chefe da indomavel tribu,

O senhor das montanhas? Affirmava

Tatupeba que o vira, antes da aurora,

Erguer-se, e ao longo do visinho rio,

Por algum tempo caminhar calado,

Como se o abafára um pensamento

E lhe impedíra o somno. Vão receio

De batalhar? Oh! não! Quasi na infancia, A torva catadura viu da guerra,

Officio de homens, que aprendeu

brincando

Com seu pae, extremado entre os

guerreiros,

E na bravura e na prudencia; a frecha

Ninguem soubera menear como elle,

Nem mais veloz nem mais certeira

nunca.

A lentos passos caminhando chega,

Enfim, o bravo Jaciuca. Torvo

E mereneorio traz o duro aspecto.

«—Vamos (diz elle) a descansar na taba, Entre festas e dansas; penduremos

As armas nossas, que sobeja ha sido

A gloria, e a doce paz nos chama.»

Leve,

Surdo rumor entre os guerreiros soa;

Vai subindo, é rugido, é já tumulto,

Como o grunhir de tajassús no matto,

Que se approxima e cresce. Jaciuca

Olhos quietos pelo campo estende;

Seu feio rosto é como a rocha dura

Que o raio quebra, mas não lasca o

vento.

Fecha os labios e pensativo espera.

Tatupeba, que a raiva a custo esconde,

Ergue-se então; crava-lhe os fulvos

olhos,

Como a afiada ponta de uma frecha.

Seu porte, entre os irmãos, semelha á

vista

Jequitibá robusto; mais que todos,

Terror inspira e universal respeito.

Ergue-se e fala:—«Longos soes hei visto, Pelejei muitas guerras; a meu lado

Vi cair mais valentes do que folhas

Arranca o furacão; mas nunca o animo

Dos lidadores abalou a palavra

Como essa tua; nunca os braços nossos

Ficar deixaram nos desertos campos

Os ossos não vingados dos guerreiros.

Que genio mau te insinuou tal crime?»

Assim fallando, Tatupeba o solo

Com a planta feriu. Os olhos todos

Pendem da boca do sombrio chefe.

Silencioso Jaciuca ouvira

As fallas do guerreiro; silencioso

E quieto ficou. Após instantes,

A fronte sacudiu, como expellindo

Ideias más que o cerebro lhe turvam,

E a voz lhe rompe do intimo do peito.

«Ó guerreiros (diz elle), aqui deitados

Estivestes a noite, e toda inteira

A dormistes de certo; eu, não distante,

Do rio á margem a trabalhar commigo,

Afiava na mente atra vingança;

Até que os frouxos membros descaíram

Sobre a macia relva, e um tempo largo

Assim fiquei entre vigilia e somno.

Viam meus olhos ondular as aguas,

Mas no alheado pensamento os ecos

Sussurravam da infancia. Um genio

amigo

Aos tempos me levava em que no rosto

De meu pae aprendi, com frio pasmo,

A rara intrepidez, válida herança,

Que tanto custa ao perfido inimigo.»

«De repente, uma luz pallida e triste

Inunda o campo: transparente nevoa

E luminosa aquillo parecia,

Ou baço reflectir da branca lua

Que nuvens cobrem. Livido e curvado,

Içayba a meus olhos apparece.

Vi-o qual era antes da fria morte;

Só a expressão do rosto lhe mudára;

Energicas não tinha, mas serenas

As feições. «Vem comigo!» Assim me

falla

O extincto bravo; e, subito estreitando

Ao peito o corpo do saudoso amigo,

Juntos voámos á região das nuvens.

«Olha!» disse Içayba, e o braço alonga

Para a terra. Ó guerreiros! largo espaço

Era prêsa de alheio senhorio.

Fitei os olhos mais; e pouco a pouco,

Como enche o rio e todo o campo alaga,

Umas gentes extranhas se estendiam

De sertão em sertão. Presas do fogo

As mattas vi, abrigo do guerreiro,

E ao torvo incendio e ás invasões da

morte

Vi as tribus fugir, ceder a custo,

Com lagrimas alguns, todos com sangue, A virgem terra ao barbaro inimigo.

Mau vento os trouxe de remota praia

Aquelles homens novos, jamais vistos

De guerreiro ancião, a quem não coube

Sequer a gloria de morrer contente

E todo reviver na ousada prole.

Era o termo da vida que chegára

Ao povo de Tupan! Grito de morte

Unico enchia os ares,—um suspiro

De tristeza e terror, que reboava

Pelos recessos da floresta antiga

E talvez ameigava o peito ás feras...

Surdos os manitós deixado haviam

Os seus fortes heroes; surdos se foram

Entre os genios folgar da raça nova,

E rir talvez das lagrimas choradas

Pelos olhos das virgens... Oh! se ao

menos

Fora pranto de livres! Era a morte

A menor das angustias; vi curvada

E captiva rojar no po da terra

A fronte do guerreiro, agora altiva,

Livre, como o condor que frecha as

nuvens;

Não kanitar a cinge, mas vergonha,

Melancholico adorno do vencido.

O rosto desviei do extranho quadro.

«Olha!» repete o pallido Içayba.

Olhei de novo, e na saudosa taba,

Que os nossos arcos defender

souberam,

Em vez da sombra do piaga santo,

Que, ao som do maracá, colhia as vozes Do pensamento eterno, e as infundia

No seio do guerreiro, como o fumo

Do petum lhe dobrava impeto e força,

Um vulto descobri de vestes negras,

Nua quasi a cabeça, e cor de espuma

Alguns cabellos raros. Tinha o rosto

Alvo e quieto. Em suas mãos sustinha

Extenso lenho com dois curtos braços.

Ia só; todo o campo era deserto.

Nem um guerreiro! um arco!«—A tribu?»

—«Extinta!»

«A tal palavra, uma pesada sombra

A vista me apagou, e pela face

Senti rolar a lagrima primeira.

O sinistro espectaculo mudára.

Ao dissipar-se a nuvem de meus olhos

Achei-me junto do visinho rio,

Reclinado como antes, e defronte

A pallida figura de Içayba.

«—Torna á taba, me disse o extincto

moço;

«Luas e luas volverão no espaço

«Antes da morte, mas a morte é certa,

«E terrivel será. Nação bem outra,

«Sobre as ruinas da valente raça

«Virá sentar-se, e brilhará na terra

«Gloriosa e rica. Uma chorada lagrima,

«Talvez, talvez, no meio de triunphos

«Ha de ser a tardia, escassa paga

«Da morte nossa. Poupa ao menos essa «Derradeira esperança de guardal-o

«Todo o valor para o supremo dia

«E com honra ceder a extranhas hostes;

«Salva ao menos as ultimas reliquias

«Desta nação vencida; não se rasguem

«Peitos que irmãos ao mesmo sol

nasceram

«E Anhangá fez contrarios... Todos

elles [24]

«Poucos serão para a tremenda luta,

«Mas de sobra hão de ser para choral-