Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 116 de 161

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Capítulo XIX

O rebelde ancião, domado emtanto,

Afracar-se-lhe sente dentro d'alma

O sentimento velho que bebera

Com o leite dos seus; e sem que o labio

Transmitta a ouvidos de homem

O duvidar do coração, murmura

Dentro de si: «Tão poderosa é essa

Ingenua fé, que inda negando o nome

Do seu Deus, confiada acceita a morte,

E guarda puro o sentimento interno

Com que o véu rasgará da eternidade?

Ó Nazareno, ó filho do mysterio,

Se é tua lei a unica da vida

Escreve-m'a no peito; e dá que eu veja

Morrer commigo a filha de meus olhos

E unidos irmos, pela porta immensa

Do teu perdão, á eternidade tua!»

XIX

Mergulhára de todo o sol no occaso,

E a noite, clara, deliciosa e bella,

A cidade cobriu,—não socegada,

Como costuma,—porém leda e viva,

Cheia de luz, de cantos e rumores,

Victoriosa enfim. Elles, calados,

Foram por entre a multidão alegre,

A penetrar o carcere sombrio.

Donde ao mar passarão, que os leve ás

praias

Da ancian Europa. Carregado o rosto,

Ia o pae; ella, não. Serena e meiga,

Entra affouta o caminho da amargura,

A custo soffreando internas maguas

Da amarga vida, breve flôr como ella,

Que inda mais breve a mente lhe