Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 19 de 161

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Poesias Completas

Capítulo VI

Do fundo amor daquele que não ama;

Esta consolação apenas basta;

Então não busques reavivar a chamma.

Guarda estes versos que escrevi

chorando,

Como um alivio á minha soledade,

Como um dever do meu amor; e quando

Houver em ti um éco de saudade,

Beija estes versos que escrevi chorando.

VI

Em vão! Contrario a amor é nulo o

esforço humano;

É nulo o vasto espaço, é nada o vasto

oceano.

Solta do chão, abrindo as asas

luminosas.

Minh'alma se ergue e voa ás regiões

venturosas,

Onde ao teu brando olhar, ó formosa

Corinna,

Reveste a natureza a purpura divina!

Lá, como quando volta a primavera em

flôr,

Tudo sorri de luz, tudo sorri de amor;

Ao influxo celeste e doce da belleza,

Pulsa, canta, irradia e vive a natureza;

Mais languida e mais bella a tarde

pensativa

Desce do monte ao valle; e a viração

lasciva

Vai despertar á noite a melodia extranha

Que falam entre si os olmos da

montanha;

A flôr tem mais perfume e a noite mais

poesia;

O mar tem novos sons e mais viva

ardentia;

A onda enamorada arfa e beija as arêas, Novo sangue circula, ó terra, em tuas

veias!

O esplendor da belleza é raio creador:

Derrama a tudo a luz, derrama a tudo o

amor.

Mas vê. Se o que te cerca é uma festa de

vida,

Eu, tão longe de ti, sinto a dor mal

soffrida

Da saudade que punge e do amor que

lacera,

E palpita e soluça e sangra e desespera. Sinto em torno de mim a muda natureza

Respirando, como eu, a saudade e a

tristeza;

É deste ermo que eu vou, alma

desventurada,

Murmurar junto a ti a estrophe

immaculada

Do amor que não perdeu, co'a ultima

esperança,

Nem o intenso fervor, nem a intensa

lembrança.

Sabes se te eu amei, sabes se te amo

ainda,

Do meu sombrio céu alva estrella

bemvinda!

Como divaga a abelha inquieta e

sequiosa

Do calice do lyrio ao calice da rosa,

Divaguei de alma em alma em busca

deste amor;

Gota de mel divino, era divina a flôr

Que o devia conter. Eras tu.

No delirio

De te amar—olvidei as lutas e o martyrio; Eras tu. Eu só quiz, n'uma ventura calma, Sentir e ver o amor atravez de uma alma; De outras bellezas vans não valeu o

explendor,

A belleza eras tu:—tinhas a alma e o

amor.

Pelicano do amor, dilacerei meu peito,

E com meu proprio sangue os filhos

meus aleito;

Meus filhos: o desejo, a quimera, a

esperança;

Por elles reparti minh'alma. Na provança

Ella não fraqueou, antes surgiu mais

forte;

É que eu puz neste amor, neste ultimo

transporte

Tudo o que vivifica a minha juventude:

O culto da verdade e o culto da virtude,

A venia do passado e a ambição do

futuro,

O que ha de grande e belo, o que ha de

nobre e puro.

Deste profundo amor, doce e amada

Corinna,

Accorda-te a lembrança um éco de

afflicção?

Minh'alma pena e chora á dôr que a

desatina:

Sente tua alma acaso a mesma

commoção?

Em vão! Contrario a amor é nada o

esforço humano,

É nada o vasto espaço, é nulo o vasto

oceano!

Vou, sequioso espirito,

Cobrando novo alento,

N'aza veloz do vento

Correr de mar em mar;

Posso, fugindo ao carcere,

Que á terra me tem prezo,

Em novo ardor aceso,

Voar, voar, voar!

Então, se á hora languida

Da tarde que declina,

Do arbusto da collina

Beijando a folha e a flôr,

A brisa melancolica

Levar-te entre perfumes

Uns timidos queixumes

Echos de magua e dôr;

Então, se o arroio timido

Que passa e que murmura

Á sombra da espessura

Dos verdes salgueiraes.

Mandar-te entre os murmurios

Que solta nos seus giros,

Uns como que suspiros

De amor, uns ternos ais;

Então, se no silencio

Da noite adormecida,

Sentires—mal dormida—