Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 40 de 161

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Poesias Completas

Uma Ode de Anacreonte

No arvoredo sussurra o vendaval do

outono,

Deita as folhas á terra, onde não ha florir E eu contemplo sem pena esse triste

abandono;

Só eu as vi nascer, vejo-as só eu cahir.

Como a escura montanha, esguia e

pavorosa

Faz, quando o sol descamba, o valle

ennoitecer,

A montanha da alma, a tristeza amorosa, Tambem de ignota sombra enche todo o

meu ser.

Transforma o frio inverno a agua em

pedra dura,

Mas torna a pedra em agua um raio de

verão;

Vem, ó sol, vem, assume o throno teu na

altura,

Vê se pódes fundir meu triste coração.

 

UMA ODE DE ANACREONTE

(A MANUEL DE MELLO)

PERSONAGENS

LYSIAS.

CLEON.

MYRTO.

TRES ESCRAVOS.

A scena é em Somos.

Sala de festim em casa de Lysias. A esquerda a mesa do festim; á

direita uma mesa tendo em cima uma lampada apagada, e junto da

lampada um rolo de papyro.

SCENA I

LYSIAS, CLEON, MYRTO.

(Estão no fim de um banquete, os dous homens deitados á maneira

antiga, Myrto sentada entre os dous leitos. Tres escravos.)

LYSIAS.

Melancolica estás, bella Myrto. Bebamos! Aos prazeres!

CLEON.

Eu bebo á memoria de Samos.

Samos vai terminar os seus dourados

dias;

Adeus, terra em que achei consolo ás

agonais

Da minha mocidade; adeus, Samos,

adeus!

MYRTO.

Querem-lhe os deuses mal?

CLEON.

Não; dous olhos, os

teus.

LYSIAS.

Bravo, Cleon!

MYRTO.

Poeta! os meus olhos?

CLEON.

São lumes

Capazes de abrasar até os proprios

numes.

Samos é nova Troya, e tu és outra

Helena,

Quando Lesbos, a mão do Sappho, a ilha

amena,

Não vir a bella Myrto, a alegre cortezã,

Armar-se-ha contra nós.

LYSIAS.

Lesbos é boa irmã.

MYRTO.

Outras bellezas tem, dignas da loura

Venus.

CLEON.

Menos digna de tu.

MYRTO.

Mais do que eu.

LYSIAS.

Muito

menos.

CLEON.

Tens vergonha de ser formosa e

festejada,

Myrto? Venus não que beleza

envergonhada.

Pois que dos immortaes houveste esse

condão

De inspirar quantos vês, inspira-os,

Myrto.

MYRTO.

Não;

São teus olhos, poeta; eu não tenho a

belleza

Que arrasta corações.

CLEON.

Divina singeleza!

LYSIAS (á parte).

Vejo através do manto as galas da

vaidade.

(Alto.)

Vinho, escravo!

(O escravo deita vinho na taça de Lysias.)

Poeta, um brinde á

mocidade.

Trava de lyra e invoca o deus inspirador.

CLEON.

«Feliz em junto de ti, ouve a tua falla,

amor!»

MYRTO.

Versos de Sapho!

CLEON.

Sim.

LYSIAS.

Vês? ó modestia pura.

Elle é na poesia o que és na formosura.

Faz versos de primor e esconde-os ao

profano:

Tem vergonha. Eu não sei se o vicio é

lesbiano...

MYRTO.

Ah! tu és...

CLEON.

Lesbos foi minha patria tambem,

Lesbos, a flôr do Egeo.

MYRTO.

Já não é?

CLEON.

Lesbos tem

Tudo o que me fascina e tudo o que me

mata:

As festas do prazer e os olhos de uma

ingrata.

Fugi da patria e achei, já curado e

tranquillo,

Em Lysias um irmão, em Samos um

asylo.

Bem hajas tu que vens encher-me o

coração!

LYSIAS.

Insaciavel! Não tens em Lysias um

irmão?

MYRTRO.

Volto á patria.

CLEON.

Pois que! tu vais?

MYRTO.

Em poucos

dias...

LYSIAS.

Fazes mal; tens aqui os moços e as

folias,

O gozo, a adoração; que te falta?

MYRTO.

Os meus

ares.

CLEON.

A que vieste então?

MYRTO.

Successos singulares.

Vim por acompanhar Lysicles, mercador

De Naxos; tanto póde a constancia no

amor!

Corrêmos todo o Egeo e a costa ionia;

fomos

Comprar o vinho a Creta e a Tenodos os

pomos.

Ah! como é doce o amor na solidão das

aguas!

Tem-se vida melhor; esquecem-se-lhe as

mágoas.

Zephyro ouviu por certo os osculos

febris,

Os jubilos do affecto, as fallas juvenis;

Ouviu-os, delatou ao deus que o mar

governa

A indiscreta ventura, a effusão doce e

terna.

Para a furia acalmar da sombria deidade, Nave e bens varreu tudo a horrivel

tempestade.

Foi assim que eu perdi a Lysicles, assim

Que eu semi-morta e fria á tua plaga vim.

CLEON.

Ó coitada!

LYSIAS.

O infortunio os animos

apura;

As feridas que faz o mesmo Amor as

cura;

Brandem armas iguaes Achilles e

Cupido.

Queres ver n'outro amor o teu amor

perdido?

Samos o tem de sobra.

CLEON.

Eu, Myrto, eu sei

amar;

Não fio o coração da inconstancia do

mar.

Não tenho galeões rompendo o seio a

Thetys,

Estrada tanta vez ao torvo e obscuro

Lethes.

Aqui me tens; sou teu; escreve a minha

sorte;

Pódes doar-me a vida ou decretar-me a

morte.

MYRTO.

Mas, se eu volto...

CLEON.

Pois bem! aonde quer

que te vás

Irei comtigo; a deusa indomita e fallaz

Ser-me-ha hospede amiga; ao pé de ti a

escura

Noite parece aurora, e é berço a

sepultura.

MYRTO.

Quando falla o dever, a vontade

obedece;

Eu devo ir só; tu fica, ama-me um pouco

e esquece.

LYSIAS.

Tens razão, bella Myrto; escuta o teu

dever.

CLEON.

Ai! é facil amar, difficil esquecer.

LYSIAS (a Myrto).

Queres pôr termo á festa? Um brinde a

Venus, filha

Da mar azul, belleza, encanto, maravilha; Nascida para ser perpetuamente amada. A Venus!

(Depois do brinde os escravos trazem os vasos com agua

perfumada em que os convivas lavaram as mãos; os escravos saem

levando os restos do banquete. Levantam-se todos.)

Queres tu, mimosa naufragada,

Ouvir de hermonia serva, em lyra de

marfim,

Uma alegre canção? Preferes o jardim?

O portico talvez?

MYRTO.

Lysias, sou indiscreta;

Quizera antes ouvir a voz do teu poeta.

LYSIAS.

Nume não pede, impõe.

CLEON.

O mando é lisongeiro.

LYSIAS.

Pois começa.

 

SCENA II

OS MESMOS, UM ESCRAVO.

ESCRAVO.

Procura a Myrto um mensageiro.

MYRTO.

Um mensageiro! a mim!

LYSIAS.

Mando-o entrar.

ESCRAVO.

Não

quer.

LYSIAS.

Vai, Myrto.

MYRTO (saindo).

Volto já. (Sae o escravo).

 

SCENA III

LYSIAS, CLEON.

CLEON.

(Olhando para o lugar por onde Myrto saiu.)

Oh! deuses! que mulher!

LYSIAS.

Ah! que perola rara!

CLEON.

Onde a encontraste?

LYSIAS.

Achei

-a

Com Parthenis que dava uma esplendida

ceia;

Parthenis, ex-bonita, ex-jovem, ex-da

moda,

Sabes que vê fugir-lhe a enfastiada roda; E, para não perder o grupo adorador,

Fez do templo deserto uma escola de

amor.

Foi ella quem achou a naufraga perdida,

Exposta ao vento e ao mar, quasi a

expirar-lhe a vida.

A belleza pagava o emprego de uma

esmola;

Dentro em pouco era Myrto a flôr de toda

a escola.

CLEON.

Lembrou-te convidal-a então para um

festim?

LYSIAS.

Foi um pouco por ella e um pouco mais

por mim.

CLEON.

Tambem amas?

LYSIAS.

Eu? não. Quis ter á

minha mesa

Venus e o louro Apollo, a poesia e a

belleza.

CLEON.

Oh! a belleza, sim! Viste já tanta graça,

Tão celestes feições?

LYSIAS.

Cuidado! Aquella caça

Zomba dos tiros vãos de ingenuo

caçador!

CLEON.

Incredulo!

LYSIAS.

Eu sou mestre em materia de

amor.

Se tu, attento e calmo, a narração lhe

ouvisses

Conhecêras melhor o engenho d'esta

Ulysses.

Aquelle ardente amor a Lysicles, aquelle

Fundo e intenso pesar que á sua patria a

impelle,

Armas são com que a astuta os animos

seduz.

CLEON.

Oh! não creio.

LYSIAS.

Porque?

CLEON.

Não vês como lhe luz

Tanta expressão sincera em seus olhos

divinos?

LYSIAS.

Sim, tem muita expressão... para illudir

meninos.

CLEON.

Pois tu não crês?

LYSIAS.

Em que? No naufragio? De

certo.

Em Lysicles? Talvez. No amor? é mais

incerto.

Na intenção de voltar a Lesbos? isso

não!

Sabes o que ela quer? Prender um

coração.

CLEON.

Impossivel!

LYSIAS.

Poeta! estás na alegre idade

Em que a sciencia da vida é a

credulidade.

Vês tudo azul e em flôr; eu já me não

illudo.

Pois amar cortezãs! isso demanda

estudo,

Não vai assim, que as tais abelhitas do

amor

Correm de bolsa em bolsa e não de flôr

em flôr.

CLEON.

Mas não as amas tu?

LYSIAS.

De certo... á minha

moda;

Meu grande coração co'os vicios se

acommoda;

Sacrificios de amor não sonha nem

procura;

Não lhes pede illusões, pede-lhes só

ternura.

Não me empenho em achar alma ungida

no céu:

Se é crime este sentir, confesso-me, sou

réu.

Não peço amor ao vinho; irei pedil-o ás

damas?

D'ellas e d'elle exijo apenas estas

chammas

Que ardem sem consumir, na pyra dos

desejos.

Assim é que eu estimo as amphoras e os

beijos.

Lá protestos de amor, eternos e leaes,

Tudo isso é fumo vão. Que queres? Os

mortaes

Somos todos assim.

CLEON.

Ai, os mortaes! dize

antes

Os philosophos máos, ridiculos pedantes, Os que não sabem crer, os fartos já de

amores,

Esses, sim. Os mortaes!

LYSIAS.

Refreia os teus

furores,

Poeta; eu não quizera amargurar-te, e

enfim

Não podia suppôr que a amasse tanto

assim.

Caspité! Vais depressa!

CLEON.

Ai, Lysias, é verdade,

Amo-a como não amo a vida e a

mocidade;

De que modo nasceu esta affeição que

encerra

Todo o meu ser, ignoro. Acaso sabe a

terra

Por que é mais bella ao sol e ás auras

matinaes?

Amores estes são terriveis e fataes.

LYSIAS.

Vês com olhos do céu cousas que são do

mundo;

Acreditas achar esse affecto profundo,

N'estas filhas do mal! Se a todo o transe

queres

Obter a casta flôr dos celicos prazeres,

Deixa a alegre Corintho e todo o luxo

seu;

Outro porto acharás: procura o gyneceo.

Escolhe aquelle amor doce, innocente e

puro,

Que inda não tem passado e vive no

futuro.

Para mim, já t'o disse, o caso é

differente;

Não me importa um nem outro; eu vivo

no presente.

CLEON.

Deu-te amiga Fortuna um grande

cabedal:

Viver, sem illusões, no bem como no mal; Não conhecer o amor que morde, que se

nutre

Do nosso sangue, o amor funesto, o

amor abutre;

Não beber gotta a gotta este brando

veneno

Que requeima e destróe; não ver em mar

sereno

Subitamente erguer-se a voz dos

aquilões.

Afortunado és tu.

LYSIAS.

Lei de compensações!

Sou philosopho mau, ridiculo pedante,

Mas inveja-me a sorte; oh! logica de

amante.

CLEON.

É a do coração.

LYSIAS.

Terrível mestre!

CLEON.

Ensin

a

Dos seres immortaes a transfusão divina!

LYSIAS.

A lição é profunda e escapa ao meu

saber;

Outra escola professo, a escola do

prazer!

CLEON.

Tu não tens coração.

LYSIAS.

Tenho, mas não me

illudo.

É Circe que perdeu o encanto e a

juventude.

CLEON.

Velho Satyro!

LYSIAS.

Justo: um semi-deus

sylvestre.

N'estas cousas do amor nunca tive outro

mestre.

Tu gostas de chorar; eu cá prefiro rir.

Tres artigos da lei: gozar, beber, dormir.

CLEON.

Compras com isso a paz; a mim coube-

me o tedio,

A solidão e a dôr.

LYSIAS.

Queres um bom remedio,

Um filtro da Thessalia, um balsamo

infallivel?

Esquece emprezas vãs, não tentes o

impossivel

Prende o teu coração nos laços de

Hymenêo;

Casa-te; encontrarás o amor no gynecêo. Mas cortezãs! jámais! São Gorgones!

Medusas!

CLEON.

Essas que conheceste e tão severo

accusas

—Pobres moças!—não são o universal

modelo:

De outras sei a quem coube um coração

singelo,

Que preferem a tudo a gloria singular

De conhecer somente a sciencia de

amar;

Capazes de sentir o ardor da intensa

chamma

Que eleva, que resgata a vida que as

infama.

LYSIAS.

Se achares tal milagre, eu mesmo irei

pedir-t'o.

CLEON.

Basta um passo, achal-o-hei.

LYSIAS.

Bravo! chama-se?

CLEON.

Myrto

,

Que póde conquistar até o amor de um

deus!

LYSIAS.

Crês n'isso?

CLEON.

Porque não?

LYSIAS.

Tu és um nescio;

adeus!

 

SCENA IV

CLEON.

Vai, sceptico! tu tens o vicio da riqueza:

Farto, não crês na fome... A minha

singeleza

Faz-te rir: tu não vês o amor que absorve

e mata;

Myrto, vinga-me tu da calumnia

insensata;

Amemo-nos. É ella!

 

SCENA V

CLEON, MYRTO

MYRTO.

Estás triste!

CLEON.

Oh! que

não!

Mas deslumbrado, sim, como se uma

visão...

MYRTO.

A visão vai partir.

CLEON.

Mas muito tarde...

MYRTO.

Brev

e.

CLEON.

Quem te chama?

MYRTO.

O destino. E sabes quem

me escreve?

CLEON.

Tua mãe.

MYRTO.

Já morreu.

CLEON.

Algum antigo amante?

MYRTO.

Lysicles.

CLEON.

Vive?

MYRTO.

Sim. Depois de andar errante

N'uma taboa, á mercê das ondas, quiz o

céu

Que viesse encontral-o um barco do

Pyreu.

Pobre Lysicles! teve em tão cruenta lida

A dôr da minha morte e a dôr da propria

vida.

Em vão interrogava o mar cioso e mudo.

Perdêra, de uma vez, n'uma só noite,

tudo,

A ventura, a esperança, o amor, e perdeu

mais:

Naufragárão com ele os poucos

cabedaes.

Entrou em Samos pobre, inquieto, semi-

morto,

Um barqueiro, que a tempo atravessava

o porto,

Disse-lhe que eu vivia, e contou-lhe a

aventura

Da malfadada Myrto.

CLEON.

É isso, a sorte escura

Voltou-se contra mim; não consente, não

quer

Que eu me farte de amor no amor de

uma mulher.

Vejo em cada paixão o fado que me

opprime;

O amar é já soffrer a pena do meu crime,

Ixion foi mais audaz amando a deusa

augusta;

Transpôz o obscuro lago e soffre a pena

justa,

Mas eu não. Antes de ir ás regiões

infernaes

São as graças commigo Eumenides

fataes!

MYRTO.

Caprichos de poeta! Amor não falta ás

damas;

Damas, tem-las aqui; inspira-lhe essas

chammas.

CLEON.

Impõe-se leis ao mar? O coração é isto;

Ama o que lhe convem; convem amar a

Egistho

Clytemnestra; convem a Cyntia

Endymião;

É caprichoso e livre o mar do coração;

De outras sei que eu houvera em meus

versos cantado;

Não lhes quero... não posso.

MYRTO.

Ai, triste

enamorado!

CLEON.

E tu zombas de mim!

MYRTO.

Eu zombar? Não;

lamento

A tua acerba dôr, o teu fatal tormento.

Não conheço eu tambem esse cruel

penar?

Só dous remedios tens; esquecer,

esperar.

De quanto almeja e quer o amor nem

tudo alcança;

Contenta-se ao nascer co' as auras da

esperança;

Vive da propria mágoa; a propria dôr o

alenta.

CLEON.

Mas, se a vida é tão curta, a agonia é tão

lenta!

MYRTO.

Não sabes esperar? Então cumpre

esquecer.

Escolhe entre um e outro; é preciso

escolher.

CLEON.

O prazer que a fulmina, e a dôr que a

fortalece?

MYRTO.

Tens na ausencia e no tempo os velhos

pais do olvido,

O bem não alcançado é como o bem

perdido,

Pouco a pouco se esvai na mente e

coração;

Põe o mar entre nós... dissipa-se a

illusão.

CLEON.

Impossivel!

MYRTO.

Então espera; algumas vezes

A fortuna transforma em glorias os

reveses.

CLEON.

Myrto, valem bem pouco as glorias já

tardias.

MYRTO.

Um só dia de amor compensa estereis

dias.

CLEON.

Compensará, mas quando? A mocidade

em flôr

Bem cedo morre, e é essa a que convem

a amor.

Vejo cair no occaso o sol da minha vida.

MYRTO.

Cabeça de poeta, exaltada e perdida!

Pensas estar no occaso o sol que mal

desponta?

CLEON.

A clepsydra do amor não conta as horas,

conta

As illusões; velhice é perdêl-as assim;

Breve a noite abrirá seus véus por sobre

mim.

MYRTO.

Não has de envelhecer; as illusões

comtigo

Flôres são que respeita Eolo brando e

amigo.

Guarda-as, talvez um dia, e não tarde, as

colhamos.

CLEON.

Se eu a Lesbos não vou.

MYRTO.

Podem colher-se em

Samos.

CLEON.

Voltas breve?

MYRTO.

Não sei.

CLEON.

Oh! sim, deves voltar!

MYRTO.

Tenho medo.

CLEON.

De quê?

MYRTO.

Tenho medo... do mar.

CLEON.

Teu sepulcro já foi; o medo é justo; fica.

Lesbos é para ti mais formosa e mais

rica.

Mas a patria é o amor; o amor transmuda

os ares.

Muda-se o coração? Mudam-se os

nossos lares.

Da importuna memoria o teu passado

exclue;

Vida nova nos chama, outro céu nos

influe.

Fica; eu disfarçarei com rosas este exilio; A vida é um sonho máu: façamo-la um

idylio.

Cantarei a teus pés a nossa mocidade.

A belleza que impõe, o amor que

persuade,

Venus que faz arder o fogo da paixão,

Teu olhar, doce luz que vem do coração.

Pericles não amou com tanto ardor a

Aspasia,

Nem esse que morreu entre as pompas

da Asia,

A Lais siciliana. Aqui as Horas bellas

Tecerão para ti vivissimas capellas.

Nem morrerás; teu nome em meus

versos ha de ir,

Vencendo o tempo e a morte, aos

seculos porvir.

MYRTO.

Tanto me queres tu!

CLEON.

Imensamente. Anseio

Por sentir, bella Myrto, arfar teu brando

seio,

Bater teu coração, tremer teu labio puro,

Todo viver de ti.

MYRTO.

Confia no futuro.

CLEON.

Tão longe!

MYRTO.

Não, bem perto.

CLEON.

Ah! que dizes?

MYRTO

Adeu

s!

(Passa junto da mesa da direita e vê o rolo de papyro.)

Curiosa que sou!

CLEON.

São versos.

MYRTO.

Versos teus?

(Lysias aparece ao fundo.)

CLEON.

De Anacreonte, o velho, o amavel, o

divino.

MYRTO.

A musa é toda ionia, e o verso é

peregrino.

(Abre o papyro e lê)

«Fez-se Niobe em pedra e Philomena em

passaro. [5]

«Assim

«Folgaria eu tambem me transformasse

Jupiter

«A mim.

«Quisera ser o espelho em que o teu

rosto magico

«Sorri;

«A tunica feliz que sempre se está

proxima

«De ti;

«O banho de crystal que esse teu corpo

candido

«Contém;

«O aroma de teu uso e d'onde effluvios

magicos

«Provêm;

«Depois esse listão que de teu seio

turgido

«Faz dous;

«Depois do teu pescoço o rosicler de

perolas;

«Depois...

«Depois ao ver-te assim, unica e tão sem

emulas

«Qual és,

«Até quisera ser teu calçado, e

pisassem-me

«Teus pés.»

Que magnificos são!

CLEON.

Minha alma assim te

falla.

MYRTO

Attendendo ao poeta eu pensava escutal-

a.

CLEON.

Eco do meu sentir foi o velho amador;

Tais os desejos são do meu profundo

amor.

Sim, eu quizera ser tudo isto—o espelho,

o banho,

O calçado, o collar... Desejo acaso

extranho,

Louca ambição talvez de poeta

exaltado...

MYRTO.

Tanto sentes por mim?

 

SCENA VI

CLEON, MYRTO, LYSIAS

LYSIAS (entrando.)

Amor, nunca sonhado.

Se a musa d'elle és tu!

CLEON.

Lysias!

MYRTO.

Ouviste?

LYSIAS.

Ouvi.

Versos que Anacreonte houvera feito a ti, Se vivesses no tempo em que, pulsando

a lyra,

Estas odes compôz que a velha Grecia

admira.

(A Cleon.)

Quer fallar-te um sujeito, um Clinias, um

colega,

Ex-mercador, como eu.

MYRTO.

Ai, que importuno!

LYSIAS.

Alleg

a

Que não póde esperar, que isto não póde

ser,

Que um processo... A final não n'o pude

entender.

Pode ser que comtigo o homem se

accommode.

Prometeste talvez compor-lhe alguma

ode?

CLEON.

Não. Adeus, bella Myrto; espera-me um

instante.

MYRTO.

Não tardes!

LYSIAS (á parte.)

Indiscreta!

CLEON.

Espera.

LYSIAS (á parte.)

Petulante!

 

SCENA VII

MYRTO, LISIAS.

MYRTO.

Sou curiosa. Quem é Clinias, ex-

mercador?

Amigo d'elle?

LYSIAS.

Mais do que isso; é um

credor.

MYRTO.

Ah!

LYSIAS.

Que bello rapaz! que alma fogosa e

pura,

Bem digna de aspirar-te um hausto de

ventura!

Queira o céu pôr-lhe termo á profunda

agonia,

Surja emfim para elle o sol de um novo

dia.

Merece-o. Mas vê lá se ha destino peior:

Quer o alado Mercurio obstar o alado

Amor.

Com beijos não se paga a pompa do

vestido,

O expetaculo e a mesa; e se o gentil

Cupido

Gosta de ouvir canções, o outro não vai

com ellas;

Vale uma drachma só vinte odezinhas

bellas.

Um poema não compra um simples

borzeguim.

Versos! são bons de ler, mais nada; eu

penso assim.

MYRTO.

Pensas mal! A poesia é sempre um dom

celeste;

Quando o genio o possue quem ha que o

não requeste?

Hermes, com ser o deus dos graves

mercadores,

Tocou lyra tambem.

LYSIAS.

Já sei que estás de

amores.

MYRTO.

Que esperança! Bem vês que eu já não

posso amar.

LYSIAS.

Perdeste o coração?

MYRTO.

Sim; perdi-o no mar.

LYSIAS.

Pesquemol-o; talvez essa perola fina

Venha ornar-me a existencia agourada e

mofina.

MYRTO.

Mofina?

LYSIAS.

Pois então? Enfarão-me estas bellas

Da terra samiana; assaz vivi por elas.

Outras desejo amar, filhas do azul Egeo.

Varia de feições o Amor, como Protheo.

MYRTO.

Seu carater melhor foi sempre o ser

constante.

LYSIAS.

Serei menos fiel, não sou menos amante. Cada belleza em si toda a paixão

resume.

Pouco me importa a flôr; importa-me o

perfume.

MYRTO.

Mas quem quer o perfume afaga um

pouco a flôr;

Nem fere o objecto amado a mão que

implora o amor.

LYSIAS.

Offendo-te com isto? Esquece a minha

ofensa.

MYRTO.

Já esqueci; passou.

LYSIAS.

Quem falla como

pensa

Arrisca-se a perder ou por sobra ou por

mingoa.

Eu confesso o meu mal; não sei tentear a

lingua.

Pois que me perdoaste, escuta-me. Tu

tens

A graça das feições, o summo bem dos

bens;

Moça, trazes na fronte o doce beijo de

Hebe

Como um philtro de amor que, sem

sentir, se bebe,

De teus olhos destilla a eterna juventude; De teus olhos que um deus, por lhes dar

mais virtude,

Fez azues como o céu, profundos como

o mar.

Quem taes dotes reune, ó Myrto, deve

amar.

MYRTO.

Fallas como um poeta, e zombas da

poesia!

LYSIAS.

Eu, poeta? jámais.

MYRTO.

A tua fantasia

Respirou certamente o ar do monte

Hymmeto.

Tem a expressão tão doce!

LYSIAS.

É a expressão do

affecto.

Sou em cousas de Apollo um simples

amador.

A minha grande musa é Venus, mãe do

amor.

No mais não apprendi (os fados meus

adversos

Vedárão-m'o!) a cantar bons e sentidos

versos.

Cleon, esse é que sabe accender tantas

almas,

Conquistar de um só lance os corações e

as palmas.

MYRTO.

Conquistar, oh! que não!

LYSIAS.

Mas agradar?

MYRTO.

Talve

z.

LYSIAS.

Isso mesmo; é já muito. O que o poeta

fez

Fal-o-ei jamais? Contudo, inda tental-o

quero;

Se não me inspira a musa, alma filha de

Homero,

Inspira-me o desejo, a musa que delira,

E o seu canto concerta aos sons da

eterna lyra.

MYRTO.

Tambem desejas ser alguma coisa?

LYSIAS.

Não;

Eu caso o meu amor ás regras da razão. Cleon quizera ser o espelho em que teu

rosto

Sorri; eu, bela Myrto, eu tenho melhor

gosto.

Ser espelho! ser banho! e tunica! tolice!

Esteril ambição! loucura! criancice!

Por Venus! sei melhor o que a mim me

convem.

Homem sisudo e grave outros desejos

tem.

Fiz, a este respeito, aprofundado estudo; Eu não quero ser nada; eu quero dar-te

tudo.

Escolhe o mais perfeito espelho de aço

fino,

A tunica melhor de pano tarentino,

Vasos de oleo, um colar de perolas,—

enfim

Quanto enfeita uma dama aceital-o-has

de mim.

Brincos que vão ornar-te a orelha

graciosa;

Para os dedos o annel de pedra

preciosa;

A tua fronte pede aureo, rico anadema;

Têl-o-has, divina Myrto. É este o meu

poema.

MYRTO.

É lindo!

LYSIAS.

Queres tu, outras estrophes mais?

Dar-t'as-hei quais as teve a celebrada

Lais.

Casa, rico jardim, servas de toda a parte; E estatuas e paineis, e quantas obras

d'arte

Podem servir de ornato ao templo da

belleza,

Tudo haverás de mim. Nem gosto nem

riqueza

Tu ha de faltar, mimosa, e só quero um

penhor.

Quero... quero-te a ti.

MYRTO.

Pois que! já quer a flôr,

Quem desdenhando a flôr, só lhe pede o

perfume?

LYSIAS.

Esqueceste o perdão?

MYRTO.

Ficou-me este

azedume.

LYSIAS.

Venus póde apagal-o.

MYRTO.

Eu sei, creio e não

creio.

LYSIAS.

Hesitar é ceder: agrada-me o receio.

Em assumpto de amor, vontade que

fluctua

Está prestes a entregar-se. Entregas-te?

MYRTO.

Sou

tua!

 

SCENA VIII

LYSIAS, MYRTO, CLEON.

CLEON.

Demorei-me demais?

LYSIAS.

Apenas o bastante

Para que fosse ouvido um coração

amante.

A Lesbiana é minha.

CLEON.

És d'elle, Myrto!

MYRTO.

Sim;

Eu ainda hesitava; ele fallou por mim.

CLEON.

Quantos amores tens, filha do mal?

LYSIAS.

Presinto.

Uma lamentação inutil. «A Corintho

Não vai quem quer,» lá diz aquelle velho

adagio.

Navegavas sem leme; era certo o

naufragio.

Não me viste sulcar as mesmas aguas?

CLEON.

Vi,

Mas contava com ella, e confiava em ti.

Mais duas illusões! Que importa? Inda