Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 85 de 161

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Poesias Completas

Capítulo XII

Ao vencido guerreiro haver a morte

Silenciosa e triste em que se passa

Da curva rede á fria sepultura.

Meigas aves que vão de um clima a outro Abrem placidamente as asas leves,

Não tu, guerreiro, que encaraste a morte, Tu combate! Vencido e vencedores

Derradeiros escarneos se arremessam;

Gritos, injurias, convulsões de raiva,

Vivo clamor accorda os longos ecos

Das penedias proximas. A clava

Do executor girou no ar trez vezes

E de leve caiu na grossa espadua

Do arquejante captivo. Já na boca,

Que o desprezo e o furor n'um riso

entreabrem,

Orla de espuma alveja. Avança, corre,

Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço

A mussurana, cujas pontas tiram

Dois mancebos robustos. Nas cavernas

Do longo peito lhe murmura o odio,

Surdo, como o rumor da terra inquieta,

Pejada de vulcões. Os labios morde,

E, como derradeira injuria, á face

Do executor lhe cospe espuma e sangue. Não vibra o arco mais veloz o tiro,

Nem mais segura no aterrado cervo

Feroz succuriuba os nós enrosca,

Do que a pesada, enorme tagapema

A cabeça de um golpe lhe esmigalha.

Cae fulminada a vitima na terra,

E alegre o povo longamente applaude.

XII

Na voz universal perdeu-se um grito

De piedade e terror: tão fundo entrára

Naquella alma roubada á noite escura

Raio de sol christão! Potyra foge,

Pelos bosques atonita se entranha

E pára á margem de um pequeno rio;

Pousa na relva os tremulos joelhos

E nas mimosas mãos esconde o rosto.

Não de lagrimas era aquelle sitio

Ou só de doces lagrimas choradas

De olhos que amor venceu:—macia

relva,

Leito de sesta a amores fugitivos.

Da verde, rara abobada de folhas

Tepida e doce a luz coava a frouxo

Do sol, que, além das arvores, tranquillo, Metade da jornada ia transpondo.

Longe era ainda a hora melancholica

Em que a geremma cerra a miuda folha,

E o lume azul o pyrilampo accende.

De pé, a um velho tronco descoroado

Da copada ramagem, resto apenas,

Vestigio do tufão, a indiana moça

Languidamente encosta o esbelto corpo.

Neste ameno recesso tudo é triste,

Porque é alegre tudo. Não mui longe

Um desfolhado ipê conserva e guarda

Flôres que lhe ficaram de outro estio,

Como esperança de folhagem nova,

Flôres que a desventura lhe ha negado,

A ella, alma esquecida nesta terra,

Que nada espera da estação vindoura.

Olha, e de inveja o coração lhe estalla.

Pelo tronco das arvores se enroscam

Parasitas, esposas do arvoredo,

Mais fieis não, mais venturosas que ella.

Morrer? Descanso fôra ás maguas suas,

Mais que descanço, perduravel gozo,

Que a nossa eterna patria aos infelizes