Poesias Completas
Capítulo XII
Ao vencido guerreiro haver a morte
Silenciosa e triste em que se passa
Da curva rede á fria sepultura.
Meigas aves que vão de um clima a outro Abrem placidamente as asas leves,
Não tu, guerreiro, que encaraste a morte, Tu combate! Vencido e vencedores
Derradeiros escarneos se arremessam;
Gritos, injurias, convulsões de raiva,
Vivo clamor accorda os longos ecos
Das penedias proximas. A clava
Do executor girou no ar trez vezes
E de leve caiu na grossa espadua
Do arquejante captivo. Já na boca,
Que o desprezo e o furor n'um riso
entreabrem,
Orla de espuma alveja. Avança, corre,
Estaca... Não lhe dá mais amplo espaço
A mussurana, cujas pontas tiram
Dois mancebos robustos. Nas cavernas
Do longo peito lhe murmura o odio,
Surdo, como o rumor da terra inquieta,
Pejada de vulcões. Os labios morde,
E, como derradeira injuria, á face
Do executor lhe cospe espuma e sangue. Não vibra o arco mais veloz o tiro,
Nem mais segura no aterrado cervo
Feroz succuriuba os nós enrosca,
Do que a pesada, enorme tagapema
A cabeça de um golpe lhe esmigalha.
Cae fulminada a vitima na terra,
E alegre o povo longamente applaude.
XII
Na voz universal perdeu-se um grito
De piedade e terror: tão fundo entrára
Naquella alma roubada á noite escura
Raio de sol christão! Potyra foge,
Pelos bosques atonita se entranha
E pára á margem de um pequeno rio;
Pousa na relva os tremulos joelhos
E nas mimosas mãos esconde o rosto.
Não de lagrimas era aquelle sitio
Ou só de doces lagrimas choradas
De olhos que amor venceu:—macia
relva,
Leito de sesta a amores fugitivos.
Da verde, rara abobada de folhas
Tepida e doce a luz coava a frouxo
Do sol, que, além das arvores, tranquillo, Metade da jornada ia transpondo.
Longe era ainda a hora melancholica
Em que a geremma cerra a miuda folha,
E o lume azul o pyrilampo accende.
De pé, a um velho tronco descoroado
Da copada ramagem, resto apenas,
Vestigio do tufão, a indiana moça
Languidamente encosta o esbelto corpo.
Neste ameno recesso tudo é triste,
Porque é alegre tudo. Não mui longe
Um desfolhado ipê conserva e guarda
Flôres que lhe ficaram de outro estio,
Como esperança de folhagem nova,
Flôres que a desventura lhe ha negado,
A ella, alma esquecida nesta terra,
Que nada espera da estação vindoura.
Olha, e de inveja o coração lhe estalla.
Pelo tronco das arvores se enroscam
Parasitas, esposas do arvoredo,
Mais fieis não, mais venturosas que ella.
Morrer? Descanso fôra ás maguas suas,
Mais que descanço, perduravel gozo,
Que a nossa eterna patria aos infelizes