Poesias Completas
Capítulo LXI
E o sol, que despe a veste purpurina,
Para dormir no eterno leito amargo.
Surge das aguas pallida e divina,
Essa que tem por deleitoso encargo
Velar amantes, proteger amores,
Lua, musa dos candidos palores.
LXI
Respira Heitor; e livre. O casamento?
Foi sonho que passou, fugaz idéa
Que não pôde durar mais que um
momento.
Outra ambição a alma lhe incendeia.
Dissipada a illusão, o pensamento
Novo quadro a seus olhos patenteia,
Não lhe basta aos desejos de sua alma
A enseada da vida estreita e calma.
LXII
Aspira ao largo; pulsam-lhe no peito
Uns impetos de vida; outro horizonte,
Tumidas vagas, temporal desfeito,
Quer com elles lutar fronte por fronte.
Deixa o tranquillo amor, casto e perfeito,
Pelos brodios de Venus de Amathonte;
A existencia entre flôres esquecida
Pelos rumores de mais ampla vida.
LXIII
Nas mãos da noite desmaiára a tarde;
Descem ao valle as sombras
vergonhosas;
Noite que o céu, por mofa ou por alarde,