Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 123 de 161

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Poesias Completas

Sabina

Aos valentes guerreiros, que eu vou

A buscal-os na mata sombria,

Por trazel-os ao moço prudente,

Que venceu tanta guerra valente,

E estes olhos consigo levou.»

E um ancião, que a saudara ja muitos,

Muitos dias: «Jacy, doce amada,

Dá que seja mais longa a jornada,

Dá que eu possa saudar-te o nascer,

Quando o filho do filho, que hei visto

Triumphar de inimigo execrando,

Possa as pontas de um arco dobrando

Contra os arcos contrarios vencer.»

E elles riam os fortes guerreiros,

E as donzelas e esposas cantavam,

E eram risos que d'alma brotavam,

E eram cantos de paz e de amor.

Rude peito criado nas brenhas,

—Rude embora,—terreno é propicio;

Que onde o germen lançou beneficio

Brota, enfolha, verdeja, abre em flôr.

 

SABINA

Sabina era mucama da fazenda;

Vinte annos tinha; e na provincia toda

Não havia mestiça mais á moda,

Com suas roupas de cambraia e renda.

Captiva, não entrava na senzala,

Nem tinha mãos para trabalho rude;

Desbrochava-lhe a sua juventude

Entre carinhos e affeições de sala.

Era cria da casa. A sinhá moça,

Que com ella brincou sendo menina,

Sobre todas amava esta Sabina,

Com esse ingenuo e puro amor da roça.

Dizem que á noite, a suspirar na cama,

Pensa n'ella o feitor; dizem que um dia,

Um hospede que alli passado havia,

Poz um cordão no collo da mucama.

Mas que vale uma joia no pescoço?

Não pôde haver o coração da bella.

Se alguem lhe acende os olhos de

gazella,

É pessoa maior: é o senhor moço.

Ora, Octavio cursava a Academia.

Era um lindo rapaz; a mesma edade

Co'as passageiras flôres o adornava

De cujo extincto aroma inda a memoria

Vive na tarde pallida do outomno.

Oh! vinte anos! Ó pombas fugitivas

Da primeira estação, porque tão cedo

Voaes de nós? Pudesse ao menos a

alma

Guardar comsigo as illusões primeiras,

Virgindade sem preço, que não paga

Essa descolorida, árida e sêcca

Experiencia do homem!

Vinte annos

Tinha Octavio, e a belleza e um ar de

corte,

E o gesto nobre, e seductor o aspecto;

Um vero Adonis, como aqui diria

Algum poeta classico, d'aquella

Poesia que foi nobre, airosa e grande

Em tempos idos, que ainda bem se

foram...

Cursava a Academia o moço Octavio;

Ia no anno terceiro, não remoto

Via desenrolar-se o pergaminho,

Premio de seus labores e fadigas;

E uma vez bacharel, via mais longe

Os curvos braços da feliz cadeira

D'onde o legislador a redea empunha

Dos lepidos frisões do Estado. Emtanto,

Sobre os livros de estudo, gota a gota

As horas despendia, e trabalhava

Por metter na cabeça o jus romano

E o patrio jus. Nas suspiradas ferias

Volvia ao lar paterno; ali no dorso

De brioso corsel corria os campos,

Ou, arma ao hombro, polvorinho ao lado, Á caça dos veados e cotias,

Ia matando o tempo. Algumas vezes

Com o padre vigario se entretinha

Em desfiar um ponto de intrincada

Philosophia, que o senhor de engenho,

Feliz pae, escutava glorioso,

Como a rever-se no brilhante aspecto

De suas ricas esperanças.

Era

Manhã de estio; erguera-se do leito

Octavio; em quatro sorvos toda esgota

A taça de café. Chapeo de palha,

E arma ao hombro, lá foi terreiro fóra,

Passarinhar no mato. Ia costeando

O arvoredo que além beirava o rio,

A passo curto, e o pensamento á larga,

Como leve andorinha que saísse

Do ninho, a respirar o hausto primeiro

Da manhã. Pela aberta da folhagem,

Que inda não doura o sol, uma figura

Deliciosa, um busto sobre as ondas

Suspende o caçador. Mãe d'água fôra,

Talvez, se a cor de seus quebrados olhos Imitasse a do céu; se a tez morena,

Morena como a esposa dos Cantares,

Alva tivesse; e raios de ouro fossem

Os cabellos da cor da noite escura,

Que ali soltos e humidos lhe caem,

Como um véu sobre o collo. Trigueirinha, Cabello negro, os largos olhos brandos

Cor de jaboticaba, quem seria,

Quem, senão a mucama da fazenda,

Sabina, emfim? Logo a conhece Octavio, E n'ella os olhos espantados fita

Que desejos accendem.—Mal cuidando

D'aquelle extranho curioso, a virgem

Com os ligeiros braços rompe as aguas,

E ora toda se esconde, ora ergue o

busto,

Talhado pela mão da natureza

Sobre o modelo classico. Na opposta

Riba suspira um passarinho; e o canto

E a meia luz, e o sussurrar das aguas,

E aquella fada ali, tão doce vida

Davam ao quadro, que o ardente alumno Trocára por aquillo, uma hora ao menos,

A Faculdade, o pergaminho e o resto.

Subito erige o corpo a ingenua virgem;

Com as mãos, os cabellos sobre a

espadua

Deita, e rasgando lentamente as ondas,

Para a margem caminha, tão serena,

Tão livre como quem de extranhos olhos

Não suspeita a cubiça... Véu da noite,

Se lh'os cobrira, dissipára acaso

Uma historia de lagrimas. Não póde

Furtar-se Octavio á commoção que o

toma;

A clavina que a esquerda mal sustenta

No chão lhe cae; e o baque surdo

accorda

A descuidada nadadora. Ás ondas

A virgem torna. Rompe Octavio o espaço Que os divide; e de pé, na fina areia,

Que o molle rio lambe, erecto e firme,

Todo se lhe descobre. Um grito apenas

Um só grito, mas unico, lhe rompe

Do coração; terror, vergonha... e acaso

Prazer, prazer mysterioso e vivo

De captiva que amou silenciosa,

E que ama e vê o objecto de seus

sonhos,

Ali com ella, a suspirar por ella.

«Flôr da roça nascida ao pé do rio,

Octavio começou—talvez mais bella

Que essas bellezas cultas da cidade,

Tão cobertas de joias e de sedas,

Oh! não me negues teu suave aroma!

Fez-te captiva o berço; a lei somente

Os grilhões te lançou; no livre peito

De teus senhores tens a liberdade,

A melhor liberdade, o puro affecto

Que te elegeu entre as demais captivas,

E de affagos te cobre! Flôr do matto,

Mais viçosa do que essas outras flôres

Nas estufas criadas e nas salas,

Rosa agreste nascida ao pé do rio,

Oh! não me negues teu suave aroma!»

Disse, e da riba os cubiçosos olhos

Pelas aguas estende, emquanto os

d'ella,

Cobertos pelas palpebras medrosas

Choram,—de gosto e de vergonha a um

tempo

Duas unicas lagrimas. O rio

No seio as recebeu; comsigo as leva,

Como gottas de chuva, indifferente

Ao mal ou bem que lhe povoa a margem; Que assim a natureza, ingenua e docil

Ás leis do Creador, perpétua segue

Em seu mesmo caminho, e deixa ao

homem

Padecer e saber que sente e morre.

Pela azulada esphera inda trez vezes

A aurora as flôres derramou, e a noite

Vezes trez a mantilha escura e larga

Mysteriosa cingiu. Na quarta aurora,

Anjo das virgens, anjo de azas brancas,

Pudor, onde te foste? A alva capella

Murcha e desfeita pelo chão lançada,

Coberta a face do rubor do pejo,

Os olhos com as mãos velando, alçaste

Para a Eterna Pureza o eterno voo.

Quem ao tempo cortar pudera as azas

Se deleitoso voa? Quem pudera

Suster a hora abençoada e curta

Da ventura que foge, e sobre a terra

O gozo transportar da eternidade?

Sabina viu correr tecidos de ouro

Aqueles dias unicos na vida

Toda enlevo e paixão, sincera e ardente

Nesse primeiro amor d'alma que nasce

E os olhos abre ao sol. Tu lhe dormias,

Consciencia; razão, tu lhe fechavas

A vista interior; e ella seguia

Ao sabor dessas horas mal furtadas

Ao captiveiro e á solidão, sem vel-o

O fundo abysmo tenebroso e largo

Que a separa do eleito de seus sonhos,

Nem pressentir a brevidade e a morte!

E com que olhos de pena e de saudade

Viu ir-se um dia pela estrada fóra

Octavio! Aos livros torna o moço alumno, Não cabisbaixo e triste, mas sereno

E lepido. Com ella a alma não fica

De seu jovem senhor. Lagrima pura,

Muito embora de escrava, pela face

Lentamente lhe rola, e lentamente

Toda se esvae num pallido sorriso

De mãe.

Sabina é mãe; o sangue livre

Gira e palpita no captivo seio

E lhe paga de sobra as dores cruas

Da longa ausencia. Uma por uma, as

horas

Na solidão do campo há de contal-as,

E suspirar pelo remoto dia

Em que o veja de novo... Pouco importa,

Se o materno sentir compensa os males.

Riem-se della as outras; é seu nome

O assunto do terreiro. Uma invejosa

Acha-lhe uns certos modos singulares

De senhora de engenho; um pajem

moço,

De cobiça e ciume devorado,

Desfaz nas graças que em silencio adora E consigo medita uma vingança.

Entre os parceiros, desfiando a palha

Com que entrança um chapeo, solenemente

Um Caçanje ancião refere aos outros

Alguns casos que viu na mocidade

De captivas amadas e orgulhosas

Castigadas do céu por seus pecados,

Mortas entre os grilhões do captiveiro.

Assim falavam elles; tal o aresto

Da opinião. Quem evitá-lo póde

Entre os seus, por mais baixo que a

fortuna

Haja tecido o berço? Assim falavam

Os captivos do engenho; e porventura

Sabina o soube e o perdoou.

Volveram

Após os dias da saudade os dias

Da esperança. Ora, quiz fortuna adversa

Que o coração do moço, tão voluvel

Como a brisa que passa ou como as

ondas,

Nos cabellos castanhos se prendesse

De donzella gentil, com quem atára

O laço conjugal: uma belleza

Pura, como o primeiro olhar da vida,

Uma flôr desbrochada em seus quinze

annos,

Que o moço viu n'um dos serões da corte E captivo adorou. Que há de fazer-lhes

Agora o pae? Abençoar os noivos

E ao regaço trazel-os da familia.

Oh! longa foi, longa e ruidosa a festa

Da fazenda, por onde alegre entrára

O moço Octavio conduzindo a esposa.

Viu-os chegar Sabina, os olhos secos,

Attonita e pasmada. Breve o instante