Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 47 de 161

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Poesias Completas

Capítulo XVII

Não misturar comidas com amores;

Mas eu não vi, nem sei se algum amante Vive de orvalho ou petalas de flôres;

Namorados estomagos consomem;

Comem Romeos, e Julietas comem.

XVII

Entrou a tempo o chá, e foi servil-o,

Sem responder, a moça interrogada,

C'um ar tão soberano e tão tranquillo

Que o velho emmudeceu. Ceia acabada, Fez o escriptor o costumado chylo,

Mas um chylo de especie pouco usada,

Que consistia em ler um livro velho;

N'essa noite acertou ser o Evangelho.

XVIII

Abríra em S. Matheus, n'aquelle passo

Em que o filho de Deus diz que a

açucena

Não labora nem fia, e o tempo escasso

Vive, co' o ar e o sol, sem dôr nem pena; Leu e estendendo o já tremulo braço

A triste, á melancolica pequena,

Apontou-lhe a passagem da Escriptura

Onde lêra lição tão recta e pura.

XIX

«Vês? diz o velho, escusas de cansar-te; «Deixa em paz teu espirito, criança:

«Se existe um coração que deva amar-

te,

«Ha de vir; vive só d'essa esperança.