Poesias Completas
Livros e Flores
Vinha tremula e sentida.
Commettêra um erro. A cruz
É a ancora da vida,
A esperança, a força, a luz.
Que rezou? Não sei. Benzeu-se
Rapidamente. Ajustou
O véu de rendas. Ergueu-se
E á pia se encaminhou.
Da vela benta que ardêra,
Como tranquillo fanal,
Umas lagrimas de cêra
Caíam no castiçal.
Ella porém não vertia
Uma lagrima sequer.
Tinha a fé,—a chamma a arder,—
Chorar é que não podia.
LIVROS E FLORES
Teus olhos são meus livros.
Que livro ha ahi melhor,
Em que melhor se leia
A pagina do amor?
Flôres me são, teus labios.
Onde ha mais bella flôr,
Em que melhor se beba
O balsamo do amor?
PASSAROS
Je veux changer mes pensées en oiseaux.
C. MAROT.
Olha como, cortando os leves ares,
Passam do valle ao monte as
andorinhas;
Vão pousar na verdura dos palmares,
Que, á tarde, cobre transparente véu;
Voam tambem como essas avezinhas
Meus sombrios, meus tristes
pensamentos;
Zombam da furia dos contrarios ventos,
Fogem da terra, acercam-se do céu.
Porque o céu é tambem aquella estancia Onde respira a doce creatura,
Filha de nosso amor, sonho da infancia,
Pensamento dos dias juvenis.
Lá, como esquiva flôr, formosa e pura,
Vives tu escondida entre a folhagem,
Ó rainha do ermo, ó fresca imagem
Dos meus sonhos de amor calmo e feliz!
Vão para aquella estancia, enamorados,
Os pensamentos de minh'alma anciosa;
Vão contar-lhe os meus dias mal
gozados
E estas noites de lagrimas e dôr;
Na tua fronte pousarão, mimosa,
Como as aves no cimo da palmeira;
Dizendo aos écos a canção primeira
De um livro escripto pela mão do amor.
Dirão tambem como conservo ainda
No fundo de minh'alma essa lembrança
Da tua imagen vaporosa e linda,
Unico alento que me prende aqui.
E dirão mais que estrellas de esperança
Enchem a escuridão das noites minhas.