Poesias Completas
Parte II: I
PARTE II
I
Era naquella doce e amavel hora
Em que vem branqueando a alva celeste, Quando parece que remoça a vida
E toda se espreguiça a natureza.
Alva neblina que espalhara a noite
Frouxamente nos ares se dissolve,
Como de uns olhos tristes
Foge co'o tempo a já ligeira sombra
De consoladas maguas. Vida é tudo.
E pompa e graça natural da terra,
Mas que não seja no ermo,
Onde seus olhos rutilos espraia
Livres a aurora, sem tocar vestigios
De obras caducas do homem, onde as
aguas
Do rio bebe a fugitiva corça,
Vivo aroma nos ares se difunde,
E aves, e aves de infinitas cores
Voando vão e revoando tornam,
Inda senhoras da amplidão que é sua,
Donde as hade fugir o homem um dia
Quando a agreste solidão entrar o passo Creador que derruba. Já de todo
Nado era o sol; e á viva luz que innunda
Estes meus patrios morros e estas
praias,
Sorrindo a terra moça
Noiva parece que o virgineo seio
Entrega ao beijo nupcial do amado.
E hade os funebres véus lançar a morte
Na verdura do campo? A natureza
A nota vibrará da extrema angustia
Neste festivo cantico de graças