Poesias Completas
Sombras
Enche de intenso horror o horror da
morte.
Viuva da razão, nem já te cabe
A illusão da esperança.
Feliz, feliz, ao menos, se te resta,
Nos macerados olhos,
O derradeiro bem:—algumas lagrimas!
SOMBRAS
Quando, assentada á noite, a tua fronte
inclinas,
E cerras descuidada as palpebras
divinas,
E deixas no regaço as tuas mãos cair,
E escutas sem fallar, e sonhas sem
dormir,
Acaso uma lembrança, um éco do
passado,
Em teu seio revive?
Ó tumulo fechado
Da ventura que foi, do tempo que fugiu,
Por que razão, mimosa, a tua mão o
abriu?
Com que flôr, com que espinho, a
importuna memoria
Do teu passado escreve a mysteriosa
historia?
Que espectro ou que visão resurge aos
olhos teus?
Vem das trevas do mal ou cae das mãos
de Deus?
É saudade ou remorso? é desejo ou
martyrio?
Quando em obscuro templo a fraca luz
de um cirio