Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 24 de 161

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Poesias Completas

Sombras

Enche de intenso horror o horror da

morte.

Viuva da razão, nem já te cabe

A illusão da esperança.

Feliz, feliz, ao menos, se te resta,

Nos macerados olhos,

O derradeiro bem:—algumas lagrimas!

 

SOMBRAS

Quando, assentada á noite, a tua fronte

inclinas,

E cerras descuidada as palpebras

divinas,

E deixas no regaço as tuas mãos cair,

E escutas sem fallar, e sonhas sem

dormir,

Acaso uma lembrança, um éco do

passado,

Em teu seio revive?

Ó tumulo fechado

Da ventura que foi, do tempo que fugiu,

Por que razão, mimosa, a tua mão o

abriu?

Com que flôr, com que espinho, a

importuna memoria

Do teu passado escreve a mysteriosa

historia?

Que espectro ou que visão resurge aos

olhos teus?

Vem das trevas do mal ou cae das mãos

de Deus?

É saudade ou remorso? é desejo ou

martyrio?

Quando em obscuro templo a fraca luz

de um cirio