Poesias Completas
Maria
Felicio amigo, se eu disser que os annos Passam correndo ou passam vagarosos, Segundo são alegres ou penosos,
Tecidos de affeições ou desenganos,
«Philosophia é esta de rançosos!»
Dirás. Mas não ha outra entre os
humanos.
Não se contam sorrisos pelos damnos,
Nem das tristezas desabrocham gozos.
Banal, confesso. O precioso e o raro
É, seja o céu nublado ou seja claro,
Tragam os tempos amargura ou gosto,
Não desdizer do mesmo velho amigo,
Ser com os teus o que elles são comtigo, Ter um só coração, ter um só rosto.
MARIA
Maria, ha no seu gesto airoso e nobre,
Nos olhos meigos e no andar tão brando, Um não sei quê suave que descobre,
Que lembra um grande passaro
marchando.
Quero, ás vezes, pedir-lhe que desdobre As azas, mas não peço, reparando
Que, desdobradas, podem ir voando
Leval-a ao tecto azul que a terra cobre.
E penso então, e digo então commigo:
«Ao céu, que vê passar todas as gentes
Bastem outros primores de valia.