Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 134 de 161

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Poesias Completas

O Corvo

Róla a vida immortal e o eterno

cataclismo,

E, como o outro, guarda em seu ambito

enorme,

Um segredo que attrae, que desafia—e

dorme.

 

O CORVO

(EDGAR POE)

Em certo dia, á hora, á hora

Da meia-noite que apavora,

Eu, cahindo de somno e exausto de

fadiga,

Ao pé de muita lauda antiga,

De uma velha doutrina, agora morta,

Ia pensando, quando ouvi á porta

Do meu quarto um soar

devagarinho,

E disse estas palavras taes:

«É alguem que me bate á porta de

mansinho;

«Ha de ser isso e nada mais.»

Ah! bem me lembro! bem me

lembro!

Era no glacial Dezembro;

Cada braza do lar sobre o chão reflectia

A sua ultima agonia.

Eu, ancioso pelo sol, buscava

Saccar d'aquelles livros que

estudava

Repouso (em vão!) á dôr

esmagadora

D'estas saudades immortaes

Pela que ora nos céus anjos chamam

Lenora.

E que ninguem chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando

Das cortinas ia acordando

Dentro em meu coração um rumor não

sabido,

Nunca por elle padecido.

Enfim, por aplacal-o aqui no peito,

Levantei-me de pronto, e: «Com

effeito,

(Disse) é visita amiga e retardada

«Que bate a estas horas taes.

«É visita que pede á minha porta

entrada:

«Ha de ser isso e nada mais.»

Minh'alma então sentiu-se forte;

Não mais vacillo e d'esta sorte

Fallo: «Imploro de vós,—ou senhor ou

senhora,

«Me desculpeis tanta demora.

«Mas como eu, precisando de

descanço,

«Já cochilava, e tão de manso e

manso

«Batestes, não fui logo,

prestemente,

«Certificar-me que ahi estaes.»

Disse; a porta escancaro, acho a noite

somente,

Sómente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a

sombra,

Que me amedronta, que me

assombra,

E sonho o que nenhum mortal ha já

sonhado,

Mas o silencio amplo e calado,

Calado fica; a quietação quieta;

Só tu, palavra unica e dilecta,

Lenora, tu, como um suspiro

escasso,

Da minha triste boca saes;

E o eco, que te ouviu, murmurou-te no

espaço;

Foi isso apenas, nada mais.

Entro com alma incendiada.

Logo depois outra pancada

Sôa um pouco mais forte; eu, voltando-

me a ella:

«Seguramente, há na janella

«Alguma cousa que sussurra.

Abramos,

«Eia, fôra o temor, eia, vejamos

«A explicação do caso mysterioso

«D'essas duas pancadas taes.

«Devolvamos a paz ao coração medroso,

«Obra do vento e nada mais.»

Abro a janella, e de repente,

Vejo tumultuosamente

Um nobre corvo entrar, digno de antigos

dias.

Não despendeu em cortezias

Um minuto, um instante. Tinha o

aspecto

De um lord ou de uma lady. E pronto

e recto,

Movendo no ar as suas negras alas,

Acima vôa dos portaes,

Trepa, no alto da porta, em um busto de

Pallas;

Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,

Naquella rigida postura,

Com o gesto severo,—o triste

pensamento

Sorriu-me alli por um momento,

E eu disse: «Ó tu que das nocturnas

plagas

«Vens, embora a cabeça nua tragas,

«Sem topete, não és ave medrosa,

«Dize os teus nomes senhoriaes;

«Como te chamas tu na grande noite

umbrosa?»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

Vendo que o psssaro entendia

A pergunta que lhe eu fazia,

Fico attonito, embora a resposta que

dera

Difficilmente lha entendera.

Na verdade, jamais homem ha visto

Cousa na terra semelhante a isto:

Uma ave negra, friamente posta

N'um busto, acima dos portaes,

Ouvir uma pergunta e dizer em resposta

Que este é seu nome: «Nunca

mais.»

No emtanto, o corvo solitario

Não teve outro vocabulario,

Como se essa palavra escassa que alli

disse

Toda a sua alma resumisse.

Nenhuma outra proferiu, nenhuma,

Não chegou a mexer uma só pluma,

Até que eu murmurei: «Perdi outr'ora

Tantos amigos tão leaes!

Perderei tambem este em regressando a

aurora.»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

Estremeço. A resposta ouvida

É tão exacta! é tão cabida!

«Certamente, digo eu, essa é toda a

sciencia

«Que ele trouxe da convivencia

«De algum mestre infeliz e

acabrunhado

«Que o implacavel destino ha

castigado

«Tão tenaz, tão sem pausa, nem

fadiga,

«Que dos seus cantos usuaes

«Só lhe ficou, na amarga e ultima

cantiga,

«Esse estribilho: «Nunca mais.»

Segunda vez, nesse momento,

Sorriu-me o triste pensamento;

Vou sentar-me defronte ao corvo magro e

rudo;

E mergulhando no velludo

Da poltrona que eu mesmo alli

trouxera

Achar procuro a lugubre quimera,

A alma, o sentido, o pavido segredo

Daquelas syllabas fataes,

Entender o que quiz dizer a ave do medo

Grasnando a phrase: «Nunca

mais.»

Assim posto, devaneando,

Meditando, conjecturando,

Não lhe fallava mais; mas, se lhe não

fallava,

Sentia o olhar que me abrazava.

Conjecturando fui, tranquillo a gosto,

Com a cabeça no macio encosto

Onde os raios da lampada cahiam,

Onde as tranças angelicaes

De outra cabeça outr'ora alli se

desparziam,

E agora não se esparzem mais.

Suppuz então que o ar, mais

denso,

Todo se enchia de um incenso,

Obra de seraphins que, pelo chão

roçando

Do quarto, estavam meneando

Um ligeiro thuribulo invisivel;

E eu exclamei então: «Um Deus

sensivel

«Manda repouso á dor que te devora

«D'estas saudades immortaes.

«Eia, esquece, eia, olvida essa extincta

Lenora.»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Propheta, ou o que quer que

sejas!

«Ave ou demonio que negrejas!

«Propheta sempre, escuta: Ou venhas tu

do inferno

«Onde reside o mal eterno,

«Ou simplesmente naufrago

escapado

«Venhas do temporal que te ha

lançado

«N'esta casa onde o Horror, o Horror

profundo

«Tem os seus lares triumphaes,

«Dize-me: existe acaso um balsamo no

mundo?»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Propheta, ou o que quer que

sejas!

«Ave ou demonio que negrejas!

«Propheta sempre, escuta, attende,

escuta, attende!

«Por esse céu que além se

estende,

«Pelo Deus que ambos adoramos,

falla,

«Dize a esta alma se é dado inda

escutal-a

«No Eden celeste a virgem que ella

chora

«Nestes retiros sepulchraes,

«Essa que ora nos céus anjos chamam

Lenora!»

E o corvo disse: «Nunca mais.»

«Ave ou demonio que negrejas!

«Propheta, ou o que quer que

sejas!

«Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-

me, cessa!

«Regressa ao temporal, regressa

«Á tua noite, deixa-me commigo.

«Vae-te, não fique no meu casto

abrigo

«Pluma que lembre essa mentira