Poesias Completas
Ruinas
Foi longo o sacrificio; o teu joelho
De curvar-se cançou;
E acaso sobre as folhas do Evangelho
A tua alma chorou.
Ninguem vio essas lagrimas (ai tantas!)
Cair nas folhas santas.
Ite missa est.
De olhos fitos no céu rezaste o credo,
O credo do teu deus;
Oração que devia, ou tarde ou cedo,
Travar nos labios teus;
Palavra que se esvai qual fumo escasso
E some-se no espaço.
Ite missa est.
Votaste ao céu, nas tuas mãos alçada,
A hostia do perdão,
A victima divina e profanada
Que chamas coração.
Quasi inteiras perdeste a alma e a vida
Na hostia consumida.
Ite missa est.
Pobre servo do altar de um deus esquivo,
É tarde; beija a cruz;
Na lampada em que ardia o fogo activo,
Vê, já se extingue a luz.
Cubra-te agora o rosto macilento
O véu do esquecimento.
Ite missa est.
RUINAS
No hay pájaros en los nidos de antaño.
PROVERBIO HESPANHOL.
Cobrem plantas sem flôr crestados
muros;
Range a porta ancian; o chão de pedra
Gemer parece aos pés do inquieto vate.
Ruina é tudo: a casa, a escada, o horto,
Sitios caros da infancia.
Austera moça
Junto ao velho portão o vate aguarda;
Pendem-lhe as tranças soltas
Por sobre as rôxas vestes.
Risos não tem, e em seu magoado gesto Transluz não sei que dôr occulta aos
olhos;
—Dôr que á face não vem,—medrosa e
casta,
Intima e funda;—e dos cerrados cilios
Se uma discreta e muda
Lagrima cae, não murcha a flôr do rosto;
Melancolia tacita e serena,
Que os écos não acorda em seus
queixumes,
Respira aquelle rosto. A mão lhe estende O abatido poeta. Eil-os percorrem
Com tardo passo os relembrados sitios,
Ermos depois que a mão da fria morte
Tantas almas colhera. Desmaiavam,
Nos serros do poente,
As rosas do crepusculo.
«Quem és? pergunta o vate; o sol que
foge
«No teu languido olhar um raio deixa;
«—Raio quebrado e frio;—o vento agita
«Timido e frouxo as tuas longas tranças.
«Conhecem-te estas pedras; das ruinas
«Alma errante pareces condemnada
«A contemplar teus insepultos ossos.