Poesias Completas
Capítulo V
Piranha espiou do fundo
Piranha, que o vae comer.
Ninguem se fie da braza
Que os olhos veem arder,
Sereno que cae de noite
Ha de fazel-a morrer.
Panenioxe, Panenioxe,
Não lhe sabias querer.
Quem te pagára esse golpe
Que lhe vieste fazer!»
V
Um dia,—era sobre tarde,
Ia-se o sol a afundar;
Calumby cerrava as folhas
Para melhor as guardar.
Vem cavaleiro de longe
E á porta vai apear.
Traz o rosto carregado,
Como a noite sem luar.
Chega-se á pobre da moça
E assim começa a falar:
«—Guaycurú dói-lhe no peito
Tristeza de envergonhar.
Esposo que te ha fugido
Hoje se vae a casar;
Noiva não é de alto sangue,
Porém de sangue vulgar.»
Ergue-se a moça de um pulo,
Arrebatada, e no olhar
Rebenta-lhe uma faisca
Como de luz a expirar.
Menino escravo que tinha
Acerta de ali passar;
Niani attentando nelle
Chama-o para o seu logar.
«—Cativo és tu; serás livre,
Mas vaes o nome trocar;
Nome avesso te pozeram...
Panenioxe has de ficar.»
Pela face cobreada
Desce, desce com vagar
Uma lagrima: era a ultima
Que lhe restava chorar.
Longo tempo alli ficára,
Sem se mover nem fallar;
Os que a veem naquella magoa
Nem ousam de a consolar.
Depois um longo suspiro,
E ia a moça a expirar...
O sol de todo morria
E ennegrecia-se o ar.
Pintam-n'a de vivas cores,
E lhe lançam um collar;[19]
Em fina esteira de junco
Logo a vão amortalhar.
O triste pae suspirando
Nos braços a vae tomar,
Deita-a sobre o seu cavallo
E a leva para enterrar.