Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 94 de 161

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Poesias Completas

Capítulo V

Piranha espiou do fundo

Piranha, que o vae comer.

Ninguem se fie da braza

Que os olhos veem arder,

Sereno que cae de noite

Ha de fazel-a morrer.

Panenioxe, Panenioxe,

Não lhe sabias querer.

Quem te pagára esse golpe

Que lhe vieste fazer!»

V

Um dia,—era sobre tarde,

Ia-se o sol a afundar;

Calumby cerrava as folhas

Para melhor as guardar.

Vem cavaleiro de longe

E á porta vai apear.

Traz o rosto carregado,

Como a noite sem luar.

Chega-se á pobre da moça

E assim começa a falar:

«—Guaycurú dói-lhe no peito

Tristeza de envergonhar.

Esposo que te ha fugido

Hoje se vae a casar;

Noiva não é de alto sangue,

Porém de sangue vulgar.»

Ergue-se a moça de um pulo,

Arrebatada, e no olhar

Rebenta-lhe uma faisca

Como de luz a expirar.

Menino escravo que tinha

Acerta de ali passar;

Niani attentando nelle

Chama-o para o seu logar.

«—Cativo és tu; serás livre,

Mas vaes o nome trocar;

Nome avesso te pozeram...

Panenioxe has de ficar.»

Pela face cobreada

Desce, desce com vagar

Uma lagrima: era a ultima

Que lhe restava chorar.

Longo tempo alli ficára,

Sem se mover nem fallar;

Os que a veem naquella magoa

Nem ousam de a consolar.

Depois um longo suspiro,

E ia a moça a expirar...

O sol de todo morria

E ennegrecia-se o ar.

Pintam-n'a de vivas cores,

E lhe lançam um collar;[19]

Em fina esteira de junco

Logo a vão amortalhar.

O triste pae suspirando

Nos braços a vae tomar,

Deita-a sobre o seu cavallo

E a leva para enterrar.