Poesias Completas
Capítulo IX
Deixa a serena região da prece
E voa ao torvelinho do combate.
IX
Entre os fortes alumnos que dirige
O ardido Bento, a perfilar-se corre [22] Nuno. Estes são os que o primeiro golpe
Descarregam no attonito inimigo.
Do militar officio ignoram tudo,
De armas não sabem; mas o brio e a
honra
E a lembrança da terra em que primeiro
Viram a luz, e onde o perdel-a é doce,
Essa a escola lhes foi. Pasma o inimigo
Do nobre esforço e galhardia rara,
Com que inda nos humbraes da vida que
orna
Tanta esperança, tanto sonho de ouro,
Resolutos a morte encaram, prestes
A retalhar nas dobras
Da vestidura funebre da patria
O piedoso lençol que os leve á campa,
Ou com ella cingir o eterno louro.
X
Ó mocidade, ó baluarte vivo
Da cara patria! Já perdida é ella,
Quando em teu peito enthusiasmo santo
E puro amor se extingue, e áquelle
nobre,
Generoso despejo e ardor antigo
Succede o frio calcular, e o torpe
Egoismo, e quanto ha hi no humano
peito,
Que é fructo nosso e podre... Muitos
caem
Mortos alli. Que importa? Vão seguindo
Avante os bravos, que a invasão
caminha
Implacavel e dura, como a morte,
A pelejar e a destruir. Tingidas
Ruas de extranho sangue
E sangue nosso, lacerados membros,
Corpos de que ha fugido a alma
cançada,
E o denso fumo e os funebres lamentos,
Quem nessa confusão, miseria e gloria
Conhecerá da juvenil cidade
O aspecto, a vida? Aqui da infancia os
dias
Nuno vivêra, á vecejante sombra
Do seu patrio arvoredo, ao som das
vagas
Que inda batendo vão na amada areia;
Risos, jogos da verde meninice,
Esta praia lhe lembra, aquella pedra,
A mangueira do campo, a tosca cerca
De espinheiro e de flôres enlaçadas,
A ave que voa, a brisa que suspira,
Que suspira como elle ha suspirado,
Quando rompendo o coração do peito
Ia-lhe empós dessa visão divina,
Realidade agora... E ha de perdel-as
Patria e noiva? Esta ideia lhe esvoaça
Torva e surda no cerebro do moço,
E ao contrahido espirito redobra
Impeto e forças. Rompe
Por entre a multidão dos seus, e investe
Contra o duro inimigo; as balas voam,
E com ellas a morte, que não sabe
Dos escolhidos seus a terra e o sangue,