Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 158 de 161

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Poesias Completas

No Alto

Quem o lume do amor nos seios d'alma

Apagar-se-lhe sente. A nevoa póde,

Qual turbante mourisco, a cumiada

Das montanhas cingir da nossa terra,

Que muito, se ao redor viceja ainda

Primavera immortal? Um dia, ao vel-a

De tantos requestada a esquiva moça,

Sente o Freire bater-lhe as adormidas

Azas do coração. Que não desdoura,

Antes lhe dá realce e lhe desvinca

A nobre fronte a um homem de justiça,

Como os outros mortaes, morrer de

amores;

E amar e ser amado é, neste mundo,

A tarefa melhor da nossa especie,

Tão cheia de outras que não valem nada.

 

NO ALTO

O poeta chegára ao alto da montanha,

E quando ia a descer a vertente do

oeste,

Viu uma cousa extranha,

Uma figura má.

Então, volvendo o olhar ao subtil, ao

celeste,

Ao gracioso Ariel, que de baixo o

acompanha,

N'um tom medroso e agreste

Pergunta o que será.

Como se perde no ar um som festivo e

doce,

Ou bem como se fosse

Um pensamento vão,