Poesias Completas
No Alto
Quem o lume do amor nos seios d'alma
Apagar-se-lhe sente. A nevoa póde,
Qual turbante mourisco, a cumiada
Das montanhas cingir da nossa terra,
Que muito, se ao redor viceja ainda
Primavera immortal? Um dia, ao vel-a
De tantos requestada a esquiva moça,
Sente o Freire bater-lhe as adormidas
Azas do coração. Que não desdoura,
Antes lhe dá realce e lhe desvinca
A nobre fronte a um homem de justiça,
Como os outros mortaes, morrer de
amores;
E amar e ser amado é, neste mundo,
A tarefa melhor da nossa especie,
Tão cheia de outras que não valem nada.
NO ALTO
O poeta chegára ao alto da montanha,
E quando ia a descer a vertente do
oeste,
Viu uma cousa extranha,
Uma figura má.
Então, volvendo o olhar ao subtil, ao
celeste,
Ao gracioso Ariel, que de baixo o
acompanha,
N'um tom medroso e agreste
Pergunta o que será.
Como se perde no ar um som festivo e
doce,
Ou bem como se fosse
Um pensamento vão,