Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 125 de 161

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Poesias Completas

Capítulo II

E as florestas, e os rios e os palmares.

Oh! candidas lembranças infantinas!

Oh! vida alegre da primeira taba;

Que aurora vos tomou, aves divinas?

Como um tronco do matto que desaba,

Tudo caiu; lei barbara e funesta:

O mesmo instante cria e o mesmo acaba.

De esperanças tamanhas o que resta?

Uma historia, uma lagrima chorada

Sobre as ultimas ramas da floresta.

A flôr do ipê a viu brotar maguada,

E talvez a guardou no seio amigo,

Como lembrança da estação passada.

Agora os dois, deixando o bosque antigo, E as campinas, e os rios e os palmares,

Para subir ao derradeiro abrigo,

Iam cortando lentamente os ares.

II

E elle clamava á moça que ascendia;

«—Oh! tu que a doce luz eterna levas,

E vais viver na região do dia,

«Vê como rasgam barbaras e sevas

As tristezas mortaes ao que se afunda

Quasi na fria região das trevas!

«Olha esse sol que a criação inunda!

Oh quanta luz, oh! quanta doce vida

Deixar-me vae na escuridão profunda!

«Tu ao menos perdoa-me, querida!

Suave esposa, que eu ganhei roubando,

Perdida agora para mim, perdida!

Ao maldito na morte, ao miserando,

Que mais lhe resta em sua noite impura? Sequer allivio ao coração nefando.

«Nos olhos trago a tua morte escura.

Foi meu odio cruel que há decepado,

Ainda em flôr, a tua formosura.

«Mensageiro de paz, era enviado

Um dia á taba de teus pais, um dia

Que melhor fôra se não fôra nado.

Ali te vi; ali, entre a alegria

De teus fortes guerreiros e donzellas,

Teu doce rosto para mim sorria.

«A mais bella eras tu entre as mais

bellas,

Como no céu a creadora lua

Vence na luz as vívidas estrellas.

«Gentil nasceste por desgraça tua;

Eu covarde nasci; tu me seguiste;

E ardeu a guerra desabrida e crua.

«Um dia o rosto carregado e triste

Á taba de teus pais volveste, o rosto

Com que alegre e feliz d'ali fugiste.

«Tinha expirado o passageiro gosto,

Ou o sangue dos teus, correndo a fio,

Em teu seio outro affecto havia posto.

«Mas, ou fosse remorso, ou já fastio,

Ias-te agora leve e descuidada,

Como folha que o vento entrega ao rio.

«Oh! corça minha fugitiva e amada!

Anhangá te guiou por mau caminho,

E a morte poz na minha mão fechada.

«Feriu-me da vingança agudo espinho;

E fiz-te padecer tão cruas penas,

Que inda me doe o coração mesquinho.

«Ao contemplar aquellas tristes scenas

As aves, de piedosas e sentidas,

Chorando foram sacudindo as pennas.

«Não viu o cedro ali correr perdidas

Lagrimas de materno amado seio;

Viu somente morrer a flôr das vidas.

«O que mais houve da floresta em meio

O sinistro expectaculo, de certo

Nenhum estranho contemplal-o veio.

«Mas, se alguem penetrasse no deserto, Vira cair pesadamente a massa

Do corpo do guerreiro; e o craneo aberto,

«Como se fôra derramada taça

Pela terra jazer, ali chamando

O feio grasno do urubú que passa.

«Em vão a arma do golpe irão buscando, Nenhuma houve; nem guerreiro ousado

A tua morte ali foi castigando.

«Talvez, talvez Tupan, desconsolado,