Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 159 de 161

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Poesias Completas

Notas

Ariel se desfez sem lhe dar mais

resposta.

Para descer a encosta

O outro estendeu-lhe a mão.

 

NOTAS

[1]Os poetas classicos francezes usavão muito esta fórma a que chamavão triolet. Depois do longo desuso, alguns poetas d'este seculo resuscitarão o triolet, não desmerecendo dos antigos modelos. Não me consta que se haja tentado empregal-a em portuguez, nem talvez seja cousa que mereça trasladação. A fórma entretanto é graciosa e não encontra difficuldade na nossa lingua, creio eu.

[2]Maximiliano, quando estava em Miramar, costumava retratar photographicamente a archiduqueza, escrevendo por baixo do retrato: «La marchesa de Miramar.»

[3]Perdoem-me estes versos em francez; e para que de todo em todo não fique a pagina perdida aqui lhes dou a traducção que fez dos meus versos, o talentoso poeta maranhense Joaquim Serra:

É um velho paiz, de luz e sombras,

Onde o dia traz pranto, e a noite a scisma;

Um paiz do orações e de blasphemia,

N'elle a crença na duvida se abysma.

Ahi, mal nasce a flôr, o verme a corta,

O mar é um escarcéo, e o sol sombrio;

Se a ventura n'um sonho transparece

A suffoca em seus braços o fastio.

Quando o amor, qual sphynge indecifravel

Ahi vai a bramir, perdido o sizo...

Ás vezes ri alegre, e outras vezes

É um triste soluço esse sorriso...

Vive-se n'esse e paiz com a mágoa e o riso;

Quem d'lle se ausentou treme e maldiz;

Mas ai, eu n'elle passo a mocidade,

Pois é meu coração esse paiz!

[4]Os poetas postos n'esta colecção são todos contemporaneos. Encontrei-os no livro publicado em 1868 pela Sra. Judith Walter, distincta viajante que dizem conhecer profundamente a lingua chineza, e que os traduziu em simples e corrente prosa.

[5]É do Sr. Antonio Feliciano de Castilho a traducção d'esta odezinha, que deu lugar á composição do meu quadro. Foi immediatamente á leitura da Lyrica de Anacreonte, que eu tive a idéa de pôr em acção a ode do poeta de Teos, tão portuguezmente sahida das mãos do Sr. Castilho que mais parece original quo traducção. A concha não vale a perola; mas o delicado da perola disfarçará o grosseiro da concha.

[6]Simão de Vasconcellos não declara o nome da india, cuja acção refere em sua Chronica.

Achei que não foi o caso desta tamoya o unico em que tão galhardamente se manifestou a fidelidade conjugal e christã. O padre Anchieta, na carta escripta ao padre-mestre Laynez, a 16 de Abril de 1563, menciona o exemplo de uma india, mulher de um colono, a qual, depois de lh'o matarem os indios, caiu em poder destes, cujo Principal a quiz violentar. Ella resistiu e desapareceu. Os indios fizeram correr a voz de que se matára; Anchieta suppõe que elles mesmos lhe tiraram a vida. Caso analogo é referido pelo padre João Daniel (Thesouro descoberto no Amazonas, p. 2, cap. III); essa chamava-se Esperança e era da aldêa de Cabu.

[7]A villa de S. Vicente.

[8]Tinham os indios a religião monetheista que a tradicção lhes attribue? Nega-o positivamente o Sr. Dr. Conto de Magalhães em seu excellente estudo acerca dos selvagens, asseverando nunca ter encontrado a palavra Tupan nas tribus que frequentou, o ser admissivel a ideia de tal deus, no estado rudimentar dos nossos aborigenes.

O Sr. Dr. Magalhães restitue aos selvagens a theogonia verdadeira. Não integramente, mas só em relação ao sol e á lua. (Coaracy e Jacy), acho noticia della no Thesouro do padre João Daniel (citado em [1]); e o que então faziam os indios, quando apparecia a lua nova, me serviu á composição que vae incluida neste livro.

Sem embargo das razões allegadas pelo Sr. Dr. Magalhães, que todas são de incontestavel procedencia, conservei Tupan nos versos que ora dou a lume; fil-o por ir com as tradicções litterarias que achei, tradicções que nada valem no terreno da investigação scientifica, mas que tem por si o serem acceitas e haverem adquirido um como direito de cidade.

[9]É ocioso explicar em notas o sentido desta palavra e de outras, como pocema, mussurana, tangapema, kanitar, com as quais todo o leitor brasileiro está já familiarisado, graças ao uso que dellas teem feito poetas e prosadores. É tambem desnecessario fundamentar com trechos das chronicas a scena do sacrificio do prisioneiro, na estancia XI; são cousas comezinhas.

[10]Simão de Vasconcellos (Not. do Bras., liv. 2o.) citando Marcgraff e outros autores, conta, como verdadeira, a fabula a que alludem estes versos. Aproveitou-se d'alli uma comparação poetica: nada mais.

[11]Veja G. Dias, Ult. Cant., pag. 159:

... Quando meu corpo

Á terra, mãe commum...

[12]Anagé na lingua geral, quer dizer gavião.

[13]Tratando de descobrir a significação de Panenioxe, conforme escreve Rodrigues Prado, apenas achei no escasso vocabulario guaycurú, que vem em Ayres do Casal, a palavra nioxe traduzida por jacaré. Não pude accertar com a significação do primeiro membro da palavra, pane; ha talvez relação entre elle e o nome do rio Yppané.

[14]«Estas duas armas (lança e facão) tem sido tomadas aos portuguezes e hespanhóes, e algumas compradas a estes que inadvertidamente lh'as tem vendido.» (RODR. PRADO, Hist. dos Índios Cavalleiros.)

[15]Nanine é o nome transcripto na Hist. dos Índios Cavalleiros. Na lingua geral temos niani, que Martius traduz por infans. Esta fórma pareceu mais graciosa; e não duvidei adoptal-a, desde que o meu distincto amigo, Dr. Escragnolle Taunay, me asseverou que, no dialecto guaycurú, de que elle ha feito estudos, niani exprime a ideia de moça franzina, delicada, não lhe parecendo que exista a fórma empregada na monographia de Rodrigues Prado.

[16]Os Guaycurus dividem-se em nobres, plebeus ou soldados, e captivos. Do proprio texto que me serviu esta composição se vê a que ponto repugna aos nobres toda a alliança com pessoas de condição inferior.

A este proposito direi a anedocta que me foi referida por um distincto official da nossa armada, o capitão de fragata Sr. Henrique Baptista, que em 1857 esteve no Paraguay commandando o Japorá, entre o forte Coimbra e o estabelecimento Sebastopol. Ia muita vez a bordo do Japorá um chefe guaycurú, Capitãosinho, muito amigo da nossa officialidade. Tinha elle uma irmã, que outro chefe guaycurú, Lapagata, cortejava e desejava receber por espôsa. Lapagata recebêra o titulo de capitão das mãos do presidente de Matto-Grosso. Oppunha-se com todas as forças ao enlace o Capitãozinho. Um dia, perguntando-lhe o Sr. H. Batista por que motivo não consentia no casamento da irmã com Lapagata, respondeu o altivo Guaycurú:

—Oponho-me, porque eu sou capitão por herança de meu pae, que já o era por herança do pae delle. Lapagata é capitão de papel.

[17]As bocayuvas servem de alimento aos Guaycurús; nas proximidades de sazonarem os cocos fazem elles grandes festas. (Veja CASAL e PRADO).

[18]Taes eram os adornos das mulheres guaycurús. (Veja PRADO, CASAL e D'AZARA).

[19]«As moças ricas vão enfeitadas, como se ornariam para o proprio noivado.» (AIRES DO CASAL, Coroa., 280).

[20]Allude a um trecho do propheta Daniel: «9.—E lavei-te na agua, e alimpei-te do teu sangue; e te ungi com um oleo;

«13.—E foste enfeitada de ouro e prata, e vestida de linho e de roupas bordadas, e de diversas cores; nutriste-te da farinha e de mel e de azeite, e foste mui aformoseada em extremo.» (DANIEL, XV)

[21]Rebecca, filha da Mesopotamia.

[22]Bento do Amaral Gurgel, que dirigiu a companhia de estudantes por occasião daquella e da seguinte invasão, em 1711.

[23]Angela pratica o inverso daquelle conselho attribuido aos rabbinos de Constantinopla, respondendo aos judeus de Hespanha que batisassem os corpos, conservando as almas firmes na Lei. Angela conserva o baptismo da alma, e entrega o corpo ao supplicio como se fosse verdadeiramente judeu. Nega a fé com os labios, confessando-a no coração: maneira de conciliar o sentimento christão e a piedade filial.

[24]A verdadeira pronúncia desta palavra é an-hanga. É outro caso em que fui antes com a maneira corrente e commum na poesia.

[25]Il y aurait une fort grande injustice à juger jésuites du seizième siècle et leurs travaux, d'après les idées que peut inspirer le système suivi dans les missions. Là on peut voir des projets ambitieux s'allier à des vues habiles: dans les premiers travaux exécutés par les pères de la compagnie, au Brésil, tout fut désintéressé; et au besoin, Le récit de leurs souffrances pourrait le prouver. (F. DENIS, Le Brésil.)

[26]Veja nota [8].

«... E na verdade tem occasiões em que festejam muito a lua, como quando apparece nova; porque então saem de suas choupanas, dão saltos de prazer, saudam-n'a e dão-lhe as boas vindas.» (JOÃO DANIEL, Thes. descob. no Amaz., part. II, cap. X)

[27]Não me recordo de haver lido nos velhos escriptos sobre os nossos aborigenes a crença que Montaigne lhes attribue acerca das almas boas e más. Este grande moralista tinha informações certamente exactas a respeito dos indios; e aquella crença traz certamente um ar de verossimilhança. Não foi só isso o que me induziu a fazer taes versos; mas tambem o que achei poetico e gracioso na abusão.

[28]Tinha planeado uma composição de dimensões maiores, e não a levei a cabo, por intervirem outros trabalhos, que de todo me divertiram a attenção. Foi o nosso eminente poeta e litterato Porto Alegre, hoje barão de Santo Angelo, que ha cerca de quatro annos, me chamou a attenção para a relação de Monterroyo

Mascarenhas, Os Orizes conquistados, que vem na Rev. Inst. Hist., t. VIII.

A aspereza dos costumes daquelle povo, habitante do sertão da Bahia, cêrca de duzentas legoas da capital, sua rara energia, as circumstancias singulares da conquista e conversão da tribu, eram certamente um quadro excellente para uma composição poetica. Ficou em fragmento, que ainda assim não quis excluír do livro.

[29]«Lastimosamente cegos de discurso, reconhecem e adoram por deus a coruja, chamando na sua linguagem Oitipô-cupuaaba; e o motivo de sua adoração consiste na beneficio que recebem desta ave, que, naturalmente inimiga das cobras, numerosissimas naquelle paiz, as espia nos mattos, e lhes tira a vida.» (J. F. MONTERROYO MASCARENHAS, Os Orizes conquistados.)