Poesias Completas
Capítulo III
Em que não entrem moças? Descorada,
Como heroina de romance do hoje,
Alva, como as mais alvas deste mundo,
Tal, que disseras lhe negara o sangue
A madre natureza, Margarida
Tinha o suave, delicado aspecto
De uma santa de cêra, antes que a tinta
O matiz beatifico lhe ponha,
Era alta e fina, senhoril e bella,
Delicada e subtil. Nunca mais vivo
Transparecera em rosto de donzella
Vergonhoso pudor, agreste e rude,
Que até de uns simples olhos se offendia E chegava a corar, se o pensamento
Lhe adivinhava anonymo suspiro
Ou remota ambição de amante ousado.
Era vel-a, ao domingo, caminhando
Á missa, co'os parentes o os escravos
A um de fundo, em grave e compassada
Procissão; era ver-lhe a compostura,
A devoção com que escutava o padre,
E no agnus-dei levava a mão ao peito, Mão que enchia do fogos e desejos
Dez ou doze amadores respeitosos
De suas graças, varios na figura,
Na posição, na edade e no juizo,
E que alli mesmo, á luz dos bentos cyrios (Tão de longe vêm já os maus
costumes)!
Ousavam inda suspirar por ella.
III
Entre esses figurava o moço Vasco.
Vasco, a flôr dos vadios da cidade,
Namorador dos adros das egrejas,
Taful de cavalhadas, consummado