Poesias Completas
Capítulo V
E soltei, enterrando as minhas utopias,
O ultimo suspiro e a ultima oração;
Tambem eu junto a voz á voz da
natureza,
E soltando o meu hymno ardente e
triumphal,
Beijarei ajoelhado as plantas da beleza
E banharei minh'alma em tua luz,—Ideal!
Ouviste a natureza? Ás supplicas e ás
maguas
Tua alma de mulher deve de palpitar;
Mas que te não seduza o cantico das
aguas,
Não procures, Corinna, o caminho do
mar!
V
Guarda estes versos que escrevi
chorando
Como um alivio á minha soledade,
Como um dever do meu amor; e quando
Houver em ti um éco de saudade,
Beija estes versos que escrevi chorando.
Unico em meio das paixões vulgares,
Fui a teus pés queimar minh'alma
anciosa,
Como se queima o oleo ante os altares;
Tive a paixão indomita e fogosa,
Unica em meio das paixões vulgares.
Cheio de amor, vazio de esperança,
Dei para ti os meus primeiros passos;
Minha illusão fez-me, talvez, criança;
E eu pretendi dormir aos teus abraços,
Cheio de amor, vazio de esperança.
Refugiado á sombra do mysterio
Pude cantar meu hymno doloroso;
E o mundo ouviu o som doce ou funereo
Sem conhecer o coração ansioso
Refugiado á sombra do mysterio.
Mas eu que posso contra a sorte
esquiva?
Vejo que em teus olhares de princeza
Transluz uma alma ardente e compassiva Capaz de reanimar minha incerteza;
Mas eu que posso contra a sorte
esquiva?
Como um réo indefeso e abandonado,
Fatalidade, curvo-me ao teu gesto;
E se a perseguição me tem cansado.
Embora, escutarei o teu aresto,
Como um réo indefeso e abandonado.
Embora fujas aos meus olhos tristes,
Minh'alma irá saudosa, enamorada,
Acercar-se de ti lá onde existes;
Ouvirás minha lyra apaixonada,
Embora fujas aos meus olhos tristes.
Talvez um dia meu amor se extinga,
Como fogo de Vesta mal cuidado
Que sem o zelo da Vestal não vinga:
Na ausencia e no silencio condemnado
Talvez um dia meu amor se extinga.
Então não busques reavivar a chamma,
Evoca apenas a lembrança casta