Poesias Completas
Capítulo IX
A palavra da Lei, como nos dias
Do eleito povo; mas a doce nota
Do Evangelho não raro lhe batia
No alvoroçado peito,
Solemnissima e pura... Descambava
No entanto a lua. A noite era mais linda,
E mais augusta a solidão. Na alcova
Entre a pallida moça. Da parede
Um Christo pende; ela os joelhos dobra,
Os dedos cruza e reza,—não serena,
Nem alegre tambem, como costuma,
Mas a tremer-lhe nos formosos olhos
Uma lagrima.
IX
A lampada accendida
Sobre a meza do velho, as largas folhas
Allumia de um livro. O maximo era
Dos livros todos. A escolhida lauda
Era a do canto dos captivos que iam
Pelas ribas do Euphrates, relembrando
As desgraças da patria. A sós, com elles, Suspira o velho aquelle psalmo antigo:
Junto os rios da terra amaldiçoada
De Babylonia, um dia nos sentamos,
Com saudades de Sião amada.
As harpas nos salgueiros penduramos,
E ao relembrarmos os extintos dias
As lagrimas dos olhos desatamos.
Os que nos davam cruas agonias
De captiveiro, alli nos perguntavam
Pelas nossas antigas harmonias.
E diziamos nós aos que fallavam:
«Como em terra de exilio amargo e duro
Cantar os hymnos que ao Senhor
louvavam?»
Jerusalem, se inda n'um sol futuro,
Eu desviar de ti meu pensamento
E teu nome entregar a olvido escuro,
A minha dextra a frio esquecimento
Votada seja; apegue-se á garganta
Esta lingua infiel, se um só momento
Me não lembrar de ti, se a grande e
santa
Jerusalem não for minha alegria
Melhor no meio de miseria tanta.
Oh! lembra-lhes, Senhor, aquelle dia
Da abatida Sião, lembra-lh'o aos duros
Filhos de Edom, e á voz que alli dizia:
Arruinai-a, arruinai-a; os muros
Arrazemol-os todos; só lhe baste
Um montão de destroços mal seguros.
Filha de Babylonia, que peccaste,
Abençoado o que se houver comtigo
Com a mesma oppressão que nos
mostraste!
Abençoado o barbaro inimigo
Que os tenros filhos teus ás mãos
tomando,
Os for, por teu justissimo castigo,
Contra um duro penedo esmigalhando!