Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 105 de 161

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Capítulo V

Angela ouvira as vozes da cidade,

As vozes do furor. Já receiosa,

Tremula, foge á alcova e se encaminha

Á camera paterna. Ia transpondo

A franqueada porta... e pára. O peito

Rompe-lh'o quasi o coração,—tamanho

É o palpitar, um palpitar de gosto,

De sorpresa e de susto. Aquelles olhos,

Aquella graça mascula do gesto,

Graça e olhos são delle, o amado noivo,

Que entre os mais homens elegeu sua

alma

Para o vínculo eterno... Sim, que a morte Póde arrancar ao seio humano o alento

Ultimo e derradeiro; os que deveras

Unidos foram, volverão unidos

A mergulhar na eternidade. Estava

Junto do velho pae o gentil moço,

Elle todo agitado, o ancião sombrio,

Calados ambos. A attitude de ambos,

O mysterioso, gelido silencio,

Mais que tudo, a presença nunca usada

Daquelle homem ali, que mal a espreita

De longe e a furto, nos instantes breves

Em que lhe é dado vel-a, tudo á moça

O animo abala e o coração enfia.

V

Mas o tropel de fóra avulta e cresce

E os tres accorda. A virgem, lentamente,

Rosto inclinado ao chão, transpõe o

espaço

Que dos dous a separa... O tenro collo

Curva ante o pae, e na enrugada dextra

O osculo imprime, herdada usança antiga De filial respeito. As mãos lhe toma