Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 148 de 161

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Poesias Completas

Dante

d'el-rei!»

Um lobo, algo lettrado, arenga e

persuade

Que era força immolar esse bicho

nefando,

Empesteado autor de tal calamidade;

E o pecadilho foi julgado

Um attentado.

Pois comer erva alheia! ó crime

abominando!

Era visto que só a morte

Poderia purgar um peccado tão duro.

E o burro foi ao reino escuro.

Segundo sejas tu miseravel ou forte

Aulicos te farão detestavel ou puro.

 

DANTE

(PURGATORIO, canto XXV)

Acabara o ladrão, e, ao ar erguendo

As mãos em figas, deste modo brada:

«Olha, Deus, para ti o estou fazendo!»

E desde então me foi a serpe amada,

Pois uma vi que o collo lhe prendia,

Como a dizer: «não falarás mais nada!»

Outra os braços na frente lhe cingia

Com tantas voltas e de tal maneira

Que elle fazer um gesto não podia.

Ah! Pistoia, por que n'uma fogueira

Não ardes tu, se a mais e mais impuros,

Teus filhos vão nessa mortal carreira?

Eu, em todos os circulos escuros

Do inferno, alma não vi tão rebellada,

Nem a que em Thebas resvalou dos

muros.

E ele fugiu sem proferir mais nada.

Logo um centauro furioso assoma

A bradar: «Onde, aonde a alma

damnada?»

Maremma não terá tamanha somma

De reptis quanta vi que lhe ouriçava

O dorso inteiro desde a humana coma.

Junto á nuca do monstro se elevava

De asas abertas um dragão que enchia

De fogo a quanto alli se approximava.

«Aquelle é Caco,—o Mestre me dizia,—

Que, sob as rochas do Aventino, ousado

Lagos de sangue tanta vez abria.

«Não vae de seus irmãos acompanhado

Porque roubou malicioso o armento

Que alli pascia na campanha ao lado,

«Hercules com a maça e golpes cento,

Sem lhe doer um decimo ao nefando,

Poz remate a tamanho atrevimento.»

Ele falava, e o outro foi andando.

No emtanto embaixo vinham para nós

Trez espiritos que só vimos quando

Atroára este grito: «Quem sois vós?»

Nisto a conversa nossa interrompendo

Elle, como eu, no grupo os olhos pôz.

Eu não os conheci, mas succedendo,

Como outras vezes succeder é certo,

Que o nome de um estava outro dizendo,

«Cianfa aonde ficou?» Eu, por que

esperto

E attento fosse o Mestre em escutal-o,

Puz sobre a minha boca o dedo aberto.

Leitor, não maravilha que acceital-o

Ora te custe o que vás ter presente,

Pois eu, que o vi, mal ouso acredital-o.

Eu contemplava, quando uma serpente

De seis pés temerosa se lhe atira

A um dos trez e o colhe de repente.

Co'os pés do meio o ventre lhe cingira,

Com os da frente os braços lhe peava,

E ambas as faces lhe mordeu com ira.

Os outros dous ás coxas lhe alongava,

E entre ellas insinua a cauda que ia

Tocar-lhes os rins e dura os apertava.

A hera não se enrosca nem se enfia

Pela arvore, como a horrivel féra

Ao peccador os membros envolvia.

Como se fossem derretida cera,

Um só vulto, uma côr iam tomando,

Quaes tinham sido nenhum delles era.

Tal o papel, se o fogo o vae queimando,

Antes de negro estar, e já depois

Que o branco perde, fusco vae ficando.

Os outros dous bradavam: «Ora pois,

Agnel, ai triste, que mudança é essa?

Olha que já não és nem um nem dous!»

Faziam ambas uma só cabeça,

E na unica face um rosto mixto,

Onde eram dous, a apparecer começa.

Dos quatro braços dous restavam, e isto, Pernas, coxas e o mais ia mudado

N'um tal composto que jamais foi visto.

Todo o primeiro aspecto era acabado;

Dous e nenhum era a cruel figura,

E tal se foi a passo demorado.

Qual camaleão, que variar procura

De sebe ás horas em que o sol esquenta, E correndo parece que fulgura,

Tal uma curta serpe se apresenta,

Para o ventre dos dous corre accendida,

Livida e côr de um bago de pimenta.

E essa parte por onde foi nutrida

Tenra creança antes que á luz saisse,

N'um delles morde, e cae toda estendida.

O ferido a encarou, mas nada disse;

Firme nos pés, apenas bocejava,

Qual se de febre ou somno alli caisse.

Frente a frente, um ao outro

contemplava,

E á chaga de um, e á boca de outro, forte

Fumo saía e no ar se misturava.

Cale agora Lucano a triste morte

De Sabello e Nasidio, e attento esteja

Que o que lhe vou dizer é de outra sorte.

Cale-se Ovidio e neste quadro veja

Que, se Arethusa em fonte nos ha posto

E Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.

Pois duas naturezas rosto a rosto

Não transmudou, com que elas de

repente

Trocassem a materia e o ser opposto.

Tal era o accordo entre ambas que a

serpente

A cauda em duas caudas fez partidas,

E a alma os pés ajuntáva estreitamente.

Pernas e coxas vi-as tão unidas

Que nem leve sinal dava a juntura

De que tivessem sido divididas.

Imita a cauda bifida a figura

Que alli se perde, e a pele abranda, ao

passo

Que a pelle do homem se tornava dura.

Em cada axilla vi entrar um braço,

A tempo que iam esticando á fera

Os dous pés que eram de tamanho

escasso.

Os pés de traz a serpe os retorcêra

Até formarem-lhe a encoberta parte,

Que no infeliz em pés se convertêra.

Emquanto o fumo os cobre, e de tal arte

A côr lhes muda e põe á serpe o vello

Que já da pelle do homem se lhe parte,

Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcel-o Aquelle torvo olhar com que ambos iam

A trocar entre si o rosto e a vel-o.

Ao que era em pé as carnes lhe fugiam

Para as fontes, e alli do que abundava

Duas orelhas de homem lhe saiam.

E o que de sobra ainda lhe ficava

O nariz lhe compõe e lhe perfaz

E o labio lhe engrossou quanto bastava.

A boca estende o que por terra jaz

E as orelhas recolhe na cabeça,

Bem como o caracol ás pontas faz.

A lingua, que era então de uma só peça,

E prestes a falar, fendida vi-a,

Emquanto a do outro se une, e o fumo

cessa.

A alma, que assim tornado em serpe

havia,

Pelo valle fugiu assobiando,

E esta lhe ia falando e lhe cuspia.

Logo a recente espadua lhe foi dando

E á outra disse: «Ora com Buoso mudo,

Rasteje, como eu vinha rastejando!»

Assim na cova setima vi tudo

Mudar e transmudar; a novidade