Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 151 de 161

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Poesias Completas

A uma Senhora que Me Pediu Versos

«Passaro ou moça, fique o olhar amigo,

O nobre gesto e as graças excellentes

Da nossa cara e lepida Maria.»

 

A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS

Pensa em ti mesma, acharás

Melhor poesia,

Viveza, graça, alegria,

Doçura e paz.

Se já dei flôres um dia,

Quando rapaz,

As que ora dou tem assaz

Melancolia.

Uma só das horas tuas

Valem um mez

Das almas já ressequidas.

Os soes e as luas

Creio bem que Deus os fez

Para outras vidas.

 

CLODIA

Era Clodia a vergontea illustre e rara

De uma familia antiga. Tez morena,

Como a casca do pecego, deixava

Transparecer o sangue e a juventude.

Era a romana ardente e imperiosa

Que os écos fatigou de Roma inteira

Co'a narração das longas aventuras.

Nunca mais gentil fronte o sol da Italia

Amoroso beijou, nem mais gracioso

Corpo envolveram tunicas de Tyro.

Sombrios, como a morte, os olhos eram.

A vermelha botina em si guardava

Breve, divino pé. Humida boca,

Como a rosa que os zephyros convida,

Os beijos convidava. Era o modelo

Da luxuosa Lamia,—aquella moça

Que o marido esqueceu, e amou sem

pejo

O musico Pollião. De mais, fazia

A illustre Clodia trabalhados versos;

A cabeça curvava pensativa

Sobre as tabellas núas; invocava

Do classico Parnaso as musas bellas,

E, se não mente linguaruda fama,

Davam-lhe inspiração vadias musas.

O ideal da matrona austera e fria,

Caseira e nada mais, esse acabava.

Bem hajas tu, patricia desligada

De preconceitos vãos, tu que presides

Ao festim dos rapazes, tu que estendes

Sobre verdes coxins airosas fórmas,

Enquanto o esposo, consultando os

dados,

Perde risonho válidos sestereios...

E tu, viuva misera, deixada

Na flôr dos anos, merencoria e triste,

Que seria de ti, se o gozo e o luxo

Não te alegrassem a alma? Cedo

esquece

A memoria de um obito. E bem hajas,

Discreto esposo, que morreste a tempo.

Perdes, bem sei, dos teus rivaes sem

conta

Os custosos presentes, as ceiatas,

Os jantares opiparos. Comtudo,

Não verás cheia a casa de creanças

Loiras obras de artífices extranhos.

Baias recebe a celebrada moça

Entre festins e jubilos. Faltava

Ao pomposo jardim das lacias flôres

Esta rosa de Pœstum. Chega; é ella,

É ella, a amavel dona. O céu ostenta

A larga face azul, que o sol no occaso

Co'os frouxos raios desmaiado tinge.

Terno e brando abre o mar o espumeo

seio;

Molles respiram virações do golpho.

Clodia chega. Tremei, moças amadas;

Ovelhinhas dos placidos idylios,

Roma vos manda esta faminta loba.

Prendei, prendei com vínculos de ferro,

Os voluveis amantes, que os não veja

Esta formosa Páris. Inventai-lhes

Um philtro protector, um philtro ardente,

Que o fogo leve aos corações rendidos,

E aos vossos pés eternamente os

prenda;

Clodia... Mas, quem pudera, a frio e a

salvo,

Um requebro affrontar daquelles olhos

Ver-lhe o turgido seio, as mãos, o talhe,

O andar, a voz, ficar marmore frio

Ante as supplices graças? Menor pasmo

Fôra, se ao gladiador, em pleno circo,

A panthera africana os pés lambesse,

Ou se, á cauda de indomito cavallo,

Ovantes hostes arrastassem Cesar.

Coroados de rosas os convivas

Entram. Trajam com graça vestes novas

Tafues de Italia, finos e galhardos

Patricios da republica expirante,

E madamas faceiras. Vem entre elles

Celio, a flôr dos vadios, nobre moço,

E opulento, o que é mais. Ambicioso

Quer triumphar na classica tribuna

E honras aspira até do consulado.

Mais custoso lavor não vestem damas,

Nem aroma melhor do seio exhalam.

Tem na altivez do olhar sincero orgulho,

E certo que o merece. Entre os rapazes

Que á noite correm solitarias ruas,

Ou nos jardins de Roma o luxo ostentam, Nenhum como elle, com mais ternas

falas,

Galanteou, vencendo, as raparigas.

Entra: pregam-se nelle cobiçosos

Olhos que amor venceu, que amor

domina,

Olhos fieis ao férvido Catullo.

O poeta estremece. Brando e frio,

O marido de Clodia os olhos lança

Ao mancebo, e um sorriso complacente

A boca lhe abre. Imparcial na luta,

Vença Catullo ou Celio, ou vençam

ambos.

Não se lhe oppõe o dono: o aresto

acceita.

Vistes já como as ondas tumultuosas,

Uma após outra, vem morrer á praia,

E mal se rompe o espumeo seio áquella. Já esta corre e expira? Tal no peito

Da calorosa Lesbia nascem, morrem

As voluveis paixões. Vestal do crime,

Dos amores vigia a chamma eterna,

Não a deixa apagar; prompto lhe lança

Oleo com que a alimente. Enrubescido

De ternura e desejo o rosto volve

Ao mancebo gentil. Baldado empenho!

Indifferente aos magicos encantos,

Celio contempla a moça. Olhar mais frio,

Ninguem deitou jamais a graças tantas.

Ella insiste; ele foge-lhe. Vexada,

A moça inclina languida a cabeça...

Tu nada vês, desapegado esposo,

Mas o amante vê tudo.

Clodia arranca

Uma rosa da fronte, e as folhas deita

Na taça que enche generoso vinho.

«Celio, um brinde aos amores!» diz, e

entregalh'a.

O cortejado moço os olhos lança,

Não a Clodia, que a taça lhe offerece,

Mas a outra não menos afamada,

Dama de igual prosapia e eguaes

campanhas,

E taça igual lhe acceita. Affronta é esta

Que á moça faz subir o sangue ás faces, Aquelle sangue antigo, e raro, e illustre,

Que atravessou purissimo e sem mescla

A corrente dos tempos... Uma Clodia!

Tamanha injuria! Ai, não! mais que a

vaidade,

Mais que o orgulho de raça, o que te

peza,

O que te faz doer, viciosa dama,

É ver que um rival merece o zelo

Deste pimpão de amores e aventuras.

Pega na taça o nescio esposo e bebe,

Com o vinho, a vergonha. Sombra triste,

Sombra de occultas e profundas magoas, Tolda a fronte ao poeta.

Os mais, alegres,

Vão ruminando a saborosa ceia;

Circúla o dito equivoco e chistoso,

Comentam-se os decretos do senado,

O molho mais da moda, os versos

ultimos

De Catullo, os leões mandados de Africa E as victorias de Cesar. O epigramma

Rasga a pelle ao caudilho triumphante;

Chama-lhe este: «O larapio endividado», Aquelle: «Venus calva», outro: «O

bithynio...»

Opposição de ceias e jantares,

Que a marcha não impede ao crime e á

gloria.

Sem liteira, nem lybicos escravos,

Clodia vae consultar armenio aruspice.

Quer saber se hade Celio amal-a um dia

Ou desprezal-a sempre. O armenio

estava

Meditabundo, á luz escassa e incerta

De uma candeia etrusca; aos ombros

delle

Decrepita coruja os olhos abre.

«Velho, aqui tens dinheiro (a moça fala),

Se á tua inspiração é dado agora

Adivinhar as cousas do futuro,

Conta-me...» O resto expõe. Ergue-se o

velho

Subito. Os olhos lança cobiçosos

Á fulgente moeda.—«Saber queres

Se te hade amar esse mancebo

esquivo?»

—«Sim.»—Cochilava a um canto

descuidada

A avezinha de Venus, branca pomba.

Lança mão della o aruspice, e de um

golpe

Das entranhas lhe arranca o sangue e a

vida.

Olhos fitos no velho a moça aguarda

A sentença da sorte; empallidece

Ou ri, conforme do ancião no rosto

Ocultas impressões vem debuxar-se.

«Bem haja Venus! a victoria é tua!

O coração da victima palpita

Inda que morto já...»

Não eram ditas

Estas palavras, entra um vulto... É elle?

És tu, cioso avante!

A voz lhes falta

Aos dous, contemplam-se ambos,

interrogam-se;

Rompe afinal o lugubre silencio...

Quando o vate acabou, tinha nos braços

A namorada moça. Lacrimosa,

Tudo confessa. Tudo lhe perdôa

O desvairado amante. «Nuvem leve

Isto foi; deixa lá memorias tristes,

Erros que te perdoo; amemos, Lesbia;

A vida é nossa; é nossa a juventude.»

«Oh! tu és bom!»—«Não sei; amo e mais

nada.

Foge o mal donde amor plantou seus

lares.

Amar é ser do céu.» Supplices olhos