Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 78 de 161

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Poesias Completas

Capítulo V

E á luz já viva da manhã recente

Contempla as nuas fórmas. Era acaso

A syncope chegada ao termo proprio,

Ou, no pejo offendida, ás mãos

extranhas

A desmaiada moça despertára.

Potyra accorda, os olhos lança em torno, Fita, vê, comprehende, e inquieta busca

Fugir do vencedor ás mãos e ao crime...

Misera! opõe-se-lhe o irritado gesto

Do asperrimo guerreiro; um ai lhe sobe

Angustioso e triste aos labios tremulos,

Sobe, murmura e suffocado expira.

Na rede envolve o corpo, e, desviando

Do terrivel tamoyo os lindos olhos,

Entrecortada prece aos céus envia,

E as faces banha de serenas lagrimas.

V

Longo tempo correra. Amplo silencio

Reinou entre ambos. Do tamoyo a fronte

Pouco a pouco despira o torvo aspecto.

Ao trabalhado espirito, revolto

De mil sinistros pensamentos, volve

Benigna calma. Tal de um rio engrossa

O volume extensissimo das aguas

Que vão enchendo de pavor os ecos,

Vencendo no arruido o vento e o raio,

E pouco a pouco atenuando as vozes,

Adelgaçando as ondas, tornam mansas

Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina,

Para tomar nos braços a formosa

Por cujo amor incendiara a aldêa

Daquellas gentes pallidas de Europa.

Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o

rosto,

O rosto inda de lagrimas molhado,

Do coração estas palavras solta:

«—Lá entre os meus, suave e amiga

morte,

Ah! porque me não deste? Houvera ao

menos

Quem escutasse de meus labios frios

A prece derradeira; e a santa benção

Levaria minha alma aos pés do Eterno...

Não, não te peço a vida; é tua, extingue-

a;

Um só allivio imploro. Não receies

Embeber no meu sangue a ervada setta; Mata-me, sim; mas leva-me onde eu

possa

Ter em sagrado leito o ultimo somno!»

Disse, e fitando no indio avidos olhos,

Esperou. Anagê sacode a fronte,

Como se lhe pesara ideia triste;

Crava os olhos no chão; lentas lhe saem

Estas vozes do peito.

«Oh! nunca

os padres

Pisado houvessem estas plagas virgens! Nunca de um deus estranho as leis

ignotas

Viessem perturbar as tribos, como

Perturba o vento as aguas! Rosto a rosto Os guerreiros pelejam: matam, morrem.

Ante o fulgor das armas inimigas

Não descora o tamoyo. Assaz lhe pulsa

Valor nativo e raro em peito livre.

Armas, deu-lh'as Tupan novas e eternas

Nestas mattas vastissimas. De sangue

Extranhos rios hão de, ao mar correndo,

Tristes novas levar á patria delles,

Primeiro que o tamoyo a frente incline