Poesias Completas
Capítulo V
E á luz já viva da manhã recente
Contempla as nuas fórmas. Era acaso
A syncope chegada ao termo proprio,
Ou, no pejo offendida, ás mãos
extranhas
A desmaiada moça despertára.
Potyra accorda, os olhos lança em torno, Fita, vê, comprehende, e inquieta busca
Fugir do vencedor ás mãos e ao crime...
Misera! opõe-se-lhe o irritado gesto
Do asperrimo guerreiro; um ai lhe sobe
Angustioso e triste aos labios tremulos,
Sobe, murmura e suffocado expira.
Na rede envolve o corpo, e, desviando
Do terrivel tamoyo os lindos olhos,
Entrecortada prece aos céus envia,
E as faces banha de serenas lagrimas.
V
Longo tempo correra. Amplo silencio
Reinou entre ambos. Do tamoyo a fronte
Pouco a pouco despira o torvo aspecto.
Ao trabalhado espirito, revolto
De mil sinistros pensamentos, volve
Benigna calma. Tal de um rio engrossa
O volume extensissimo das aguas
Que vão enchendo de pavor os ecos,
Vencendo no arruido o vento e o raio,
E pouco a pouco atenuando as vozes,
Adelgaçando as ondas, tornam mansas
Ao primitivo leito. Ei-lo se inclina,
Para tomar nos braços a formosa
Por cujo amor incendiara a aldêa
Daquellas gentes pallidas de Europa.
Sente-lhe a moça as mãos, e erguendo o
rosto,
O rosto inda de lagrimas molhado,
Do coração estas palavras solta:
«—Lá entre os meus, suave e amiga
morte,
Ah! porque me não deste? Houvera ao
menos
Quem escutasse de meus labios frios
A prece derradeira; e a santa benção
Levaria minha alma aos pés do Eterno...
Não, não te peço a vida; é tua, extingue-
a;
Um só allivio imploro. Não receies
Embeber no meu sangue a ervada setta; Mata-me, sim; mas leva-me onde eu
possa
Ter em sagrado leito o ultimo somno!»
Disse, e fitando no indio avidos olhos,
Esperou. Anagê sacode a fronte,
Como se lhe pesara ideia triste;
Crava os olhos no chão; lentas lhe saem
Estas vozes do peito.
«Oh! nunca
os padres
Pisado houvessem estas plagas virgens! Nunca de um deus estranho as leis
ignotas
Viessem perturbar as tribos, como
Perturba o vento as aguas! Rosto a rosto Os guerreiros pelejam: matam, morrem.
Ante o fulgor das armas inimigas
Não descora o tamoyo. Assaz lhe pulsa
Valor nativo e raro em peito livre.
Armas, deu-lh'as Tupan novas e eternas
Nestas mattas vastissimas. De sangue
Extranhos rios hão de, ao mar correndo,
Tristes novas levar á patria delles,
Primeiro que o tamoyo a frente incline