Poesias Completas
Os Animais Iscados da Peste
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lepida cantiga,
Quiz transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua edade antiga,
Naquella mesma velha noite amiga,
Noite christã, berço do Nazareno.
Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e
manca,
A penna não acode ao gesto seu.
E, em vão lutando contra o metro
adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
«Mudaria o Natal ou mudei eu?»
OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE
(LA FONTAINE)
Mal que espalha o terror e que a ira
celeste
Inventou para castigar
Os peccados do mundo, a peste, em
summa, a peste,
Capaz de abastecer o Aqueronte n'um
dia,
Veio entre os animaes lavrar;
E, se nem tudo succumbia,
Certo é que tudo adoecia.
Já nenhum, por dar mate ao moribundo
alento,
Catava mais nenhum sustento.
Não havia manjar que o appetite abrisse,
Raposa ou lobo que saisse
Contra a presa innocente e
mansa,
Rola que á rola não fugisse,
E onde amor falta, adeus,
folgança!
O leão convocou uma assembléa e
disse:
«Sócios meus, certamente este infortunio
veio
A castigar-nos de peccados.
Que o mais culpado entre os
culpados
Morra por applacar a colera divina.
Para a commum saúde esse é, talvez, o
meio.
Em casos taes é de uso haver
sacrificados;
Assim a historia nol-o ensina.
Sem nenhuma illusão, sem nenhuma
indulgencia,
Pesquizemos a consciencia.
Quanto a mim, por dar mate ao impeto
glotão,
Devorei muita carneirada.
Em que é que me offendera? em
nada.
E tive mesmo occasião
De comer egualmente o guarda da
manada.
Portanto, se é mister sacrificar-me,
prompto.
Mas, assim como me accusei,
Bom é que cada um se accuse, de tal
sorte
Que (devemos querel-o, e é de todo
ponto
Justo) caiba ao maior dos culpados a
morte.»
«—Meu senhor, accudiu a raposa, é ser
rei
Bom demais; é provar melindre
exagerado.
Pois então devorar carneiros,
Raça lorpa e villã, pode lá ser peccado?
Não. Vós fizestes-lhes, senhor,
Em os comer, muito favor.
E no que toca aos pegureiros,
Toda a calamidade era bem merecida,
Pois são daquellas gentes taes
Que imaginaram ter posição mais subida
Que a de nós outros animaes.»
Disse a raposa, e a corte applaudiu-lhe o
discurso.
Ninguem do tigre nem do urso,
Ninguem de outras iguaes senhorias do
matto,
Inda entre os actos mais
damninhos,
Ousava esmerilhar um acto;
E até os ultimos rafeiros,
Todos os bichos resingueiros,
Não eram, no entender geral, mais que
uns santinhos.
Eis chega o burro:«—Tenho ideia que no
prado
De um convento, indo eu a passar, e
picado
Da occasião, da fome e do capim viçoso,
E póde ser que do tinhoso,
Um bocadinho lambisquei
Da plantação. Foi um abuso, isso é
verdade.»
Mal o ouviu, a assembléa exclama: «Aqui