Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 147 de 161

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Poesias Completas

Os Animais Iscados da Peste

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lepida cantiga,

Quiz transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua edade antiga,

Naquella mesma velha noite amiga,

Noite christã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e

manca,

A penna não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro

adverso,

Só lhe saiu este pequeno verso:

«Mudaria o Natal ou mudei eu?»

 

OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE

(LA FONTAINE)

Mal que espalha o terror e que a ira

celeste

Inventou para castigar

Os peccados do mundo, a peste, em

summa, a peste,

Capaz de abastecer o Aqueronte n'um

dia,

Veio entre os animaes lavrar;

E, se nem tudo succumbia,

Certo é que tudo adoecia.

Já nenhum, por dar mate ao moribundo

alento,

Catava mais nenhum sustento.

Não havia manjar que o appetite abrisse,

Raposa ou lobo que saisse

Contra a presa innocente e

mansa,

Rola que á rola não fugisse,

E onde amor falta, adeus,

folgança!

O leão convocou uma assembléa e

disse:

«Sócios meus, certamente este infortunio

veio

A castigar-nos de peccados.

Que o mais culpado entre os

culpados

Morra por applacar a colera divina.

Para a commum saúde esse é, talvez, o

meio.

Em casos taes é de uso haver

sacrificados;

Assim a historia nol-o ensina.

Sem nenhuma illusão, sem nenhuma

indulgencia,

Pesquizemos a consciencia.

Quanto a mim, por dar mate ao impeto

glotão,

Devorei muita carneirada.

Em que é que me offendera? em

nada.

E tive mesmo occasião

De comer egualmente o guarda da

manada.

Portanto, se é mister sacrificar-me,

prompto.

Mas, assim como me accusei,

Bom é que cada um se accuse, de tal

sorte

Que (devemos querel-o, e é de todo

ponto

Justo) caiba ao maior dos culpados a

morte.»

«—Meu senhor, accudiu a raposa, é ser

rei

Bom demais; é provar melindre

exagerado.

Pois então devorar carneiros,

Raça lorpa e villã, pode lá ser peccado?

Não. Vós fizestes-lhes, senhor,

Em os comer, muito favor.

E no que toca aos pegureiros,

Toda a calamidade era bem merecida,

Pois são daquellas gentes taes

Que imaginaram ter posição mais subida

Que a de nós outros animaes.»

Disse a raposa, e a corte applaudiu-lhe o

discurso.

Ninguem do tigre nem do urso,

Ninguem de outras iguaes senhorias do

matto,

Inda entre os actos mais

damninhos,

Ousava esmerilhar um acto;

E até os ultimos rafeiros,

Todos os bichos resingueiros,

Não eram, no entender geral, mais que

uns santinhos.

Eis chega o burro:«—Tenho ideia que no

prado

De um convento, indo eu a passar, e

picado

Da occasião, da fome e do capim viçoso,

E póde ser que do tinhoso,

Um bocadinho lambisquei

Da plantação. Foi um abuso, isso é

verdade.»

Mal o ouviu, a assembléa exclama: «Aqui