Poesias Completas
Os Orises[28]
A pena contemplou maior do que era
O delicto; e de colera tomado,
«Ao mais alto dos Andes estendera
O forte braço, e da arvore mais forte
A setta e o arco vingador colhêra;
«As pontas lhe dobrou, da mesma sorte
Que o junco dobra, sussurrando o vento, E de um só tiro lhe enviou a morte.”
Ia assim suspirando este lamento,
Quando subitamente a voz lhe cala,
Como se a dor lhe suffocára o alento.
No ar se perdêra a lastimosa falla,
E o infeliz, condenado á noite escura,
Os dentes range e treme de encontral-a.
Leva os olhos na viva aurora pura
Em que vê penetrar, já longe, aquella
Doce, mimosa, virginal figura.
Assim no campo a timida gazella
Foge e se perde; assim no azul dos
mares
Some-se e morre fugidia vela.
E nada mais se viu fluctuar nos ares;
Que elle, bebendo as lagrimas que
chora,
Na noite entrou dos immortaes pesares,
E ella de todo mergulhou na aurora.
OS ORISES[28]