Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 131 de 161

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Poesias Completas

Circulo Vicioso

Frio, inerte, ao abysmo um corpo morto

rue;

Acabára o supplicio e acabára o homem.

 

CIRCULO VICIOSO

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-

lume:

—«Quem me dera que fosse aquella

loura estrella,

Que arde no eterno azul, como uma

eterna vela!»

Mas a estrella, fitando a lua, com ciume:

—«Pudesse eu copiar o transparente

lume,

Que, da grega columna á gothica janella, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e

bella!»

Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

—«Misera! tivesse eu aquella enorme,

aquella

Claridade immortal, que toda a luz

resume!»

Mas o sol, inclinando a rutila capella:

—«Pesa-me esta brilhante aureola de

nume...

Enfara-me esta azul e desmedida

umbella...

Por que não nasci eu um simples

vagalume?»

 

UMA CREATURA

Sei de uma creatura antiga e formidavel,

Que a si mesma devora os membros e

as entranhas

Com a sofreguidão da fome insaciavel.

Habita juntamente os valles e as

montanhas;

E no mar, que se rasga, á maneira de

abysmo,

Espreguiça-se toda em convulsões

extranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro

despotismo;

Cada olhar que despede, acerbo e

mavioso,

Parece uma expansão de amor e de

egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o

gozo,

Gosta do colibri, como gosta do verme,

E cinge ao coração o bello e o

monstruoso.

Para ella o chacal é, como a rola, inerme; E caminha na terra imperturbavel, como

Pelo vasto areal um vasto paquyderme.

Na arvore que rebenta o seu primeiro

gomo

Vem a folha, que lento e lento se

desdobra,

Depois a flôr, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra:

Cresta o seio da flôr e corrompe-lhe o