Poesias Completas
Circulo Vicioso
Frio, inerte, ao abysmo um corpo morto
rue;
Acabára o supplicio e acabára o homem.
CIRCULO VICIOSO
Bailando no ar, gemia inquieto vaga-
lume:
—«Quem me dera que fosse aquella
loura estrella,
Que arde no eterno azul, como uma
eterna vela!»
Mas a estrella, fitando a lua, com ciume:
—«Pudesse eu copiar o transparente
lume,
Que, da grega columna á gothica janella, Contemplou, suspirosa, a fronte amada e
bella!»
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:
—«Misera! tivesse eu aquella enorme,
aquella
Claridade immortal, que toda a luz
resume!»
Mas o sol, inclinando a rutila capella:
—«Pesa-me esta brilhante aureola de
nume...
Enfara-me esta azul e desmedida
umbella...
Por que não nasci eu um simples
vagalume?»
UMA CREATURA
Sei de uma creatura antiga e formidavel,
Que a si mesma devora os membros e
as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciavel.
Habita juntamente os valles e as
montanhas;
E no mar, que se rasga, á maneira de
abysmo,
Espreguiça-se toda em convulsões
extranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro
despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e
mavioso,
Parece uma expansão de amor e de
egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o
gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o bello e o
monstruoso.
Para ella o chacal é, como a rola, inerme; E caminha na terra imperturbavel, como
Pelo vasto areal um vasto paquyderme.
Na arvore que rebenta o seu primeiro
gomo
Vem a folha, que lento e lento se
desdobra,
Depois a flôr, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flôr e corrompe-lhe o