Poesias Completas

Machado de Assis · Capítulo 4 de 161

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Poesias Completas

Quinze Annos

Foi, sim, mas visão apenas;

Daquellas visões amenas

Que á mente dos infelizes

Descem vivas e animadas,

Cheias de luz e esperança

E de celestes matizes;

Mas, apenas dissipadas,

Fica uma leve lembrança,

Não ficam outras raizes.

Inda assim, embora sonho,

Mas, sonho doce e risonho,

Désse-me Deus que fingida

Tivesse aquella ventura

Noite por noite, hora a hora,

No que me resta de vida,

Que, já livre da amargura,

Alma, que em dores me chora.

Chorára de agradecida!

 

QUINZE ANNOS

Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée, Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?

ALFRED DE MUSSET

Era uma pobre criança...

—Pobre criança, se o eras!—

Entre as quinze primaveras

De sua vida cançada

Nem uma flôr de esperança

Abria a medo. Eram rosas

Que a douda da esperdiçada

Tão festivas, tão formosas,

Desfolhava pelo chão.

—Pobre criança, se o eras!—

Os carinhos mal gozados

Eram por todos comprados,

Que os affectos de sua alma

Havia-os levado á feira,

Onde vendera sem pena

Até a illusão primeira

Do seu doudo coração!

Pouco antes, a candura,

Co'as brancas azas abertas,

Em um berço de ventura

A criança acalentava

Na santa paz do Senhor;

Para accordal-a era cedo,

E a pobre ainda dormia

Naquelle mudo segredo

Que só abre o seio um dia

Para dar entrada a amor.

Mas, por teu mal, acordaste!

Junto do berço passou-te

A festiva melodia

Da seducção... e acordou-te!

Colhendo as limpidas azas,

O anjo que te velava

Nas mãos tremulas e frias

Fechou o rosto... chorava!

Tu, na sede dos amores,

Colheste todas as flôres

Que nas orlas do caminho

Foste encontrando ao passar;

Por ellas, um só espinho

Não te feriu... vás andando...